É, tomei coragem e disposição para escrever neste blog que há tanto tempo não atualizo e para falar sobre a atual situação da Bahia.
Juro que tenho tentado ler tudo com alguma isenção ideológica, partidária, sem julgamento, tentando não ser manipulada por nenhum dos lados. Leio tudo com respeito e me disponho a pensar em todos os argumentos.
Mas, o que eu quero falar aqui é sobre o radicalismo de ambas as partes.
Os PMs erraram em pegar em armas? Erraram e erraram muito.
Os PMs são péssimos, verdadeiramente péssimos em suas práticas cotidianas de autoritarismo, racismo, corrupção, abuso de poder? Sim, são. Muito péssimos.
Os PMs são a grande peste que grevistas e manifestantes encontram em suas ações cidadãs? Sim, são.
Mas isso é suficiente para aniquilar o diálogo? Por que eles são péssimos, acabou tudo, não se pode mais debater a questão, eles não têm o direito de reivincar o cumprimento de leis trabalhistas que estão sendo esquecidas?
Não seria essa uma ótima oportunidade para eles reverem sua relação com a sociedade? Ingênua, eu, né? Também acho, mas enfim, acho que os discursos que reduzem a existência a uma coisa ou outra não nos levam para lugar nenhum. Abortam o diálogo, atravancam o desenvolvimento e a transformação.
A greve é política? O PSDB está alimentando o movimento? Se fosse tão simples assim, Jacques Wagner poderia tirar de letra essa questão, eu imagino. Todas aquelas famílias reunidas na AL, todos os cabos, soldados, praças do interior que querem se unir à causa estão sendo manipulados por um único homem? Acho outro pensamento preguiçoso. E essa uma das questões importantes, a gente tem uma preguicinha de pensar e de enfrentar os conflitos. Fica um monte de gente no facebook e no twitter jogando na cara da gente que a gente votou em Jacques Wagner e agora aguente. Ora, vamos debater inteligente e corajosamente a questão ou vamos ficar atirando pedras a esmo?
Eu votei em Jacques Wagner nas duas eleições. Eu sou Petista (sim, ainda sou) e me orgulho disso, porque o PT é uma história de mais de duas décadas, porque ainda há pessoas neste grande partido que defendem os trabalhadores, como o nome do partido sugere.
Mas, isso não me impede de fazer sérias críticas a este partido, do modo como ele é conduzido hoje. O fato de ter votado em Jacques Wagner não me impede, muito pelo contrário, me autoriza, ou ainda me obriga a ser crítica de sua atuação. Sim, me obriga a ser crítica, se pensarmos que o governo é representativo e não autoritário. Ele deve me representar, foi pra isso que votei nele e quando ele não age assim, devo me manifestar, sem medo de ser tachada de 'voto perdido' ou 'traidora do partido'.
Aí que entra meu querido futebol.
O Bahia pode fazer a merda que for, eu vou defender o Bahia sempre. Joel Santana, Renato Gaúcho, René Simões, Márcio Araújo, Falcão, seja quem for, vai fazer merda, a gente vai chiar muito, mas a gente vai continuar Bahia, vai defender, não vai deixar o inimigo falar mal - só quem pode falar mal do time da gente é a gente.
Querer defender o PT como se fosse seu time de futebol, sem criticidade, cego pela paixão de torcedor em conversa de boteco é uma insanidade.
Votar é outra história. Votar é fazer parte do processo de condução da vida política do país. Eleição não é Campeonato Nacional de Futebol e eu não tenho que fechar com todos os equívocos do meu candidato só porque votei nele. Eu tenho outra arma: eu posso não votar nele na próxima eleição. Abandonar um candidato ou mesmo um partido não representa necessariamente abandonar uma ideologia. Pode ser justamente o contrário. Pode ser manter-se na ideologia através de outras representações.
Enfm, posso ter sido bem confusa, e fui, mas quem não está confuso hoje na nossa Bahia?
Eu repudio a forma imatura e vaidosa como Jacques Wagner está conduzindo este importante evento em nosso estado. Para mim, na verdade, não há nenhuma novidade, porque ele tratou como cachorro os professores das unviersidades quando passaram aproximadamente três meses em greve e agora trata milhares de policiais como bandidos.
Se essa bosta é briga política, tá na hora de entrar alguém com um pingo de bom senso e de respeito pelo povo para conduzir esta situação. Se estão acostumados às brigas de gabinete onde são vendidos votos e negociadas ações do governo, leis e procedimentos, não é disso que estamos tratando no momento, Sr. Governador.
Estamos tratando de vidas humanas e isso não se trata com birra nem com vaidade.
De tudo que tiremos uma oportunidade de transformação. Que o fato de os acontecimentos terem influenciado a vida de cada um de nós (o que não acontece com outras greves) nos ensine a fazer democracia, a debater ideias, a rever posturas, a escolher nossos representantes, a nos avaliarmos politicamente e ajudarmos enfim, nosso país a consolidar sua democracia.
Sem tanques de guerra na rua. Sem forças armadas, inclusive porque temos uma presidenta que foi torturada por um regime bruto e cruel conduzido por estes mesmos senhores que novamente se dizem em ação em nome da ordem e da lei.
É bolada, cidadão baiano!
Depois da pesquisa de mestrado realizada no PPGAC - UFBA, intitulada TEATRO X FUTEBOL: Por uma dramaturgia do espetáculo futebolístico, dou continuidade à pesquisa em nível de doutorado: A EXPERIÊNCIA TRÁGICA DO TORCEDOR: o Futebol como espetáculo absoluto do Século XX. Neste blog pensamentos, perguntas, problematizações, cotidianices, política, arte, poesia. TEATRO E FUTEBOL juntos, porque entre o campo e o palco, entre o jogo e peça existem mais parentescos do que supõe a nossa vã filosofia.
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
domingo, 18 de dezembro de 2011
Ooooolé: O massacre do Barcelona sobre o Santos como oportunidade educativa
Deu-se a tragédia!
A vergonhosa derrota do futebol brasileiro hoje, representado pelo Clube Santista, trouxe à luz dos nossos olhos a cruel e desoladora verdade sobre o nosso futebol: Perdemos!
Perdemos todos!
Perderam a magia, a beleza e a arte de nosso belo jogo.
Perderam os artistas da bola, as crianças que crescem com a redonda no pé, que aprendem nas várzeas e campinhos, com bolas de meia e sem chuteiras.
Perdeu a subjetividade de nossa mais bela configuração cultural.
Ganharam os cartolas. Ganharam as incontáveis marcas que poluem as camisas de nossos times. Ganharam os empresários da bola, que esticam os braços de nossos jogadores, puxando e empurrando todos e cada um deles pra lá e pra cá como borrachas de amarrar dinheiro.
