sábado, 30 de junho de 2012

DO DIREITO DE SER MENINO

De volta - e agora intensamente - à tese (leituras, escritas, pesquisas, apreciação de vídeos, acompanhamento de jogos) deparo-me com as delícias do universo do futebol.

E a que tem me chamado a atenção é como o torcedor feliz (e o infeliz) assemelha-se a uma criança.

Sem regras, sem limites, sem vergonha, sem medo de ser feliz, o torcedor abandona as regras sociais que o escravizam (mas tornam possível a vida coletiva, eu sei) e entrega-se aos sentimentos, quer seja de alegria ou de tristeza profunda.

O mundo ordinário, cotidiano, onde homem não chora e bofe não se abraça parece ruir diante da grandeza do mundo do futebol. E nada é de caso pensado. Ninguém se prepara pra isso. As coisas acontecem no calor do momento, no limite da possibilidade de viver o aqui e agora, na entrega total de toda a capacidade humana de expressar seus sentimentos.

Curiosamente, a emoção toma conta do torcedor, sem no entanto expulsar dele (pelo menos não totalmente) a capacidade crítica e racional, pois com ela ele acompanha o jogo, avalia os lances, comenta, observa. É um transe sem sair de si. Uma espécie de transe de fronteira, transe consciente, caso a antítese não negue a afirmação.

E outra curiosidade à qual eu ainda preciso me dedicar, é como a vivência deste transe está intimamente ligado à experiência do corpo neste evento. Toda a vivência do futebol - emocional, física e mesmo intelectual está diretamente relacionada, e refletida, no corpo. O afeto, a raiva, a expectativa, o alívio, o sentimento de identificação se manifesta e se experimenta no corpo e nas relações interpessoais a partir do corpo: do abraço de torcedores à agressão física ao adversário.

Abaixo, fotos que ilustram (não como vídeos onde o torcedor pula, canta e abraça o coleguinha) parte dessa alegria do direito de ser menino.


Isso sem falar dos jogadores:


É bolada, Menino-Torcedor!


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domingo, 13 de maio de 2012

BAHIA - CAMPEÃO BAIANO DE 2012




FELIZ QUE NÃO CAIBO EM MIM!

Só tem uma coisa que eu posso dizer agora:

SOMOS DA TURMA TRICOLOR!
SOMOS A VOZ DO CAMPEÃO!
SOMOS DO POVO O CLAMOR!
NINGUÉM NOS VENCE EM VIBRAÇÃO!
VAMOS AVANTE, ESQUADRÃO!
VAMOS SERÁS UM VENCEDOR!
VAMOS CONQUISTAR MAIS UM TENTO!

BAÊA! BAÊA! BAÊA!

OUVE ESSA VOZ QUE É SEU ALENTO:
BAÊA. BAÊA, BAÊA!
MAIS UM
MAIS UM BAÊA


MAIS UM
MAIS UM TÍTULO DE GLÓRIA

MAIS UM
MAIS UM, BAÊA

É ASSIM QUE SE RESUME A SUA HISTÓRIA!


Adroaldo Ribeiro Costa e Agenor Gomes

terça-feira, 24 de abril de 2012

BAHIA NA CAATINGA

Fiquei de fazer um post sobre a linda partida entre o BAHIA X VITÓRIA DA CONQUISTA, mas o tempo passou e eu repleta de coisas acabei não dando conta.

Ficam as imagens captadas na ocasião.

Torcidas parceiras

O que vale é o embate simbólico

Chegada ao estádio

Coração tricolor e a obrigação civil de torcer pelo triunfo da cidade

Entrada do Estádio. Um domingo de festa.

O Estádio é lindo, arborizado e muito espaçoso, além de ter sombra para a torcida.

Admiração deste cedo...

... de pequenininho.


A BAMOR estava aqui. Claro!

Linda festa de torcida

Saída, depois da derrota. Eu acho que tinha muito mais do que 5.000 torcedores

Azar no jogo...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

PRA NÃO DIZER QUE NÃO VI A VITÓRIA

Seria indelicadeza e imaturidade minhas deixar de comentar a virada histórica do Vitória ontem pra cima do ABC.

Não vou falar sobre o jogo, porque eu nem assisti. Acompanhava desinteressadamente no facebook a tristeza pálida dos torcedores que comentavam uma coisa aqui outra ali.

Mas, eis que de repente, comecei a ler comentários sobre a virada. Primeiro, não vou negar, me chateei, pois como tricolor sempre torço para que o Vitória não vença. É coisa de torcedor, gente. Não me venham por favor com teorias territorialistas de que tenho que torcer pra time baiano. Já falei mil vezes sobre esse assunto. Torcedor torce por si e contra o arqui-rival. É um fato!!! Se quiser ler sobre o tema clique aqui. Outro posto sobre o tema, clique aqui.

