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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

HISTÓRIA DO FUTEBOL na Revista Beleza Bahia

Gentes.
Depois de uma demoradinha, saiu um novo exemplar da Revista Beleza Bahia, com meus dois textos. Um está aqui e o outro no http://www.artedoespectador.blogspot.com/ .

Quem quiser dar uma olhada na revista toda, aqui está o link: BELEZA BAHIA Nas páginas 46 e 47 (FUTEBOL) e 52 e 53 (BELEZAS INUSITADAS).

Abaixo, o texto com um Breve Histórico do Futebol.

DOS RITOS SAGRADOS AO FUTEBOL MODERNO:
UM POUQUINHO DE HISTÓRIA
Adriana Amorim

“Futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais do que isso”.
(Autor desconhecido)
São, oficialmente, noventa minutos, divididos em dois tempos de quarenta e cinco minutos cada. O espaço do campo tem a forma de um retângulo, figura geométrica que aqui dialoga e contrasta com a perfeição da esfera, rainha do jogo: a bola. As regras atualmente são dezessete. Os agentes envolvidos, diversos. Além dos vinte e dois jogadores que corporificam a partida e dão forma à disputa, espectadores multiplicam-se em milhões, por todo o mundo. Grosso modo, assim resume-se o futebol. Mas, o que pode esconder-se por trás de detalhes relativamente tão simples? Onde nasce este conjunto de fatores que reunidos transformam-se num dos eventos mais populares do mundo? Quais mudanças ao longo do tempo redefiniram esta atividade? A partir de quais elementos culturais o futebol se constrói e ao fazê-lo como interfere na constituição desta mesma cultura? Vamos tentar responder?
O futebol, assim como o conhecemos hoje, é a compilação de regras e procedimentos que melhor se define como futebol moderno. Organizado pelos ingleses no final do século XIX, precisou de menos de um século para espalhar-se pelo mundo, conquistando multidões de adeptos. Antes deste marco histórico na modernidade, porém, muitas são as representações de jogos com bola, de grupos organizados e de desejos de disputa que demonstram estar na gênese deste fenômeno. Coisa de muito tempo atrás.

O campo dos conflitos simbólicos

As práticas envolvendo objetos similares à bola nas mais remotas civilizações agrárias estão associadas na maioria das vezes a ritos que atribuem a este objeto – geometricamente perfeito, sem distinção de lado, face ou dorso, capaz de movimentar-se ao menor impulso e continuar movendo-se a si mesma – o poder criador que é do sol, relacionando-se diretamente a fatores ligados à fartura de alimentos, ou seja, a bola é quase sempre, sagrada.
Seja na América chamada Pré-Hispânica (antes da chegada dos colonizadores), na Europa Medieval, nos países orientais, onde quer que se procure, encontramos diferentes versões do futebol.

Chutando a cabeça dos adversários abatidos e mais adiante bolas feitas dos mais diversos materiais (ela nem sempre foi redonda!), o futebol representou sempre uma espécie de campo dos conflitos simbólicos. Na maioria dos casos, nos mais diversos países, o modelo do jogo consiste numa luta encarniçada pela bola, envolvendo centenas de pessoas, utilizando-se de pés e mãos, estratégias lúdicas e agressivas para garantir a posse da bola, o que resultava em graves contusões, ferimentos diversos e em algumas vezes, em morte. Realizava-se nas bordas dos povoados e das cidades, envolvendo bosques, campos e brejos, onde a bola, feita de couro e preenchida de capim, farelo, folhagem, grãos, ou mesmo uma bexiga cheia de ar, era disputada com intensidade e desorganização. Um exemplo curioso do futebol chamado de pré-moderno era o Soule, praticado na região onde hoje é a França.
Os grupos adversários, aqui, eram compostos segundo critérios de coletividade, envolvendo relações com características quase familiares: comunidades vizinhas, paróquias, cidade versus campo, e similares. Ao mesmo tempo em que estas relações tinham seus critérios de proximidade, eram evidentes os critérios de competitividade. O que se buscava era a defesa do campo enquanto espaço de fertilidade. Vencer o campo alheio, antes de tudo, é garantir a inviolabilidade do próprio campo, espaço físico onde se produz o alimento que garante a sobrevivência. Perceba que não é à toa que chamamos o espaço de se jogar futebol de ‘campo’. Se boa parte dos esportes modernos acontece sobre chão acimentado, ou transformado pelas grandes tecnologias, o futebol jamais deixou de acontecer na terra, no solo, sobre plantas, esses seres com vida.