Ganharam os presidentes de clubes filhos-da-puta, que destruiram nossas bases, que liquidaram com o sentimento de pertencimento a um clube, que fizeram do ato de jogar futebol uma atividade esvaziada de sentido e repleta de cifras.
Trocamos acordes por cifras.
Mas, ao fim e ao cabo, sinto dizer caros empresário, perdemo todos.
A humilhante derrota do Santos, o baile dos espanhóis deixam evidente que perdemos o posto que por tanto tempo foi nosso. Não o posto de campeões inquestionáveis, mas o posto de jogar e fazer bonito. O posto de sermos respeitados e admirados. O posto de sermos, mesmo que não ganhemos, as autoridades no assunto.
Perdemos e perdemos feio demais.
Que tristeza ver um Santos humilhado, arrasado, amedrontado, pequeno diante da fera Barcelona. Ver o Barcelona jogar o futebol que outrora era o a marca do futebol brasileiro: beleza, eficiência e graça.
Eu fiquei constrangida diante da TV.
Os intelectuais (sobretudo da área de educação) que sempre acharam um absurdo o Brasil se orgulhar de seu futebol (leia o post anterior) devem estar felizes, porque naquilo que nos orgulhávamos e que nos representava como potência mundial, nisso, também falhamos.
E acredito que não há tristeza maior para o povo brasileiro do que perder sua identidade no futebol.
Fica a oportunidade educativa para técnicos, para dirigentes, para a imprensa esportiva do Brasil, sobretudo para a insuportável Revista Placar, que num ano tem mais de 6 capas com Neymar.
E fica para esse bom menino uma das maiores aulas de sua vida: Tem que comer muito feijão com arroz ainda para ser um Messi. Não porque o Messi em si é imabtível, mas porque tem sua trajetória, tem seu percurso, tem seus aprendizados com triunfos e derrotas. Sem isso, caro Neymar - que eu admiro e torço pelo sucesso - não há craque, não há ídolo, não há história.
Você é um menino, e isso não pode ser considerado um defeito, pelo contrário. Mas, não acredite em nada que a Globo, a editora Abril e toda essa corja lhe dizem. Acredite no que você faz, no que você vive e vê. Acredite nas pessoas de verdade e nos fatos em si. Porque a Globo e Cia. vão ser as primeiras a te dar um belo de um pé na bunda, quando você não lhes servir aos interesses de mercado.
Que a imprensa brasileira aprenda de vez que a notícia não é o fato. Que gritar durante todo o mês que Santos e Barcelona, que Neymar e Messi são do mesmo tamanho e força, não faz com que eles de fato sejam. Nós não acreditamos em vocês. Nós acreditamos nos fatos.
Eu espero que essa vergonha de hoje sinalize que a vitória da cifra sobre a chuteira representa uma derrota para todos. Esvaziar o futebol brasileiro de sua beleza, graça e talento é acabar com seu princípio, é acabar com o futebol em si.
O querido Sócrates, em entrevista a Maria Gabriela e também no Altas Horas, pouco antes de sua partida disse muito acertadamente que o Brasil precisa jogar futebol brasileiro. Enquanto tentarmos jogar futebol europeu, sairemos derrotados. (Veja post anteior a este, sobre Sócrates).
O que o futebol brasileiro tem de melhor é ser o futebol brasileiro.
Que ainda haja tempo para reconquistarmos essa qualidade
Se não, não haverá 'Santos' que nos salvem!
É bolada, brasileiro!
A vergonhosa derrota do futebol brasileiro hoje, representado pelo Clube Santista, trouxe à luz dos nossos olhos a cruel e desoladora verdade sobre o nosso futebol: Perdemos!
Perdemos todos!
Perderam a magia, a beleza e a arte de nosso belo jogo.
Perderam os artistas da bola, as crianças que crescem com a redonda no pé, que aprendem nas várzeas e campinhos, com bolas de meia e sem chuteiras.
Perdeu a subjetividade de nossa mais bela configuração cultural.
Ganharam os cartolas. Ganharam as incontáveis marcas que poluem as camisas de nossos times. Ganharam os empresários da bola, que esticam os braços de nossos jogadores, puxando e empurrando todos e cada um deles pra lá e pra cá como borrachas de amarrar dinheiro.
Ganharam os presidentes de clubes filhos-da-puta, que destruiram nossas bases, que liquidaram com o sentimento de pertencimento a um clube, que fizeram do ato de jogar futebol uma atividade esvaziada de sentido e repleta de cifras.
Trocamos acordes por cifras.
Mas, ao fim e ao cabo, sinto dizer caros empresário, perdemo todos.
A humilhante derrota do Santos, o baile dos espanhóis deixam evidente que perdemos o posto que por tanto tempo foi nosso. Não o posto de campeões inquestionáveis, mas o posto de jogar e fazer bonito. O posto de sermos respeitados e admirados. O posto de sermos, mesmo que não ganhemos, as autoridades no assunto.
Perdemos e perdemos feio demais.
Que tristeza ver um Santos humilhado, arrasado, amedrontado, pequeno diante da fera Barcelona. Ver o Barcelona jogar o futebol que outrora era o a marca do futebol brasileiro: beleza, eficiência e graça.
Eu fiquei constrangida diante da TV.
Os intelectuais (sobretudo da área de educação) que sempre acharam um absurdo o Brasil se orgulhar de seu futebol (leia o post anterior) devem estar felizes, porque naquilo que nos orgulhávamos e que nos representava como potência mundial, nisso, também falhamos.
E acredito que não há tristeza maior para o povo brasileiro do que perder sua identidade no futebol.
Fica a oportunidade educativa para técnicos, para dirigentes, para a imprensa esportiva do Brasil, sobretudo para a insuportável Revista Placar, que num ano tem mais de 6 capas com Neymar.
E fica para esse bom menino uma das maiores aulas de sua vida: Tem que comer muito feijão com arroz ainda para ser um Messi. Não porque o Messi em si é imabtível, mas porque tem sua trajetória, tem seu percurso, tem seus aprendizados com triunfos e derrotas. Sem isso, caro Neymar - que eu admiro e torço pelo sucesso - não há craque, não há ídolo, não há história.
Você é um menino, e isso não pode ser considerado um defeito, pelo contrário. Mas, não acredite em nada que a Globo, a editora Abril e toda essa corja lhe dizem. Acredite no que você faz, no que você vive e vê. Acredite nas pessoas de verdade e nos fatos em si. Porque a Globo e Cia. vão ser as primeiras a te dar um belo de um pé na bunda, quando você não lhes servir aos interesses de mercado.
Que a imprensa brasileira aprenda de vez que a notícia não é o fato. Que gritar durante todo o mês que Santos e Barcelona, que Neymar e Messi são do mesmo tamanho e força, não faz com que eles de fato sejam. Nós não acreditamos em vocês. Nós acreditamos nos fatos.