Vi que dois gols tinham sido de pênalti, a marca do Vitória e seu artilheiro e fiquei ainda menos interessada do assunto. Vitória ganhar com pênalti nos acréscimos não é novidade.

Hoje, porém, vendo as imagens do jogo me dei conta de que estava diante de um importante momento da minha pesquisa. Um jogo decisivo que a 15 minutos do seu fim tem uma reviravolta impressionante comandada pelo mesmo jogador, Neto Baiano, com três gols quando a torcida já havia abandonado o estádio, realmente merecerá ser lembrado para sempre.

A imagem mostrada no Globo Esporte, dos torcedores todos com a camisa 10, saindo derrotados do estádio e os jogadores acreditando ainda, sobretudo a partir do primeiro gol. A garra de Neto Baiano correndo com a bola para o jogo andar, foi realmente impressionante.


É engraçada a dramaturgia, ou melhor, as dramaturgias possíveis ali.


O que era uma derrota certa para o torcedor, era uma classificação concreta para o adversário, o ABC.


E para os jogadores, mais especificamente para Neto Baiano? O que era?


E para o juiz? Ter que decidir (e bancar) por marcar dois pênaltis numa situação desta?

Mesmo que se questione os pênaltis, que eu não acho que seja o caso, há que se admitir que o Vitória teve garra para estar durante os 15 últimos minutos no ataque, se não não teria sofrido os pênaltis. Sei que o torcedor pergunta: por que não fez nos 90 o que fez em 15? Haja coração!!!!

Fico imaginando o que se passa na cabeça de todos esses agentes durante o jogo. Fico imaginando o que se passou dentro daquele campo nestes 15 minutos. Na cabeça do artilheiro.

E ainda falando de dramaturgia da leitura, que eu defendo na minha dissertação do mestrado, o que é uma festa de superação para o rubro-negro, é uma tragédia a ser esquecida, pelo ABC e sua torcida.


A vitória tornou-se possível quando Neto Baiano decidiu que seria possível.

Isso realmente foi lindo de ver (Mesmo que em reportagens, como no meu caso.)

Agora, aquela dica de tricolor para o torcedor rubor-negro: nunca mais abandone o seu time. Mesmo que ele não tivesse feito o milagre de virar aquele jogo, era justamente quando ele mais precisaria de você. Geralmente a torcida dá lições ao clube. Ontem foi o contrário. Que se aprenda!

Como se diz em bom soteropolitanês: Neto retou!!!

Ficam aqui meus sinceros parabéns ao Vitória, de quem eu pego tanto no pé, como tricolor que sou, mas que reconheço o mérito da vitória histórica de ontem. Com certeza este evento fará parte de minhas análises, pois foi um grande jogo.

Só não me peça para torcer pelo Vitória na Copa do Brasil, até porque o Tricolor tá no páreo!



É bolada, Rubro-Negro!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O TRICOLOR VEM À CAATINGA

É isso, leitor abandonado!!!!

Depois de tantas mudanças (narradas no www.artedoespectador.blogspot.com )eis que me dedico novamente à minha pesquisa querida e eis que para celebrar esta volta vou neste domingo (22 de abril) ao Estádio Lomanto Júnior ver o meu Baêa jogar com o Vitória da Conquista pelas semifinais do Baianão.

Será uma linda festa porque estarei em casa, de novo, depois de tantos anos, indo ao estádio onde vi há mais de duas décadas (eu ainda era uma menina) o Serrano enfrentar o Flamengo de Zico (nem sei se Zico veio) sei que achei lindo aquilo tudo.

Vou torcer pelo Bahia, porque em Conquista sou Serrano. E estou bem feliz com o embalo do meu tricolor.

Fica o convite para os amigos conquistenses. Vamos lotar o Lomantão. Vai ser uma festa linda.

Aí eu volto pra casa, leio, leio, leio, escrevo, escrevo, escrevo e embalo o doutorado que tá na hora, né?


É Bolada, torcedor catingueiro!!!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

DIFERENÇAS ENTRE TORCER E VOTAR

É, tomei coragem e disposição para escrever neste blog que há tanto tempo não atualizo e para falar sobre a atual situação da Bahia.

Juro que tenho tentado ler tudo com alguma isenção ideológica, partidária, sem julgamento, tentando não ser manipulada por nenhum dos lados. Leio tudo com respeito e me disponho a pensar em todos os argumentos.

Mas, o que eu quero falar aqui é sobre o radicalismo de ambas as partes.