Um salto para a modernidade – o futebol de hoje

Em 26 outubro de 1863, segundo a maioria das fontes consultadas, são definidas as primeiras regras para este o de bola praticado nas grandes escolas inglesas. Na Freemasons’s Tavern, Great Queen Street, centro de Londres, Inglaterra, estabelece-se o marco do surgimento do futebol moderno. Enquanto as Escolas de Rugby e de Eton eram favoráveis a pontapés nas canelas e o uso das mãos, os de Harrow e de Cambridge, entre outras escolas, defendiam o “jogo do drible”, onde não era permitido o uso das mãos. Esta e outras diferenças na forma de jogar das escolas envolvidas representaram um grande impasse na definição das regras. Somente em 1877, após algumas releituras, é publicada a versão final das regras. Deste debate sobre as regras do esporte, estabelecem-se também novas regras para o Rugby. As regras de todos estes esportes coletivos eram testadas na prática, dentro das universidades que as construíram e, posteriormente, nos torneios inter-escolares.
Apesar da imprecisão da maioria das fontes, há registros de que a primeira partida oficial teve o placar de 14 X 14, em 1864. A esta época, a posição de goleiro não estava definida, o que só aconteceu em 1871. Este jogador podia tocar a bola com as mãos por toda a extensão do campo até o ano de 1912, quando passa a poder manuseá-la apenas dentro da chamada grande área.
Muitas curiosidades, não? Conhecer a história, não apenas do futebol moderno, mas do futebol enquanto ritual coletivo e, por que não, sagrado, nos ajuda a compreender um pouquinho dessa nossa paixão visceral e irrestrita pelo futebol, pelo nosso time. Não que a gente precise compreendê-la, sentir já está de bom tamanho. Mas já que é para estudar alguma história para fazer bonito na mesa de bar, na festa de confraternização, ou para impressionar a gatinha, que seja a história do futebol, estou errada?
Só que a partir daqui, a gente guarda parte dessa história para o segundo tempo. Duvido que você vai conseguir resistir à próxima edição.

sábado, 12 de março de 2011

MEU TIME É A MINHA PÁTRIA - Texto da Nova edição da Beleza Bahia

Gentes.

Saiu a nova edição da Revista Beleza Bahia, para a qual eu tenho o prazer de escrever duas colunas. Uma se chama Belezas Inusitadas, cujo texto está agora disponível em http://www.artedoespectador.blogspot.com/.

O texto abaixo é da coluna de futebol. Quem se interessar em conhecer a revista, pode acessar o link: http://www.belezabahia.com.br/site_antigo/web/revista/index.html. Ainda não tem a edição nova (com Cláudia Leite na capa) mas em breve, com certeza estará. Você pode conferir as outras edições. Chega de blablabla. Vamos ao texto:


MEU TIME É A MINHA PÁTRIA.

Quando, numa discussão sobre futebol, alguém diz que não entende como um torcedor do Vitória pode não torcer pelo Bahia em campeonatos nacionais, em situações em que o time enfrenta times do Sul e Sudeste e vice-versa, a gente percebe logo que essa pessoa não é um torcedor fanático e, portanto, não consegue identificar – nem na prática, nem na teoria – o verdadeiro sentido de fazer parte da torcida por um time de futebol.

O discurso de defesa da territorialidade a partir do ponto de vista geográfico, levando em consideração nossa organização político-espacial (a divisão do país em regiões e estados), deixa de considerar, logo de cara, outra possibilidade de organização social e cultural. Uma forma de organização escolhida pelo próprio sujeito, que se organiza sobre outras lógicas, outros pontos de vista, outros parâmetros e que diz respeito, portanto, a outras dimensões da vida particular e coletiva.

Nascido em determinada região ou estado, a pessoa – mesmo que venha a morar em outras cidades – terá sempre esta identificação com o lugar natal. Esta informação está lá, impressa em seu documento de identidade. O que é muito bom, porque revela informações importantes de sua genealogia, de sua cultura, de seus ancestrais e suas histórias. Mas, esta forma de nos identificarmos, é externa e, mais que isso, anterior à pessoa. Ela não envolve, em nenhuma medida, o seu poder de decisão. Seu documento de identidade identifica apenas uma parte dela. E acreditar nesta identificação como sendo a única possível ou mesmo a mais importante é uma postura arriscada, que reflete o pensamento de uma corrente que vê apenas uma parte da história.