Eu espero que essa vergonha de hoje sinalize que a vitória da cifra sobre a chuteira representa uma derrota para todos. Esvaziar o futebol brasileiro de sua beleza, graça e talento é acabar com seu princípio, é acabar com o futebol em si.
O querido Sócrates, em entrevista a Maria Gabriela e também no Altas Horas, pouco antes de sua partida disse muito acertadamente que o Brasil precisa jogar futebol brasileiro. Enquanto tentarmos jogar futebol europeu, sairemos derrotados. (Veja post anteior a este, sobre Sócrates).
O que o futebol brasileiro tem de melhor é ser o futebol brasileiro.
Que ainda haja tempo para reconquistarmos essa qualidade
Se não, não haverá 'Santos' que nos salvem!
É bolada, brasileiro!
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domingo, 11 de dezembro de 2011
FUTEBOL, POLÍTICA, EDUCAÇÃO E ARTE por José Miguel Wisnik
Este vídeo fez parte do vídeo maior que eu apresentei na minha defesa de mestrado.
Foi editado por mim e por Alexsandro Moreira, a partir do áudio de uma entrevista de José Miguel Wisnik para o programa Café Filosófico em 2009.
Não requer explicações, nem maiores introduções, porque ele é simplesmente demais.
Foi editado por mim e por Alexsandro Moreira, a partir do áudio de uma entrevista de José Miguel Wisnik para o programa Café Filosófico em 2009.
Não requer explicações, nem maiores introduções, porque ele é simplesmente demais.
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domingo, 4 de dezembro de 2011
ADEUS AO SÓCRATES ARTISTA
Se fosse mesmo pra brincar com nome de Filósofo Grego, ele deveria se chamar Aristóteles, porque seu império era o reino das artes.
O Doutor Sócrates povoa meu imaginário, porque de todas as lembranças que tenho da minha infância, ainda em São Paulo, uma das mais fortes é a Copa de 82 e o show oferecido por ele e seus companheiros Zico, Júnior, Casagrande, Falcão, Oscar, Leandro, Éder, entre outros, além do querido Telê Santana.
Lembro-me que eu, com minha já desenvolvida mania para promessas, fiz uma promessa de que se o Brasil ganhasse aquele jogo contra a Itália, eu rezaria o pai-nosso. Coisa de criança. Mas, para adiantar o serviço, eu paguei a promessa antes da graça, o que segundo minha indignada irmã, também criança, acabou por provocar a derrota do Brasil para Paolo Rossi. Sim, historiadores, a culpa daquela dolorosa derrota foi minha!
Lembro-me da imagem do Dr. Sócrates como aquela figura imponente, mas simpática, politizada, aguerrida, lutando contra a ditadura, promovendo uma verdadeira revolução no Corínthians através da Democracia Corintiana, um marco do futebol mundial. Lembro-me de seu sorriso maroto e sua barba plena, coisa de militante!
Sim, porque com moralismo ou com vícios a gente vai morrer de qualquer jeito e será muito mais feliz aquele que levar consigo não apenas o preço, mas o prazer, a felicidade e a liberdade de ter assumudo seus próprios desejos, desvios e transgressões. Hoje o cigarro e a cachaça não representam mais uma atitude de subversão e indisciplina, atitudes necessárias para o avanço da humanidade. Representam, pelo contrário, consumo e obediência. Que essa geração descubra o que de fato representa transgredir, desobededer, avançar, e eu, particularmente, acho que ela vai descobrir.
De cá, eu encaminho minhas saudades a esse grande corintiano, a esse grande brasileiro e o homenageio com fotos inesquecíveis e vídeos marcantes.
Adeus, Doutor! Adeus Artista!
Sócrates no Altas Horas
Mais Sócrates no Altas Horas
O Doutor Sócrates povoa meu imaginário, porque de todas as lembranças que tenho da minha infância, ainda em São Paulo, uma das mais fortes é a Copa de 82 e o show oferecido por ele e seus companheiros Zico, Júnior, Casagrande, Falcão, Oscar, Leandro, Éder, entre outros, além do querido Telê Santana.
Lembro-me que eu, com minha já desenvolvida mania para promessas, fiz uma promessa de que se o Brasil ganhasse aquele jogo contra a Itália, eu rezaria o pai-nosso. Coisa de criança. Mas, para adiantar o serviço, eu paguei a promessa antes da graça, o que segundo minha indignada irmã, também criança, acabou por provocar a derrota do Brasil para Paolo Rossi. Sim, historiadores, a culpa daquela dolorosa derrota foi minha!
Lembro-me da imagem do Dr. Sócrates como aquela figura imponente, mas simpática, politizada, aguerrida, lutando contra a ditadura, promovendo uma verdadeira revolução no Corínthians através da Democracia Corintiana, um marco do futebol mundial. Lembro-me de seu sorriso maroto e sua barba plena, coisa de militante!
Hoje é um dia especial. S. Ático e Dr. Sócrates vão assistir, juntos, a final do campeonato brasileiro de 2011 e, se der tudo certo, vão comemorar o triunfo do Timão. Meu pai com seu cigarrinho, o doutor com sua branquinha.
Sim, porque com moralismo ou com vícios a gente vai morrer de qualquer jeito e será muito mais feliz aquele que levar consigo não apenas o preço, mas o prazer, a felicidade e a liberdade de ter assumudo seus próprios desejos, desvios e transgressões. Hoje o cigarro e a cachaça não representam mais uma atitude de subversão e indisciplina, atitudes necessárias para o avanço da humanidade. Representam, pelo contrário, consumo e obediência. Que essa geração descubra o que de fato representa transgredir, desobededer, avançar, e eu, particularmente, acho que ela vai descobrir.
De cá, eu encaminho minhas saudades a esse grande corintiano, a esse grande brasileiro e o homenageio com fotos inesquecíveis e vídeos marcantes.
Adeus, Doutor! Adeus Artista!
É bolada, Magrão!!!
Sócrates no Altas Horas
Mais Sócrates no Altas Horas
sexta-feira, 22 de julho de 2011
MAIS DEMORADA QUE JOGADOR CONTUNDIDO
Oi, gente.
Eita que eu demorei de voltar mais do que jogador contundido, num foi?
Muitos motivos, quem os deseja conehcer pode acessar o http://www.artedoespectador.blogspot.com/, os dois últimos posts.
Não falei do mico da Seleção Brasileira na Copa América, da vontade que eu tive de tomar uma champagnhe com Dunga, porque eu tenho certeza que ele estourou uma e com toda razão...
Não falei da palhaça do projeto Neymar sendo publicados verdadeiros dossiês sobre o Novo Rei na Veja, na Caras, na Placar, tudo ao mesmo tempo, na semana de início da referida Copa.