Os PMs erraram em pegar em armas? Erraram e erraram muito.

Os PMs são péssimos, verdadeiramente péssimos em suas práticas cotidianas de autoritarismo, racismo, corrupção, abuso de poder? Sim, são. Muito péssimos.

Os PMs são a grande peste que grevistas e manifestantes encontram em suas ações cidadãs? Sim, são.

Mas isso é suficiente para aniquilar o diálogo? Por que eles são péssimos, acabou tudo, não se pode mais debater a questão, eles não têm o direito de reivincar o cumprimento de leis trabalhistas que estão sendo esquecidas?

Não seria essa uma ótima oportunidade para eles reverem sua relação com a sociedade? Ingênua, eu, né? Também acho, mas enfim, acho que os discursos que reduzem a existência a uma coisa ou outra não nos levam para lugar nenhum. Abortam o diálogo, atravancam o desenvolvimento e a transformação.

A greve é política? O PSDB está alimentando o movimento? Se fosse tão simples assim, Jacques Wagner poderia tirar de letra essa questão, eu imagino. Todas aquelas famílias reunidas na AL, todos os cabos, soldados, praças do interior que querem se unir à causa estão sendo manipulados por um único homem? Acho outro pensamento preguiçoso. E essa uma das questões importantes, a gente tem uma preguicinha de pensar e de enfrentar os conflitos. Fica um monte de gente no facebook e no twitter jogando na cara da gente que a gente votou em Jacques Wagner e agora aguente. Ora, vamos debater inteligente e corajosamente a questão ou vamos ficar atirando pedras a esmo?

Eu votei em Jacques Wagner nas duas eleições. Eu sou Petista (sim, ainda sou) e me orgulho disso, porque o PT é uma história de mais de duas décadas, porque ainda há pessoas neste grande partido que defendem os trabalhadores, como o nome do partido sugere.

Mas, isso não me impede de fazer sérias críticas a este partido, do modo como ele é conduzido hoje. O fato de ter votado em Jacques Wagner não me impede, muito pelo contrário, me autoriza, ou ainda me obriga a ser crítica de sua atuação. Sim, me obriga a ser crítica, se pensarmos que o governo é representativo e não autoritário. Ele deve me representar, foi pra isso que votei nele e quando ele não age assim, devo me manifestar, sem medo de ser tachada de 'voto perdido' ou 'traidora do partido'.

Aí que entra meu querido futebol.

O Bahia pode fazer a merda que for, eu vou defender o Bahia sempre. Joel Santana, Renato Gaúcho, René Simões, Márcio Araújo, Falcão, seja quem for, vai fazer merda, a gente vai chiar muito, mas a gente vai continuar Bahia, vai defender, não vai deixar o inimigo falar mal - só quem pode falar mal do time da gente é a gente.

Querer defender o PT como se fosse seu time de futebol, sem criticidade, cego pela paixão de torcedor em conversa de boteco é uma insanidade.

Votar é outra história. Votar é fazer parte do processo de condução da vida política do país. Eleição não é Campeonato Nacional de Futebol e eu não tenho que fechar com todos os equívocos do meu candidato só porque votei nele. Eu tenho outra arma: eu posso não votar nele na próxima eleição. Abandonar um candidato ou mesmo um partido não representa necessariamente abandonar uma ideologia. Pode ser justamente o contrário. Pode ser manter-se na ideologia através de outras representações.

Enfm, posso ter sido bem confusa, e fui, mas quem não está confuso hoje na nossa Bahia?

Eu repudio a forma imatura e vaidosa como Jacques Wagner está conduzindo este importante evento em nosso estado. Para mim, na verdade, não há nenhuma novidade, porque ele tratou como cachorro os professores das unviersidades quando passaram aproximadamente três meses em greve e agora trata milhares de policiais como bandidos.

Se essa bosta é briga política, tá na hora de entrar alguém com um pingo de bom senso e de respeito pelo povo para conduzir esta situação. Se estão acostumados às brigas de gabinete onde são vendidos votos e negociadas ações do governo, leis e procedimentos, não é disso que estamos tratando no momento, Sr. Governador.

Estamos tratando de vidas humanas e isso não se trata com birra nem com vaidade.

De tudo que tiremos uma oportunidade de transformação. Que o fato de os acontecimentos terem influenciado a vida de cada um de nós (o que não acontece com outras greves) nos ensine a fazer democracia, a debater ideias, a rever posturas, a escolher nossos representantes, a nos avaliarmos politicamente e ajudarmos enfim, nosso país a consolidar sua democracia.

Sem tanques de guerra na rua. Sem forças armadas, inclusive porque temos uma presidenta que foi torturada por um regime bruto e cruel conduzido por estes mesmos senhores que novamente se dizem em ação em nome da ordem e da lei.