Claro que eu tenho cá minhas questões com as diferenças de oportunidades entre as regiões do Norte-Nordeste e Sul-Sudeste. Sou atriz e sei o quanto o eixo Rio – São Paulo não só monopoliza boa parte das oportunidades, como impõe seus padrões para o restante do país como sendo o padrão de qualidade. Isso no mundo acadêmico, editorial, de moda, enfim, nas mais diversas dimensões. E sei que isso acontece também no futebol, Leia a revista Placar e veja que ela trata quase exclusivamente dos times destes dois estados, com exceções, talvez, para os times mineiros e gaúchos. Ela pode se defender com o argumento de que são os times com melhores campanhas na primeira divisão do campeonato brasileiro, mas a gente sabe que uma coisa leva a outra e que a atenção de fato é maior para os maiores times, das maiores cidades, dessas que não são as maiores (em termos de expansão territorial), mas sem dúvida funcionam como ‘as mais importantes’ regiões do nosso país. Importantes do ponto de vista da produtividade e do capital que geram. Ora, o mundo é muito mais do que isso. Ainda bem.

É nesta hora que eu pergunto: não seria o comportamento do torcedor doente, fanático, justamente a maior resistência contra este modelo que nos impõe uma identidade arbitrariamente, sem que ao menos sejamos consultados? Torcer contra o Vitória e pelo Palmeiras, contra o Bahia e pelo Coritiba, mesmo você sendo baiano, não seria justamente dizer que o critério político-geográfico, nestas circunstâncias, não quer dizer absolutamente nada e nem sequer serve como ponto de referência? O entrega-entrega da final do campeonato brasileiro foi um grande exemplo da força da identificação com o time em contraste com a identificação do estado. Palmeirenses e são paulinos gritavam nas arquibancadas: Entrega! Entrega! Lamentavam o gol do próprio time, comemorando o gol do adversário. Esquizofrenia? Não. Apenas a força de combater o inimigo como uma das formas mais eficazes de afirmar a mim mesmo.

Quando desconsideramos estas questões, por mais que os politizados de plantão insistam em dizer que é ignorância política, pode ser justo o contrário. Pode ser o mais nobre e politizado dos comportamentos democráticos: a escolha. EU escolho os critérios de importância para MEU posicionamento. EU escolho torcer pelo MEU time. Eu escolho que a minha relação íntima e pessoal como o clube do meu coração é muito mais importante do que a relação político-geográfica que querem me fazer crer ser mais inteligente do que minha escolha emocionada e passional. Eu sou muito mais do que diz o meu Registro Geral de identidade. Eu sou muito maior do que um documento.

Não há nada mais libertador do que a torcida incondicional a um time. Somos livres porque, mais do que ser torcedores do nosso time, somos nosso próprio time. E no fundo, no fundo, torcer contra o clube inimigo, mesmo sendo ele meu conterrâneo é assumir, de outro ponto de vista, a própria naturalidade, porque nos relacionamos com o nosso estado não apenas de forma burocrática e oficial (ditada pela frieza da minha certidão de nascimento), mas a partir de seus times de futebol, instituições, muito mais humanas do que cartórios e fóruns.

A relação com os times, que o preconceito dos intelectuais talvez não permita compreender como sendo uma possibilidade relevante de existência coletiva, nos permite ultrapassar os limites da racionalidade e tocar o imponderável da existência. Meu time é a minha pátria. Meu time é a melhor parte de mim. Meu time sou eu.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

ADÉLIA PRADO, escolas e meninos (A João Vicente que se recusa diária e veementemente a ir para a escola)

"Desejo a morte de tudo que obriga um menino a escrever: mãe, estou desesperado.


O que é que eu faço, em que língua vou fazer um comício, uma passeata que irrompa nos gabinetes, nas salas de professores que tomam cafezinho e arrotam sua incomensurável boçalidade sobre o susto dos meninos desarmados?

Fazem política, os desgraçados, brigam horas e horas pela aula a mais, o tostão a mais, o enquadramento, o quinquênio, o milênio de arrogância, frustração e azedume.