Não falei da roubalheira dos árbitros em jogos de grandes contra o meu grande Bahia, desde o jogo com o Timão, até o último contra o Cruzeiro.
Não falei da delícia de ver Jael pirraçando os rubro-negros, colocando um pouquinho de tempero na existência frouxa e insípida dos jogadores de futebol de hoje.
Não falei da parceria na nova Granja de Rogério Ceni e Júlio César.
Não falei que eu acho o novo padrão do Bahia lindo!
Mas, listado boa parte daquilo que eu adoraria ter falado, fora os textos teóricos que eu tenho produzido sobre teatro e futebol e que quero muito publciar aqui, vamos andar pra frente, né, que cada jogo é 3 pontos.
Volto à ativa e espero recuperar cada um dos meus leitores que desistiram de meu blog porque encontrava sempre o mesmo post desatualizado.
Já já eu faço um post-conceito que esse aqui, fala sério, é só um post-comentário.
Eita que eu demorei de voltar mais do que jogador contundido, num foi?
Muitos motivos, quem os deseja conehcer pode acessar o http://www.artedoespectador.blogspot.com/, os dois últimos posts.
Não falei do mico da Seleção Brasileira na Copa América, da vontade que eu tive de tomar uma champagnhe com Dunga, porque eu tenho certeza que ele estourou uma e com toda razão...
Não falei da palhaça do projeto Neymar sendo publicados verdadeiros dossiês sobre o Novo Rei na Veja, na Caras, na Placar, tudo ao mesmo tempo, na semana de início da referida Copa.
Não falei da roubalheira dos árbitros em jogos de grandes contra o meu grande Bahia, desde o jogo com o Timão, até o último contra o Cruzeiro.
Não falei da delícia de ver Jael pirraçando os rubro-negros, colocando um pouquinho de tempero na existência frouxa e insípida dos jogadores de futebol de hoje.
Não falei da parceria na nova Granja de Rogério Ceni e Júlio César.
Não falei que eu acho o novo padrão do Bahia lindo!
Mas, listado boa parte daquilo que eu adoraria ter falado, fora os textos teóricos que eu tenho produzido sobre teatro e futebol e que quero muito publciar aqui, vamos andar pra frente, né, que cada jogo é 3 pontos.
Volto à ativa e espero recuperar cada um dos meus leitores que desistiram de meu blog porque encontrava sempre o mesmo post desatualizado.
Já já eu faço um post-conceito que esse aqui, fala sério, é só um post-comentário.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
BOAS FESTAS JUNINAS
Caros amigos e amigas.
São Jão é no interior, né? E no interior a vida real - felizmente - ainda é maior, bem maior, que a vida virtual. Pelo menos no meu caso.
Assim, não tenho muito acesso à INTERNET quando estou na casa da minha família e, cá pra nós, não me mobiliza muito ir à lan-house.
Assim, ficaremos um tempo sem postar, sem atualizar as páginas, mas - sem dúvida - atualizando a vida e produzindo muita experiência a ser postada, fotografada ou mesmo encenada no futuro.
Grande abraço a todos!
Bom São João, São Pedro e 2 de Julho!
São Jão é no interior, né? E no interior a vida real - felizmente - ainda é maior, bem maior, que a vida virtual. Pelo menos no meu caso.
Assim, não tenho muito acesso à INTERNET quando estou na casa da minha família e, cá pra nós, não me mobiliza muito ir à lan-house.
Assim, ficaremos um tempo sem postar, sem atualizar as páginas, mas - sem dúvida - atualizando a vida e produzindo muita experiência a ser postada, fotografada ou mesmo encenada no futuro.
Grande abraço a todos!
Bom São João, São Pedro e 2 de Julho!
sexta-feira, 3 de junho de 2011
HOCKEY: Uma cidade desvelada num esporte paixão nacional - Por Cecília Accyoli
Gente.
A bonita da Cecília não foi para Pituaçu com a gente, quando a turma de doutorado foi ver BAHIA X NÁUTICO o ano passado. Ela foi viver coisa parecida lá no frio do Canadá, pode? E aí, a gente conversando sobre a experiência eu a INTIMEI a escrever para o Blog. Quando ela voltar, já sabe, né: sol escaldante na cabeça. Pituaçu, sem falta, bonita.
Curtam um pouquinho da paixão nacional canadense.
*********************************************************************************
Como me descobri CANUCK!!! Cecília Accioly
A convite de minha querida Drica, aceitei o desafio de escrever esta nota sobre uma experiência completamente nova:
Assistir (e torcer) a um jogo de Hockey!
Fomos, eu e alguns amigos canadenses, a um típico pub, em Downtown Vancouver, assistir à semi-final da Stanley Cup – da Liga Nacional de Hockey (NHL). A primeira coisa que passou pela miha cabeça foi: como se assiste a este jogo? Quais as regras? Pode gritar? Como seria torcer por um jogo que eu ainda não conhecia?
O jogo: San Jose Sharks vs. Vancouver Canucks. Semi-final. Jogo de volta – os Canucks ganharam o primeiro na ensolarada casa do adversário. O pub lotado. Todos em seus acentos com olhos nos enormes televisores espalhados pelo local. Todos de azul, branco e verde...eu estava de azul.
E para comer?? Via os garçons freneticamente passando com os enormes sanduíches – tamanho canadense – muitos nachos, yam fries... para mim: Chicken BBQ pizza. O jogo teve sabor de pizza de frango ao molho de churrasco com cebolas roxas, coentro e jalapeño. Enormes copos de cerveja de aveia desfilavam e faziam barulho nas mesas, acompanhando os sons dos talheres, das conversas...
O jogo começa...uma enorme tensão se instala. Primeiro, o hino estadunidense do adversário visitante, depois, o local para, todos se levantam, e cantam a plenos pulmões com todo orgulho seu hino bilingue: “O Canada! Our home and native land! … Ô Canada! Terre de nos aïeux...”, “O Canada, we stand on guard for thee. … Protégera nos foyers et nos droits”. O disco é liberado, e começa o movimento dos jogadores.
A velocidade é incrível! A agilidade dos jogadores também. O jogo dura um total de 60 minutos, divididos em três tempos de 20 minutos, com intervalos de trinta minutos e mais dois minutos de intervalo durante cada tempo para os comerciais da TV. Sendo necessário, tem-se mortes súbitas até que o jogo se defina.
E, de repente, aqueles cidadãos silenciosos, com um enorme respeito ao espaço individual alheio, que falam baixo, e se tocam em caso de necessidade ou intimidade se transformam.
Eles gritam como se interferissem no andamento do jogo, xingam o técnico, o juíz, levantam, roem unhas, acompanham com radinhos (no país da tecnologia, são seus iPods, iPads, iPhones4...mas da mesma forma que conhecemos aquelas criaturas que precisando de mais de uma narração assistem pela TV e ouvem seus radinhos de pilha que não abandonam neste momento de sofrimento, paixão...deleite.).