É bolada, cidadão baiano!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ooooolé: O massacre do Barcelona sobre o Santos como oportunidade educativa

Deu-se a tragédia!

A vergonhosa derrota do futebol brasileiro hoje, representado pelo Clube Santista, trouxe à luz dos nossos olhos a cruel e desoladora verdade sobre o nosso futebol: Perdemos!

Perdemos todos!
Perderam a magia, a beleza e a arte de nosso belo jogo.
Perderam os artistas da bola, as crianças que crescem com a redonda no pé, que aprendem nas várzeas e campinhos, com bolas de meia e sem chuteiras.
Perdeu a subjetividade de nossa mais bela configuração cultural.

Ganharam os cartolas. Ganharam as incontáveis marcas que poluem as camisas de nossos times. Ganharam os empresários da bola, que esticam os braços de nossos jogadores, puxando e empurrando todos e cada um deles pra lá e pra cá como borrachas de amarrar dinheiro.


Ganharam os presidentes de clubes filhos-da-puta, que destruiram nossas bases, que liquidaram com o sentimento de pertencimento a um clube, que fizeram do ato de jogar futebol uma atividade esvaziada de sentido e repleta de cifras.

Trocamos acordes por cifras.

Mas, ao fim e ao cabo, sinto dizer caros empresário, perdemo todos.


A humilhante derrota do Santos, o baile dos espanhóis deixam evidente que perdemos o posto que por tanto tempo foi nosso. Não o posto de campeões inquestionáveis, mas o posto de jogar e fazer bonito. O posto de sermos respeitados e admirados. O posto de sermos, mesmo que não ganhemos, as autoridades no assunto.

Perdemos e perdemos feio demais.

Que tristeza ver um Santos humilhado, arrasado, amedrontado, pequeno diante da fera Barcelona. Ver o Barcelona jogar o futebol que outrora era o a marca do futebol brasileiro: beleza, eficiência e graça.

Eu fiquei constrangida diante da TV.

Os intelectuais (sobretudo da área de educação) que sempre acharam um absurdo o Brasil se orgulhar de seu futebol (leia o post anterior) devem estar felizes, porque naquilo que nos orgulhávamos e que nos representava como potência mundial, nisso, também falhamos.

E acredito que não há tristeza maior para o povo brasileiro do que perder sua identidade no futebol.


Fica a oportunidade educativa para técnicos, para dirigentes, para a imprensa esportiva do Brasil, sobretudo para a insuportável Revista Placar, que num ano tem mais de 6 capas com Neymar.

E fica para esse bom menino uma das maiores aulas de sua vida: Tem que comer muito feijão com arroz ainda para ser um Messi. Não porque o Messi em si é imabtível, mas porque tem sua trajetória, tem seu percurso, tem seus aprendizados com triunfos e derrotas. Sem isso, caro Neymar - que eu admiro e torço pelo sucesso - não há craque, não há ídolo, não há história.

Você é um menino, e isso não pode ser considerado um defeito, pelo contrário. Mas, não acredite em nada que a Globo, a editora Abril e toda essa corja lhe dizem. Acredite no que você faz, no que você vive e vê. Acredite nas pessoas de verdade e nos fatos em si. Porque a Globo e Cia. vão ser as primeiras a te dar um belo de um pé na bunda, quando você não lhes servir aos interesses de mercado.

Que a imprensa brasileira aprenda de vez que a notícia não é o fato. Que gritar durante todo o mês que Santos e Barcelona, que Neymar e Messi são do mesmo tamanho e força, não faz com que eles de fato sejam. Nós não acreditamos em vocês. Nós acreditamos nos fatos.

Eu espero que essa vergonha de hoje sinalize que a vitória da cifra sobre a chuteira representa uma derrota para todos. Esvaziar o futebol brasileiro de sua beleza, graça e talento é acabar com seu princípio, é acabar com o futebol em si.

O querido Sócrates, em entrevista a Maria Gabriela e também no Altas Horas, pouco antes de sua partida disse muito acertadamente que o Brasil precisa jogar futebol brasileiro. Enquanto tentarmos jogar futebol europeu, sairemos derrotados. (Veja post anteior a este, sobre Sócrates).

O que o futebol brasileiro tem de melhor é ser o futebol brasileiro.

Que ainda haja tempo para reconquistarmos essa qualidade

Se não, não haverá 'Santos' que nos salvem!

É bolada, brasileiro!

domingo, 11 de dezembro de 2011

FUTEBOL, POLÍTICA, EDUCAÇÃO E ARTE por José Miguel Wisnik

Este vídeo fez parte do vídeo maior que eu apresentei na minha defesa de mestrado.