Deus te abençoe filhinho, vai pra escola, seja educado e respeitador, honra teu mestre.

Mestre?

Onde é que tem um mestre no Brasil pra que eu lhe beije as mãos?

Jã não basta ser gente para encarnecer de dor? Ainda tem as escolas que se aplicar neste esmero de esvaziar dos meninos seu desejo de bois, gramas e pequenos córregos?

Ó, ofício demoníaco de encher de areia e confusão o que ainda é puro e tenro cálice.


Não quero dar aulas, ó meu deus, me livra desta aflição, me deixa dormir, me deixa em paz, aula de nada, de nada, aula de religião eu não quero dar.

Falo e me aflijo porque sei que não tem outro caminho senão começar de baixo, de trás, do fim da história, quando Deus pega Adão e lhe mostra as coisas, lhe deixa dar nome às coisas, lhe deixa, lhe deixa, ruminando seu espanto, sua alegria, sua primeira palavra...

Ó senhor presidente, ó senhor ministro, escuta: O menino foi à escola e escreveu a sua mãe: estou desesperado.

Escuta quem tenha ouvidos: os meninos do Brasil fenecem entre retórica, montanhas de papel e medo.
Entre ladrões, como Cristo na cruz."

(Adélia Prado: SOLTE OS CACHORROS, 1979)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

CARLOS DRUMMOD DE ANDRADE e o futebol


Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São vôos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entraçados.
Instantes lúdicos: flutua
O jogador, gravado no ar
- afinal, o corpo trinufante
da triste lei da gravidade.

In Poesia errante
http://www.carlosdrummonddeandrade.com.br/poemas.php?poema=30

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

BELEZAS INUSITADAS - Revista Beleza Bahia Ano 2 Nº 6


Estes dois textos foram originalmente publicado na edição de MAIO/JULHO da Revista Beleza Bahia, onde assino a coluna BELEZAS INUSITADAS. O primeiro texto é o desta coluna e o segundo um artigo especial sobre 80 anos de Copa do Mundo.

A revista é de responsabilildade do casal Paulo Lima Andrade e line Dias Neto e inclui também programa de TV e portal na internet. Acesse o site e conheça outros artigos interessantes, como o artigo  Uma Câmera nas Mãos, Muitas Idéias na Cabeça sobre a anistia de Glauber Rocha, da jornalista Ana Luisa Fideles, Se Essa Rua Fosse Minha da educadora  e pesquisadora Nairiznha, ou ainda a matéria da capa, Salvador, Cidade de Beleza e Magia de Edvaldo Esquivel. Tem o texto da jovem Eslinie Fiaes, designer cheia de idéias e provocações, que é Eleições 2010 e as novas mídias. Você vai encontrar ainda uma coluna de humor de Renato Piaba , fotos  impressionantes de Osmar Gama e ilustrações divertidas de Boré.
Vamos aos textos meus publicados ali.


BELEZAS INUSITADAS

Nesta coluna falaremos sobre belezas pouco evidentes ou que, apesar de serem vistas e contempladas cotidianamente, não são consideradas objetos de apreciação estética. São ações cotidianas, atitudes despretensiosas, coletivos que se criam, discretos fenômenos da natureza, ou mesmo antagonismos que nos comovem, nos convocam, nos seduzem.

ESTÉTICAS POSSÍVEIS NAS TORCIDAS DE FUTEBOL

E nossa beleza inusitada de hoje são as torcidas baianas de futebol. Organizada ou avulsa, a torcida de um time é o que ele tem de mais belo.

Podemos falar da beleza das torcidas a partir de diferentes pontos de vista. A beleza pura e simples de sua existência. Uma identidade possível à qual nos associamos. Um grupo de pessoas unidas pela paixão por um time que ao reunir diferentes características, configura a si (torcida) e configura a mim (torcedor), na medida em que decido me agregar a ele. O torcedor torce por um ideal mítico, coletivo, ancestral e sobretudo, belo. A busca pela vitória é apenas uma das experiências mais relevantes num jogo de futebol. A própria possibilidade do jogo, do embate, da busca coletiva por um objetivo comum também fazem parte do futebol.