E o grito de GOOOOOOLLLLL! Sim, no Hockey grita-se gol...Goal! Meta atingida! E as pessoas se abraçam...e se sentem no estádio – por sinal bem perto dali – e beijam suas camisas, e choram, e pedem mais cerveja, e comem mais snacks...e eu mais uma fatia de minha pizza.
Resultado do Jogãããão: 3 para o Canucks, 2 para o Sharks! Sim...os tubarões perderam num jogo eletrizante, hipnotizante, de movimentos rápidos, certeiros, de lâminas cruzando o gelo, de jogadores imprensados contra as paredes que cercam a arena, de tacos e miras e um fantástico espírito de equipe! Lindo!
E o VANCOUVER CANUCKS, após 17 anos, está na FINALLLLL!!!! O narrador gritava sem parar! Do jeito que nós conhecemos, falando rápido, abraçando os comentaristas – técnicos, jogadores e juízes antigos que, não atuando mais, participam com seus discursos verbais...
E vi a cidade tomada por bandeiras, pessoas orgulhosamente vestidas....e percebi que elas sempre estiveram lá...explodindo deste amor pelo time, mesmo ele não estando numa final há 17 ANOS. Mas de repente às enxerguei pelo jogo, e de repente eu estava torcendo também, e de repente gritava xingamentos e falava com o técnico através da TV... e perguntei a um de meus amigos o que significava Canuck...: “é o mesmo que canadense, só que num apelido...”. E lembrei da Bahia e do Baêa... e via as pessoas gritando “Go Canucks, Go!” nas ruas...e os mesmo dizeres nos ônibus...e vi uma cidade apaixonada...e pelo jornal, um país apaixonado pelo seu representante nesta copa norteamericana.
A Grande Final terá início nesta quarta-feira, 1 de junho de 2011. Mas o sofrimento é enorme, pois dura 7 jogos. E dia quinze de junho de 2011 teremos finalmente o resultado, na Arena Rogers, Casa dos Canucks, do último jogo entre o time de Vancouver e o BOSTON BRUINS.
Uma linda batalha do Oeste contra o Leste... E que vença o melhor...mas, de coração, GO CANUCKS, GO!!!!!
É bolada, canadense!!!
Links elucidativos:
http://www.nhl.com/index.html
http://canucks.nhl.com/
A bonita da Cecília não foi para Pituaçu com a gente, quando a turma de doutorado foi ver BAHIA X NÁUTICO o ano passado. Ela foi viver coisa parecida lá no frio do Canadá, pode? E aí, a gente conversando sobre a experiência eu a INTIMEI a escrever para o Blog. Quando ela voltar, já sabe, né: sol escaldante na cabeça. Pituaçu, sem falta, bonita.
Curtam um pouquinho da paixão nacional canadense.
![]() |
| Cecília, cumprindo créditos no Canadá |
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Como me descobri CANUCK!!! Cecília Accioly
A convite de minha querida Drica, aceitei o desafio de escrever esta nota sobre uma experiência completamente nova:
Assistir (e torcer) a um jogo de Hockey!
Fomos, eu e alguns amigos canadenses, a um típico pub, em Downtown Vancouver, assistir à semi-final da Stanley Cup – da Liga Nacional de Hockey (NHL). A primeira coisa que passou pela miha cabeça foi: como se assiste a este jogo? Quais as regras? Pode gritar? Como seria torcer por um jogo que eu ainda não conhecia?
O jogo: San Jose Sharks vs. Vancouver Canucks. Semi-final. Jogo de volta – os Canucks ganharam o primeiro na ensolarada casa do adversário. O pub lotado. Todos em seus acentos com olhos nos enormes televisores espalhados pelo local. Todos de azul, branco e verde...eu estava de azul.
E para comer?? Via os garçons freneticamente passando com os enormes sanduíches – tamanho canadense – muitos nachos, yam fries... para mim: Chicken BBQ pizza. O jogo teve sabor de pizza de frango ao molho de churrasco com cebolas roxas, coentro e jalapeño. Enormes copos de cerveja de aveia desfilavam e faziam barulho nas mesas, acompanhando os sons dos talheres, das conversas...
O jogo começa...uma enorme tensão se instala. Primeiro, o hino estadunidense do adversário visitante, depois, o local para, todos se levantam, e cantam a plenos pulmões com todo orgulho seu hino bilingue: “O Canada! Our home and native land! … Ô Canada! Terre de nos aïeux...”, “O Canada, we stand on guard for thee. … Protégera nos foyers et nos droits”. O disco é liberado, e começa o movimento dos jogadores.
A velocidade é incrível! A agilidade dos jogadores também. O jogo dura um total de 60 minutos, divididos em três tempos de 20 minutos, com intervalos de trinta minutos e mais dois minutos de intervalo durante cada tempo para os comerciais da TV. Sendo necessário, tem-se mortes súbitas até que o jogo se defina.
E, de repente, aqueles cidadãos silenciosos, com um enorme respeito ao espaço individual alheio, que falam baixo, e se tocam em caso de necessidade ou intimidade se transformam.
Eles gritam como se interferissem no andamento do jogo, xingam o técnico, o juíz, levantam, roem unhas, acompanham com radinhos (no país da tecnologia, são seus iPods, iPads, iPhones4...mas da mesma forma que conhecemos aquelas criaturas que precisando de mais de uma narração assistem pela TV e ouvem seus radinhos de pilha que não abandonam neste momento de sofrimento, paixão...deleite.).
E o grito de GOOOOOOLLLLL! Sim, no Hockey grita-se gol...Goal! Meta atingida! E as pessoas se abraçam...e se sentem no estádio – por sinal bem perto dali – e beijam suas camisas, e choram, e pedem mais cerveja, e comem mais snacks...e eu mais uma fatia de minha pizza.
Resultado do Jogãããão: 3 para o Canucks, 2 para o Sharks! Sim...os tubarões perderam num jogo eletrizante, hipnotizante, de movimentos rápidos, certeiros, de lâminas cruzando o gelo, de jogadores imprensados contra as paredes que cercam a arena, de tacos e miras e um fantástico espírito de equipe! Lindo!
E o VANCOUVER CANUCKS, após 17 anos, está na FINALLLLL!!!! O narrador gritava sem parar! Do jeito que nós conhecemos, falando rápido, abraçando os comentaristas – técnicos, jogadores e juízes antigos que, não atuando mais, participam com seus discursos verbais...