Foi editado por mim e por Alexsandro Moreira, a partir do áudio de uma entrevista de José Miguel Wisnik para o programa Café Filosófico em 2009.


Não requer explicações, nem maiores introduções, porque ele é simplesmente demais.



domingo, 4 de dezembro de 2011

ADEUS AO SÓCRATES ARTISTA

Se fosse mesmo pra brincar com nome de Filósofo Grego, ele deveria se chamar Aristóteles, porque seu império era o reino das artes.

O Doutor Sócrates povoa meu imaginário, porque de todas as lembranças que tenho da minha infância, ainda em São Paulo, uma das mais fortes é a Copa de 82 e o show oferecido por ele e seus companheiros Zico, Júnior, Casagrande, Falcão, Oscar, Leandro, Éder, entre outros, além do querido Telê Santana.

Lembro-me que eu, com minha já desenvolvida mania para promessas, fiz uma promessa de que se o Brasil ganhasse aquele jogo contra a Itália, eu rezaria o pai-nosso. Coisa de criança. Mas, para adiantar o serviço, eu paguei a promessa antes da graça, o que segundo minha indignada irmã, também criança, acabou por provocar a derrota do Brasil para Paolo Rossi. Sim, historiadores, a culpa daquela dolorosa derrota foi minha!

Lembro-me da imagem do Dr. Sócrates como aquela figura imponente, mas simpática, politizada, aguerrida, lutando contra a ditadura, promovendo uma verdadeira revolução no Corínthians através da Democracia Corintiana, um marco do futebol mundial. Lembro-me de seu sorriso maroto e sua barba plena, coisa de militante!

Hoje é um dia especial. S. Ático e Dr. Sócrates vão assistir, juntos, a final do campeonato brasileiro de 2011 e, se der tudo certo, vão comemorar o triunfo do Timão. Meu pai com seu cigarrinho, o doutor com sua branquinha.

Sim, porque com moralismo ou com vícios a gente vai morrer de qualquer jeito e será muito mais feliz aquele que levar consigo não apenas o preço, mas o prazer, a felicidade e a liberdade de ter assumudo seus próprios desejos, desvios e transgressões. Hoje o cigarro e a cachaça não representam mais uma atitude de subversão e indisciplina, atitudes necessárias para o avanço da humanidade. Representam, pelo contrário, consumo e obediência. Que essa geração descubra o que de fato representa transgredir, desobededer, avançar, e eu, particularmente, acho que ela vai descobrir.

De cá, eu encaminho minhas saudades a esse grande corintiano, a esse grande brasileiro e o homenageio com fotos inesquecíveis e vídeos marcantes.

Adeus, Doutor! Adeus Artista!

É bolada, Magrão!!!


Sócrates no Altas Horas



Mais Sócrates no Altas Horas






terça-feira, 11 de outubro de 2011

BAHÊA MINHA VIDA - uma obra de arte

Meu pai do céu. Por onde começar? Do que falar?

Do filme em si?
Do primoroso trabalho de Márcio Cavalcante e sua equipe?
Da experiência única de ver este filme numa sala de cinema com a plateia mais surreal que qualquer pessoa pode imaginar?

Vou tentar.

Posso começar pela provocação de meu amigo, o querido Jean Wyllys, que desabafou no twitter que não entendia a comoção do futebol, por  mais que tentasse não conseguia passar mais que cinco minutos na frente da tv vendo um jogo. Obviamente seu comentário no twitter e no face recebeu muitos comentários, dos dois lados. Os que fechavam com ele e não viam sentido nos 22 homens atrás de uma bola, blablabla... E outros, que como eu, entendem que não é só uma questão matemática e lógica, mas que resume em atos, fatos e acontecimentos toda a existência humana. Eu que ainda não tinha visto o filme mas que já imaginava como seria emocionante, por ter visto inúmeros trailers e teaseares e porque Alam não só já tinha visto o filme como também viveu a batalha por um ingresso no Iguatemi, invadido por uma onda tricolor, tal qual Pituaçu em dia de jogo. Sem conseguir, saiu correndo para o Glauber Rocha, onde a histeria era menor... Sim, mesmo sem ter visto o filme ainda, eu disse a Jean para vir a Salvador para vermos juntos o filme, para ele entender e sentir o que é isso. E como eu estava certa. Depois, amigo, para batizar de fato, só uma partidinha no caldeirão...