Reunida na entrada e saída do estádio ou dissipada no cotidiano de nossa cidade, de Itapuã à Ribeira, da Paralela ao Centro Histórico, onde camisas e bonés reconfiguram  nossa paisagem, o corpo físico de uma torcida é uma outra análise possível de sua força estética, a partir de seus aspectos plásticos. Dentro do estádio, a beleza da torcida assume seu ápice. Colorindo o templo sagrado, entoando canções, hinos e gritos de guerra, misturando camisas, faixas e bandeiras, soltando fogos, a torcida é, em inúmeros aspectos – estéticos sobretudo – a parte vital do espetáculo do futebol. Mais do que espectador, o torcedor faz parte da obra que, aparentemente, apenas assiste. Receptor e criador, ele vivencia integral e visceralmente aquela experiência estética.

 Os hinos representam esta beleza transformada em sonoridade, em música. Dividindo  importância apenas com o grito de “GOL” o hino de nosso time é uma composição cuidadosa que reúne letra e melodia a serviço de uma identidade a ser construída e repassada de geração a geração.

Agora – permitam-me os torcedores do Vitória – sem desmerecer sua torcida que tem crescido consideravelmente, não se pode falar em beleza de torcidas sem dedicar um parágrafo à torcida do Bahia. Nacionalmente reconhecida como patrimônio imaterial de nosso estado, ela impressiona até mesmo o torcedor rival, que reconhece sua imponência. A beleza da torcida do Bahia emana de sua força, sua história, sua resistência e sua inabalável fé no time. O sentimento de pertencimento faz desta torcida – e de todas as outras, obviamente – a parte verdadeiramente essencial do time. Os jogadores passam, a equipe técnica muda, os diretores revezam. O que dá unidade ao clube? Sua torcida.

É sabido que o torcedor do Bahia é aquele “doente” que usa a camisa na segunda-feira, mesmo depois de um possível 5 X 0 no final de semana, enfrentando todo tipo de gozação. Na derrota, no empate ou na vitória, sempre é dia de vestir a camisa do Bahia:
  • Na segunda, porque teve jogo no fim de semana.
  • Na terça, porque é véspera de quarta, e todos nós sabemos que quarta tem rodada do campeonato.
  • Na quarta, porque não dá pra ir pra Pituaçu sem o uniforme! (Ou mesmo ouvir o jogo no radinho sem a vestimenta fundamental).
  • Na quinta, porque teve jogo ontem.
  • Na sexta, porque terá jogo no fim de semana
  • ... e por aí vai.

E haja tanta camisa. Original ou de camelô, o torcedor, mais que ser outdoor de sua paixão, quer tê-la como segunda pele.

Agora, se por acaso, você leitor não concorda com nada do que eu disse até agora e está se perguntando porque leu esta coluna até aqui; se você odeia o barulho e a algazarra que as torcidas fazem em dia de jogo, ou mesmo se você sempre desejou que seu marido largasse as camisas de time e vestisse uma roupa decente, tente a partir de hoje ponderar a situação e buscar compreender que essa gritaria infernal e esta roupa aparentemente ridícula fazem parte de um ritual coletivo que em meio a tanta solidão e tristeza da vida moderna, é um apelo às práticas sociais (num sentido mais profundo do que o utilizado atualmente). Uma experiência integral, onde o torcedor deixa de ser um indivíduo isolado e torna-se, não apenas parte, mas o próprio corpo coletivo.

E tente, a partir de agora, lançar um olhar mais estetizado sobre as coisas prosaicas da vida. Se isso não nos salvar, pelo menos embelezará momentos que talvez fossem mais difíceis de serem vividos, não fosse a beleza – que no fundo, no fundo – pode estar mesmo é nos olhos de quem vê.

UMA COROA DE RESPEITO - 80 anos de Copa do Mundo

Ela já tem 80 anos. E muita história para contar. A Copa do Mundo de Futebol é o maior ritual coletivo da modernidade. Ela envolve milhões de pessoas em todo o mundo, através de uma celebração aparentemente sem sentido: quem nunca se perguntou qual a graça de ver 22 homens brigando por uma bola? Pois é justamente essa briga internacional por uma bola, pelo feito extraordinário de conquistar o espaço inimigo através da simbologia do gol, que tem o poder de reunir boa parte da população planetária em torno de um mesmo acontecimento.

Sucesso absoluto em termos administrativos, políticos, culturais e – obviamente – esportivos, sua realização envolve uma infinidade de instâncias não apenas no país sede, mas ao redor de todo o mundo.