E vi a cidade tomada por bandeiras, pessoas orgulhosamente vestidas....e percebi que elas sempre estiveram lá...explodindo deste amor pelo time, mesmo ele não estando numa final há 17 ANOS. Mas de repente às enxerguei pelo jogo, e de repente eu estava torcendo também, e de repente gritava xingamentos e falava com o técnico através da TV... e perguntei a um de meus amigos o que significava Canuck...: “é o mesmo que canadense, só que num apelido...”. E lembrei da Bahia e do Baêa... e via as pessoas gritando “Go Canucks, Go!” nas ruas...e os mesmo dizeres nos ônibus...e vi uma cidade apaixonada...e pelo jornal, um país apaixonado pelo seu representante nesta copa norteamericana.
A Grande Final terá início nesta quarta-feira, 1 de junho de 2011. Mas o sofrimento é enorme, pois dura 7 jogos. E dia quinze de junho de 2011 teremos finalmente o resultado, na Arena Rogers, Casa dos Canucks, do último jogo entre o time de Vancouver e o BOSTON BRUINS.
Uma linda batalha do Oeste contra o Leste... E que vença o melhor...mas, de coração, GO CANUCKS, GO!!!!!
É bolada, canadense!!!
Links elucidativos:
http://www.nhl.com/index.html
http://canucks.nhl.com/
segunda-feira, 16 de maio de 2011
MEU ÍDOLO ESTÁ NO BANCO
O primeiro sintoma foi deixar de sofrer quando era jogo do Corinthians. Dizia que aquilo já não lhe fazia mais tanto sentido:
"Tanto faz..."
Aos poucos, nem sabia mais se o timão estava jogando ou se passava Faustão.
Entra tantas densas baforadas, cinzas, pesadas e cruéis, seus olhos foram ficando acinzentados como a nuvem constante que o acompanha, sempre do lado de fora da casa, buscando incomodar o menos possível.
O cabelo, cinza também. Ralo e cinza. A pele perdendo seu vigor, a coluna desistindo a cada dia. As pernas, uma puxando a outra. Uma mão no bolso, outra no cigarro e lá vai ele calmamente pelas ruas largas do Guigó. Mas, o mais eloquente, sempre foi o olhar.
Nosso país não sabe o que fazer com seus velhos. Eles saem do mercado de trabalho e desaparecem sem sumir. Sem função. Sem projeto. Sem desafio. Depois de quase meio século trabalhando, tendo enfrentado pau-de-arara da Bahia a São Paulo. De pedreiro a zelador. De garanhão a pai maduro. Nada disso parece garantir uma velhice plena, feliz ou animada. Zumbis, viram os homens de outrora.
Os conflitos pipocam e de repente, só a monstra fumaça cinza. "Meu amigo" como ele insiste.
A presença das filhas e netos é constante, mas não aplaca a solidão.
Voltar para o mato, para o seio da família, para o verde e o azul da roça, onde cantam passarinhos e cacarejam as galinhas, talvez traga paz à alma. E o olhar, um portal do passado. Quanta recordação.
Eu não entendo meus sentimentos. Minha compreensão e força súbitas. Meu silêncio e meu suspiro. Minha vontade de acertar. Meu otimismo talvez bobo e infundado, talvez certo e decisivo.
Não sei de nada, não quero nada. Existo e amo e só isso me basta.
Quando rezo, peço qualquer coisa, peço o que seja bom, sem saber o que isso é. Mas rezo e sempre adormeço no terço. Sono bom.
Não vejo nem sinto nada com clareza, nessa nuvem espessa, cinza e cruel.
Essa fumaça inimiga que cerca e vence, sempre vence.
Mas, só ele sabe de si. De seus dias de glória e de seus dias de banco. Respeito suas decisões e seus apegos. Não sou moralista. Não aconselho. Não dou sermões. Escolha seus amigos. Escolha suas formas. Escolha suas saídas. Ao menos isso deve restar a um homem.
Na base, outro pequeno homem se prepara. O jogo não pára. E eu no meio, cercada desses incríveis homens maravilhosos que me ensinam e me completam. No mês das mães, noivas e marias, louvo os homens da minha vida e seguro a mão do meu ídolo sentado no banco.
ÁRVORE DA ESPERANÇA! MANTÉM-TE FIRME! (Frida Kahlo)
domingo, 8 de maio de 2011
DE MENINOS E DE 'LOBAS' - Iniciação de um garoto e recordações feministas
Eu sei que hoje começam as finais do Campeonato Baiano e o que se espera de um blog sério sobre futebol é que este seja o assunto. Mas já que tem blog sério demais falando sobre o assunto e ele literalmente não me inclui, vou falar das delícias de ser Bahia, mesmo sem título estadual há dez anos. Com essa dor a gente convive e um dia ela passa. Pior era estar na Série B.
Patrícia Pires Pacheco, a nossa adorada PPP, é amiga de longas datas. Ainda não é loba, mas eu precisava de um título, né... E como hoje é dia das mães, publico aqui seu depoimento emocionado, sobre suas recordações feministíscas sobre o futebol e sobre a iniciação de seu filho macho Bahêa no ritual do futebol. De quebra, umas palavrinhas saudosistas do papai de Jerônimo, mais uma baêazinho retado.
*******************************************************************************
Eu não gosto de futebol.
Mas já foi pior... até pouco tempo atrás eu odiava futebol.
Na infância acho que meu desgosto era um tipo de solidariedade à minha mãe que até hoje acha o futebol uma grande besteira. E assim, mesmo durante as tais copas do mundo eu e ela não estávamos nem aí. Além disso, eu sempre associei o esporte à violência, rivalidade, competição, conflito, palavrões e essas coisas não levam ninguém pro céu... Por que eu fazia essas associações? Talvez pelos tipos de cenas que eu observava na TV, ou quem sabe pelas vezes em que meu pai voltava (e ainda volta) machucado do babas domingueiros.
http://www.orkut.com.br/Community?cmm=90115380
Pra fechar minha birra, tem também aquela coisa que futebol “não é coisa de menina”, né... e já que, por isso, não me queriam lá eu também não fazia questão.
Mais crescidinha, entre a adolescência e a vida adulta eu até tentei não ser tão rígida... me vestia de verde-amarelo na copa, me deixava contaminar pela alegria do povo, tentava entender as regras e coisa e tal mas... nada.
Acho que meu “ódeo” começou a perder força quando passei a acompanhar o programa ROCKGOL na MTV
Gente, eu me divertia muito com aqueles comentaristas esdrúxulos, cômicos e inteligentes. Adorava!
Daí, acho que comecei a relaxar, continuava sem gostar de futebol, mas ele não mais me irritava tanto. Junto com isso acredito que meus estudos durante a graduação em antropologia me fizeram ver aqueles aspectos culturais do esporte, os significados para o ser brasileiro e tal e coisa e coisa e tal. Sem contar que comecei a perder o medo de não ir pro céu e admitir que afinal “violência, rivalidade, competição, conflito, sangue, suor e lágrimas” é também coisa de deuses.