Fila no Iguatemi para ver a estreia do filme
Mal sabia eu que o filme era muito, muito mais do que homenagem ao Esporte Clube Bahia, mais do que um filme sobre futebol, era uma linda poesia sobre a capacidade do ser humano de se entregar a alguma paixão. Paixão no sentido mais pleno do que qualquer outra cultura vai poder experimentar ou compreender. Mas o filme é ainda maior do que isso e essa experiência única, única, Jean, você tem que vir ver e lembrar, mais uma vez e sempre, o quanto é bom ser baiano. O quanto é bom ser Bahêa!

Pense numa sala de cinema em que a cada pessoa que entrava ouvia o bordão: "Bora Bahêa!" E respondia sorrindo, como filho que há muito tempo não vinha almoçar em casa: "Bora Bahêa." Isso depois de uma fila de uniformizados. Isso depois de uma semana em cartaz. Isso numa sala de cinema que não é das mais populares, reduto de intelectuais... Pois é...

De repente, um fi de deus bota o hino no celular. Toda a plateia canta junto. Todo o hino.

Uma plateia de amigos. Uma plateia de irmãos. Parecia uma grande família, almoçando junta.

Durante o filme, gritos de gol. gritos de guerra, cantação do hino, risos, lágrimas, tudo junto. Ao, fim aplausos e confraternização. Gente, uma experiência mesmo muito inusitada. Só quem viveu sabe.

Mas vamos ao filme.

UM ENCONTRO DE GERAÇÕES

Martio Bahia, grande ídolo
O filme é didaticamente dividido em capítulos, não acintosamente, mas fluentemente, dentro de sua dramaturgia de documentário-paixão.

Primeiro, fala-se sobre o futebol. Essa paixão, que como tal, não se explica, por mais que seja gostoso tentar. Tem fala de historiador, jornalista, jogador, torcedor, poeta... Todo mundo vive sua tentativa de explicação.

Aí, entra o time, o clube, a história. Numa primorosa pesquisa que  foi organizada também primorosamente para não cair na chatice em que muitos documentários podem cair, vamos conhecendo a história de nosso amado clube. Sempre com uma polifonia típica do tema. O que eu mais acho gostoso na minha pesquisa é que quando eu toco no assunto eu, que sou teoricamente a pesquisadora, sou a que menos fala. Todo mundo se sente especialista em futebol e é. Ninguém tem vergonha  ou pudor em dar sua opinião e todas as opiniões são ouvidas, comentadas, respeitadas. Assim também é o filme. Todo mundo tem o que dizer e tudo o que se diz, de onde se diz é importante, é fundamental!

Bel Bahia, patrimônio da nossa torcida
Aí, entra a parte para mim mais emocionante do filme. Parte que extrapola tudo o que eu esperava do filme. O encontro dos ex-jogadores do escrete de 59 é um primor. De tudo, por tudo. Senhores pais e senhroas mães: levem seus filhos porque é lindo ver aqueles velhinhos lindos, plenos, doces e que, mesmo com certa dor das limitações da velhice, desfilam suas memórias e sua presença para que aprendamos com eles. É simplesmente emocionante. A edição foi muito feliz em colocar as falhs de memória dos jogadores, não por ser engraçado, mas por ser tocante. Os olhos deles se reconhecendo, é demais. É emocionante. É quase cruel. Poucos são os que não choram. O que é Marito Bahia, meu Deus? E Rubem Bahia, jogador de 1931? Demais.

Lorinho, que amarrava os adversários em seu vudu abaianado
Aí, em dado momento, eu me dou conta de que estou prestes a descobrir o que dizer a meu amigo Jean. Vendo as imagens da torcida, belíssimas imagens, entendo porque o futebol é esse delírio. É porque no futebol, o homem vira menino. Gente, percebam os olhos de homens que se abraçam, que gritam, que choram, que declaram seu amor incondicional ao time. Os olhos, meu deus, são olhos de meninos. E Ziraldo, muito inteligentemente fez nosso mascote com a figura de uma criança. É isso que somos: crianças. E como tal, dedicamos toda energia e seriedade naquilo que fazemos. Acreditamos! É muita alegria por algo aparentemente tão simples. Um dos convidados (que eu não vou me lembrar quem) diz que o futebol é libertador porque o homem abre mão daquilo que lhe caracteriza como humano, que é a possibilidade de usar as mãos. Ele abre mão, deliberadamente daquilo que o identifica, e cria um mundo completamente novo e possível, fazendo mágica com os pés. Demais.

BA X VI: onde o clássico é pacífico


Dos títulos, passamos para o hino, que muito bem lembrado por outro convidado, é um hino à torcida e não necessariamente ao clube. Um chamado, uma trombeta de cavalaria.