Nascida no ano de 1930, a Copa do Mundo já havia sido idealizada desde o início do século, mais precisamente em 1904, quando foi criada a FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado do francês Fédération Internationale de Football Association). O primeiro encontro entre seleções deveria ter acontecido em 1906, mas o clima político mundial estava tenso. Tensão esta que resultou na I Guerra Mundial, em 1914. Uma pena. Talvez o conflito simbólico tivesse evitado o conflito real.

Depois dessa tentativa frustrada, Jules Rimet, um grande entusiasta e idealizador do futebol moderno, reapresenta a proposta que é bem recebida pelas autoridades no assunto, sobretudo por conta do sucesso que o futebol havia feito nos Jogos Olímpicos de 1924. Como nas Olimpíadas não podiam jogar profissionais, a possibilidade de levar os melhores jogadores de cada nação foi um dos grandes atrativos para se criar um mundial só de futebol.


De lá pra cá foram 17 edições. Você pode estar achando que tem um problema de matemática aí, mas deixe-me esclarecer. Durante a década de 40 – novamente por causa de uma Guerra Mundial – as nações não se enfrentaram no campo, pois estavam perdendo seus homens no campo real da guerra sangrenta.

O Brasil é o único país a participar de todas as edições da Copa do Mundo. E também é seu maior vencedor, tendo levado – ou melhor, trazido – para casa cinco títulos. A maioria dos mundiais aconteceu na Europa, 09 deles. Em seguida a América Latina tem um número maior de copas: 06 mundiais, contra 01 dos Estados Unidos, 01 da Ásia e, agora em 2010, pela primeira vez uma Copa acontecerá em território Africano.

Falar de Copa do Mundo, não é falar apenas de futebol. É falar também de turismo, cultura, política, infra-estrutura. Todo o mundo turístico parece voltar-se para o evento. As empresas de marketing, certas do sucesso do evento, aconselham todos os seus clientes a vincularem suas marcas ao futebol. Não apenas propagandas, como também as mais diversificadas promoções são feitas tendo como foco o mundial. Da televisão ao celular, dos supermercado aos banco, todos querem tirar uma lasquinha do futebol. Os jogadores viram as grandes estrelas da publicidade e o jogo de faturar milhões também entra em cena.

Mas, falemos das belezas de uma Copa do Mundo. Beleza de nossa capacidade de nos organizarmos em torno de um objetivo comum. Beleza de nos unirmos – tricolores e rubro-negros – para comemorarmos, juntos, um mesmo gol. Beleza de conseguirmos derrubar a dureza do cotidiano para nos reunirmos em casa na hora do jogo do Brasil, quando o trabalho cessa e torcer pelo nosso país é a única coisa que importa. Beleza de nos associarmos a um ideal que aparentemente apolítico, nos define, nos unifica, nos identifica.

Torcer não é obrigatório, mas todos nós torcemos. Torcedor não tem documento oficial, mas todos nós somos. Essa capacidade de defendermos tanto uma causa para a qual não fomos obrigados, não somos fiscalizados, não somos nem remunerados, mantém viva uma possibilidade de vivermos essa porção da vida que é do intangível, do inexplicável, do imponderável. Essa coisa que talvez não tenha nome, mas que em alguma medida nos constitui. Se nestes tempos modernos – excessivamente modernos – estamos reduzidos a uma profissão, às nossas posses e nossos títulos, às nossas contas e nossas dívidas, a isso tudo que se pode nomear, discriminar e quantificar, atividades como a arte, a festa e o futebol talvez nos remetam ao que somos de fato, àquilo que não vou tentar comentar aqui, porque as palavras são por demais frágeis e eu, por demais humana.

E é a Copa do Mundo – vista não com os olhos pesados de apenas um grande mercado, uma grande indústria, mas com um olhar mais generoso sobre este ritual – o espaço onde essa magia acontece. Voltemos, então, nossos olhos ao continente africano, onde mais uma vez a humanidade se re-encontra. Que seja um momento mágico, de paz, de alegria, de combate justo, onde perdedores e vencedores se encontrem, convivam e construam, cada um a sua maneira, mais uma página na história dessa jovem senhora que nos assiste a 80 anos e nos ensina um pouquinho mais sobre nós mesmos. Que venha a Copa do Mundo de 2010.