Infelizmente Diana não estava lá nesse dia, bem, nem ela nem quase ninguém já que escolhemos um jogo “morninho” só para gatos-pingados. Mesmo assim, cheguei tensa imaginando mil-maluquices-de-uma-mãe-neurótica que poderiam acontecer naquele espaço enoooorme, imponente, palco de espetáculos sangrentos... ops, isso eram nos coliseus rsrsrs
Aí então, já quase no final do primeiro tempo começou a chover. E foi aquele corre-corre danado, muda de lugar, se esconde nas barracas, mas não teve jeito, ficamos encharcados.
Mas tudo bem, não pode ter “batizado” sem água, né?
Começamos a assistir o segundo tempo mas o nosso pequeno iniciado - que já tinha visto tudo que tinha que ver, comido tudo que tinha que comer - já estava exausto e impaciente para ir embora. Para convencê-lo a esperar mais um pouco enquanto o pai debruçava seu olhar de esperança sob o campo, improvisei uma bola com uma garrafa de água mineral vazia e, acreditem, mãe e filho se divertiram muito trocando alguns passes. Por fim, para garantir a tranqüilidade de todo o rito, saímos pouco antes do fim do evento.
E foi assim Diana, a estréia de Jerônimo no estádio, espero que você e seus leitores gostem!
P.S.: Dedico esse texto ao meu pai, torcedor do Santos e que até hoje joga seu baba domingueiro.
P.S.2: Gente era só pra falar da estréia do meu filho e eu acabei fazendo um “Essa é a minha vida” falando de futebol... tá vendo só o poder do dito-cujo!
DEPOIMENTO DE HERON, O PAI
Bi,
Minhas memórias daquele dia são muito agradáveis. Foi a segunda vez que fomos juntos a um jogo do Bahêa, e desta vez com Jerônimo. Foi um dia onde tudo deu certo, desde o local do estacionamento, travessia da av.Paralela, compra de ingressos, lanches e bombons! O estádio estava calmo. Repeti com a nossa cria o ritual da apresentação ao futebol que recebi de meu pai. Assim como eu, ele fez um reconhecimento do espaço físico do estádio, da atitude e postura das pessoas, da energia da torcida, da sensação de ver o jogo ao vivo, de interpretar o placar eletrônico, etc. Viu Paulo Sergio com Dandan, também todo vestido de Bahêa. Adorou chamar os ambulantes mercando bombons, pipoca, água, sorvete, etc. Reagiu quando os próprios torcedores do Bahêa chingaram o time. Viu a carga viva de um gol do Bahêa, que ganhou o jogo!!
A chuva, que causou aquele reboliço inicial, acabou me levando ao prazer de reencontrar Davi, um antigo, e querido , colega de trabalho de meu pai, o qual tive o prazer de conviver quando fiz estágio na Petrobrás (em 1988), por 6 meses, no próprio ambiente de trabalho deles. Quando eu ainda era bebê, e tive uma virose, esse mesmo colega deu grande auxílio a meu pai nos levando a um hospital, numa época que meus pais ainda não possuíam automóvel. Foi profundamente emocionante reconhecê-lo ali na lanchonete do estádio, depois de ser (novamente) amparado por ele, para quem eu havia me prostrado de costas, e que só pude reconhecer quando me virei para agradecer o pequeno recuo que aquele cidadão havia dedicado a nós três, ali ao amparo da chuva. Coletei o número do celular dele e entreguei a meu pai, que emocionou-se juntamente com suas lembranças.
Já no final, encontrei Vavá, amigo, colega de especialização e de mestrado, que me comunicou da primeira gravidez de sua esposa, enquanto olhávamos você e Jerônimo brincando de futebol com uma garrafa de plástico.
Saímos antes do final do jogo. Uma saída tranqüila de volta pra casa. Enfim, foi um dia muito feliz mesmo!
bj,
Bê
****************************************************
É bolada, mamãe-torcedora!
Patrícia Pires Pacheco, a nossa adorada PPP, é amiga de longas datas. Ainda não é loba, mas eu precisava de um título, né... E como hoje é dia das mães, publico aqui seu depoimento emocionado, sobre suas recordações feministíscas sobre o futebol e sobre a iniciação de seu filho macho Bahêa no ritual do futebol. De quebra, umas palavrinhas saudosistas do papai de Jerônimo, mais uma baêazinho retado.
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Eu não gosto de futebol.
Mas já foi pior... até pouco tempo atrás eu odiava futebol.
Na infância acho que meu desgosto era um tipo de solidariedade à minha mãe que até hoje acha o futebol uma grande besteira. E assim, mesmo durante as tais copas do mundo eu e ela não estávamos nem aí. Além disso, eu sempre associei o esporte à violência, rivalidade, competição, conflito, palavrões e essas coisas não levam ninguém pro céu... Por que eu fazia essas associações? Talvez pelos tipos de cenas que eu observava na TV, ou quem sabe pelas vezes em que meu pai voltava (e ainda volta) machucado do babas domingueiros.
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Comunidade do baba domingueiro promovido por meu pai. |
http://www.orkut.com.br/Community?cmm=90115380
Mais crescidinha, entre a adolescência e a vida adulta eu até tentei não ser tão rígida... me vestia de verde-amarelo na copa, me deixava contaminar pela alegria do povo, tentava entender as regras e coisa e tal mas... nada.
Acho que meu “ódeo” começou a perder força quando passei a acompanhar o programa ROCKGOL na MTV
Gente, eu me divertia muito com aqueles comentaristas esdrúxulos, cômicos e inteligentes. Adorava!
Daí, acho que comecei a relaxar, continuava sem gostar de futebol, mas ele não mais me irritava tanto. Junto com isso acredito que meus estudos durante a graduação em antropologia me fizeram ver aqueles aspectos culturais do esporte, os significados para o ser brasileiro e tal e coisa e coisa e tal. Sem contar que comecei a perder o medo de não ir pro céu e admitir que afinal “violência, rivalidade, competição, conflito, sangue, suor e lágrimas” é também coisa de deuses.
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Fase 1 - Primeiro uniforme completo aos 3 anos. |
Posso dizer que hoje o único engasgo que ainda permanece em mim, mesmo nesse âmbito da compreensão acadêmica do futebol como fenômeno sócio-cultural (uau!), é essa coisa do dito-cujo ser uma representação do universo machista. E sendo assim, penso que pior do que nós mulheres estarmos de fora dele é estarmos dentro mas em cantos determinados pra nós: ora como enfeites nas arquibancadas, ora no papel das chamadas “maria-chuteira”.