Deste ponto, se não estou enganada, o filme avança para  falar da descida às séries B e C e do emocionante retorno. Marcelo Barreto, respeitado jornalista esportivo, lê seu belíssimo texto sobre a subida do Bahia - texto que eu já conhecia e já tinha divulgado aqui neste blog. Os depoimentos emocionantes continuam.

Agora, o que faz do filme um grande feito, não é cada coisa isolada em si. Não é um elemento que se destaca no filme. É o talento que Márcio tem para fazer das vozes populares o maior trunfo. Juca Kfouri é maravilhoso, Marcelo Barreto é demais, os outros comentaristas são muito bons, mas a voz do filme, ah, essa é do povo. Os personagens da torcida tricolor são as estrelas absolutas também do filme e é muito bom a gente reconhecer nas telas essas figuraças que a gente vê sempre que vai a Pituaçu. É lindo ver que eles fazem o filme, que eles são no fundo as grandes estrelas do Bahêa. E cá pra nós, eles falam com uma propriedade que estudioso nenhum jamais vai alcançar.

Bom, acho que não há muito mais o que falar do filme. Na verdade eu nem ando muito inspirada para escrever. Tenho me dedicado muito mais a ver, assistir e aprender.

Mas não poderia jamais deixar de registrar minha emoção e alegria com este filme.

Uma leve tristeza, porque vejo que minha pesquisa de doutorado, tão dura e tão racional jamais chegará perto de tanta beleza, leveza e magia. Mas, vou seguir tocando, né. É preciso terminar esse trem. E, pero que si pero que no, ficará mais um registro sobre essa linda torcida, em outra linguagem, em outra mídia, de outra forma. Minha contribuição.

Márcio Cavalcante - diretor


Obrigada, Márcio Cavalcante e equipe, por um trabalho tão primoroso e apaixonado. Espero que o filme possa circular no país todo, pois é uma grande obra e deve ser apreciada por muitos.

Espero que meu amigo possa assistir ao filme, talvez não mais aqui ao meu lado em Salvador, mas em qualquer outro lugar desse Brasilzão que ele tem percorrido. Que ele se lembre de mim, que sinta - mesmo que não entenda - um pouco desse jeito estranho de ser brasileiro e que perceba de alguma forma que contra tudo o que se possa dizer do futebol, para o bem e para o mal - que ele á algo nosso, intimamente nosso. E simples, e belo, e vivo e apaixonante. E que ele sinta alguma alegria, mesmo que estranha, em ver tantos homens-meninos, juntos, cantando e pulando felizes, esquecendo tantas mazelas e fazendo o que dá pra ser feito aqui nesse mundo estranho que a gente entende tão pouco mas do qual não se pode sair facilmente. Nessa hora, eu acho Jean, nós re-encontramos o princípio criador, e isso não é uma figura de linguagem, não é uma hipérbole. Isso pra mim, é real.


É bolada, Tricolor-estrela!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

HISTÓRIA DO FUTEBOL na Revista Beleza Bahia

Gentes.
Depois de uma demoradinha, saiu um novo exemplar da Revista Beleza Bahia, com meus dois textos. Um está aqui e o outro no http://www.artedoespectador.blogspot.com/ .

Quem quiser dar uma olhada na revista toda, aqui está o link: BELEZA BAHIA Nas páginas 46 e 47 (FUTEBOL) e 52 e 53 (BELEZAS INUSITADAS).

Abaixo, o texto com um Breve Histórico do Futebol.

DOS RITOS SAGRADOS AO FUTEBOL MODERNO:
UM POUQUINHO DE HISTÓRIA
Adriana Amorim

“Futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais do que isso”.
(Autor desconhecido)
São, oficialmente, noventa minutos, divididos em dois tempos de quarenta e cinco minutos cada. O espaço do campo tem a forma de um retângulo, figura geométrica que aqui dialoga e contrasta com a perfeição da esfera, rainha do jogo: a bola. As regras atualmente são dezessete. Os agentes envolvidos, diversos. Além dos vinte e dois jogadores que corporificam a partida e dão forma à disputa, espectadores multiplicam-se em milhões, por todo o mundo. Grosso modo, assim resume-se o futebol. Mas, o que pode esconder-se por trás de detalhes relativamente tão simples? Onde nasce este conjunto de fatores que reunidos transformam-se num dos eventos mais populares do mundo? Quais mudanças ao longo do tempo redefiniram esta atividade? A partir de quais elementos culturais o futebol se constrói e ao fazê-lo como interfere na constituição desta mesma cultura? Vamos tentar responder?
O futebol, assim como o conhecemos hoje, é a compilação de regras e procedimentos que melhor se define como futebol moderno. Organizado pelos ingleses no final do século XIX, precisou de menos de um século para espalhar-se pelo mundo, conquistando multidões de adeptos. Antes deste marco histórico na modernidade, porém, muitas são as representações de jogos com bola, de grupos organizados e de desejos de disputa que demonstram estar na gênese deste fenômeno. Coisa de muito tempo atrás.

O campo dos conflitos simbólicos

As práticas envolvendo objetos similares à bola nas mais remotas civilizações agrárias estão associadas na maioria das vezes a ritos que atribuem a este objeto – geometricamente perfeito, sem distinção de lado, face ou dorso, capaz de movimentar-se ao menor impulso e continuar movendo-se a si mesma – o poder criador que é do sol, relacionando-se diretamente a fatores ligados à fartura de alimentos, ou seja, a bola é quase sempre, sagrada.
Seja na América chamada Pré-Hispânica (antes da chegada dos colonizadores), na Europa Medieval, nos países orientais, onde quer que se procure, encontramos diferentes versões do futebol.

Chutando a cabeça dos adversários abatidos e mais adiante bolas feitas dos mais diversos materiais (ela nem sempre foi redonda!), o futebol representou sempre uma espécie de campo dos conflitos simbólicos. Na maioria dos casos, nos mais diversos países, o modelo do jogo consiste numa luta encarniçada pela bola, envolvendo centenas de pessoas, utilizando-se de pés e mãos, estratégias lúdicas e agressivas para garantir a posse da bola, o que resultava em graves contusões, ferimentos diversos e em algumas vezes, em morte. Realizava-se nas bordas dos povoados e das cidades, envolvendo bosques, campos e brejos, onde a bola, feita de couro e preenchida de capim, farelo, folhagem, grãos, ou mesmo uma bexiga cheia de ar, era disputada com intensidade e desorganização. Um exemplo curioso do futebol chamado de pré-moderno era o Soule, praticado na região onde hoje é a França.
Os grupos adversários, aqui, eram compostos segundo critérios de coletividade, envolvendo relações com características quase familiares: comunidades vizinhas, paróquias, cidade versus campo, e similares. Ao mesmo tempo em que estas relações tinham seus critérios de proximidade, eram evidentes os critérios de competitividade. O que se buscava era a defesa do campo enquanto espaço de fertilidade. Vencer o campo alheio, antes de tudo, é garantir a inviolabilidade do próprio campo, espaço físico onde se produz o alimento que garante a sobrevivência. Perceba que não é à toa que chamamos o espaço de se jogar futebol de ‘campo’. Se boa parte dos esportes modernos acontece sobre chão acimentado, ou transformado pelas grandes tecnologias, o futebol jamais deixou de acontecer na terra, no solo, sobre plantas, esses seres com vida.

Um salto para a modernidade – o futebol de hoje

Em 26 outubro de 1863, segundo a maioria das fontes consultadas, são definidas as primeiras regras para este o de bola praticado nas grandes escolas inglesas. Na Freemasons’s Tavern, Great Queen Street, centro de Londres, Inglaterra, estabelece-se o marco do surgimento do futebol moderno. Enquanto as Escolas de Rugby e de Eton eram favoráveis a pontapés nas canelas e o uso das mãos, os de Harrow e de Cambridge, entre outras escolas, defendiam o “jogo do drible”, onde não era permitido o uso das mãos. Esta e outras diferenças na forma de jogar das escolas envolvidas representaram um grande impasse na definição das regras. Somente em 1877, após algumas releituras, é publicada a versão final das regras. Deste debate sobre as regras do esporte, estabelecem-se também novas regras para o Rugby. As regras de todos estes esportes coletivos eram testadas na prática, dentro das universidades que as construíram e, posteriormente, nos torneios inter-escolares.
Apesar da imprecisão da maioria das fontes, há registros de que a primeira partida oficial teve o placar de 14 X 14, em 1864. A esta época, a posição de goleiro não estava definida, o que só aconteceu em 1871. Este jogador podia tocar a bola com as mãos por toda a extensão do campo até o ano de 1912, quando passa a poder manuseá-la apenas dentro da chamada grande área.
Muitas curiosidades, não? Conhecer a história, não apenas do futebol moderno, mas do futebol enquanto ritual coletivo e, por que não, sagrado, nos ajuda a compreender um pouquinho dessa nossa paixão visceral e irrestrita pelo futebol, pelo nosso time. Não que a gente precise compreendê-la, sentir já está de bom tamanho. Mas já que é para estudar alguma história para fazer bonito na mesa de bar, na festa de confraternização, ou para impressionar a gatinha, que seja a história do futebol, estou errada?
Só que a partir daqui, a gente guarda parte dessa história para o segundo tempo. Duvido que você vai conseguir resistir à próxima edição.