Mas, ranços feministas a parte, tem uma coisa que atualmente é responsável por essa minha (quase) simpatia por esse complexo cultural chamado futebol: a paixão da minha amiga querida Adriana Amorim. É lindo ver ela torcendo, se envolvendo , comentando, participando, analisando... E é tão interessante essa relação entre teatro e futebol e as dinâmicas entre espetáculo e espectador. Hoje, Diana é uma referência futebolística pra mim (rsrs), tanto que só lembrei dela quando eu e Heron fomos levar nosso filho de 5 anos para o seu ritual de iniciação no universo futebolístico – fase 2 - ir ao estádio (a fase 1 é vestir o uniforme completo e expor a criança para que todos saiba pra que time afinal ela torce, e a fase 3 é ir ao estádio em dia de clássico – que pretendo “liberar” daqui uns 10 anos...)
Infelizmente Diana não estava lá nesse dia, bem, nem ela nem quase ninguém já que escolhemos um jogo “morninho” só para gatos-pingados. Mesmo assim, cheguei tensa imaginando mil-maluquices-de-uma-mãe-neurótica que poderiam acontecer naquele espaço enoooorme, imponente, palco de espetáculos sangrentos... ops, isso eram nos coliseus rsrsrs
Chegamos cedo(bem cedo, na verdade), e achei lindo aquela bandeirona estendida do lado de fora.
Entramos e aprendi que antes de cada jogo tem um outro jogo(ninguém merece! rsrs) dos mesmos times só com jogadores aprendizes, não profissionais, de base ou coisa parecida.
E enquanto a bola oficial não rolava o pai aproveitou para levar o filho pra dar uma voltinha no estádio.
A partida de verdade rolou finalmente, era Bahia x Serrano. O pai se encarrega de explicar algumas coisas específicas do jogo e eu mostro pra ele um pouco dos bastidores como a repórter que vemos na TV, etc. Lá pelas tantas uma jogada infame do Bahia é seguida pelos esbravejos de alguns torcedores esbravejam e meu filho diz gritando: “Ô, não fala assim com o Bahia!” Todos riram do que ele ainda não aprendeu.
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O jogo antes do jogo ou “se não guenta, pra que vêio!!”. |
Aí então, já quase no final do primeiro tempo começou a chover. E foi aquele corre-corre danado, muda de lugar, se esconde nas barracas, mas não teve jeito, ficamos encharcados.
Mas tudo bem, não pode ter “batizado” sem água, né?
Começamos a assistir o segundo tempo mas o nosso pequeno iniciado - que já tinha visto tudo que tinha que ver, comido tudo que tinha que comer - já estava exausto e impaciente para ir embora. Para convencê-lo a esperar mais um pouco enquanto o pai debruçava seu olhar de esperança sob o campo, improvisei uma bola com uma garrafa de água mineral vazia e, acreditem, mãe e filho se divertiram muito trocando alguns passes. Por fim, para garantir a tranqüilidade de todo o rito, saímos pouco antes do fim do evento.
E foi assim Diana, a estréia de Jerônimo no estádio, espero que você e seus leitores gostem!
P.S.: Dedico esse texto ao meu pai, torcedor do Santos e que até hoje joga seu baba domingueiro.
P.S.2: Gente era só pra falar da estréia do meu filho e eu acabei fazendo um “Essa é a minha vida” falando de futebol... tá vendo só o poder do dito-cujo!
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| Não basta ser mãe, tem que vestir a camisa. |
DEPOIMENTO DE HERON, O PAI
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Filho mascarado e pai orgulhoso. |
Bi,
Minhas memórias daquele dia são muito agradáveis. Foi a segunda vez que fomos juntos a um jogo do Bahêa, e desta vez com Jerônimo. Foi um dia onde tudo deu certo, desde o local do estacionamento, travessia da av.Paralela, compra de ingressos, lanches e bombons! O estádio estava calmo. Repeti com a nossa cria o ritual da apresentação ao futebol que recebi de meu pai. Assim como eu, ele fez um reconhecimento do espaço físico do estádio, da atitude e postura das pessoas, da energia da torcida, da sensação de ver o jogo ao vivo, de interpretar o placar eletrônico, etc. Viu Paulo Sergio com Dandan, também todo vestido de Bahêa. Adorou chamar os ambulantes mercando bombons, pipoca, água, sorvete, etc. Reagiu quando os próprios torcedores do Bahêa chingaram o time. Viu a carga viva de um gol do Bahêa, que ganhou o jogo!!
A chuva, que causou aquele reboliço inicial, acabou me levando ao prazer de reencontrar Davi, um antigo, e querido , colega de trabalho de meu pai, o qual tive o prazer de conviver quando fiz estágio na Petrobrás (em 1988), por 6 meses, no próprio ambiente de trabalho deles. Quando eu ainda era bebê, e tive uma virose, esse mesmo colega deu grande auxílio a meu pai nos levando a um hospital, numa época que meus pais ainda não possuíam automóvel. Foi profundamente emocionante reconhecê-lo ali na lanchonete do estádio, depois de ser (novamente) amparado por ele, para quem eu havia me prostrado de costas, e que só pude reconhecer quando me virei para agradecer o pequeno recuo que aquele cidadão havia dedicado a nós três, ali ao amparo da chuva. Coletei o número do celular dele e entreguei a meu pai, que emocionou-se juntamente com suas lembranças.
Já no final, encontrei Vavá, amigo, colega de especialização e de mestrado, que me comunicou da primeira gravidez de sua esposa, enquanto olhávamos você e Jerônimo brincando de futebol com uma garrafa de plástico.
Saímos antes do final do jogo. Uma saída tranqüila de volta pra casa. Enfim, foi um dia muito feliz mesmo!
bj,
Bê
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É bolada, mamãe-torcedora!
sexta-feira, 29 de abril de 2011
JOGÃO DO FLU NA LIBERTADORES - pelo menos pra mim, que tô acostumada com os babas do Baianão
Gente, eu decidi parar de esperar um grande assunto ou um toque genial para postar no blog. Leiam meu desabafo em: http://www.artedoespectador.blogspot.com/. Até porque, tem um monte de gente escrevendo coisas muito legais sobre futebol por aí, e eu não vou ficar me esforçando para competir. Sobretudo no que se refere ao Bahia. O que mais se pode dizer do Bahia, meu Deus? Dessa direção tosca e desse abandono? Tá difícil, viu.
Mas, ontem, desavisadamente, eu ia dormir com aquele olho preguiçoso na TV e eis que me deparo com o jogo da Libertadores FLUMINENSE X LIBERDAD do Paraguai. Eu juro que queria dormir, mas o jogo - como tem sido a maioria dos jogos do Fluminense, estava quentíssimo, e depois de tanta raiva com meu Baêa, eu me lembrei ontem porque é que eu estudo futebol.
O jogo era pura emoção. Jogo dinâmico, torcida participativa, empolgada nos momentos bons, cobrando nos momentos maus. Dois times com vontade de ganhar. Jogadores bem preparados, com uma resistência física impressionante. Tá, eu posso estar exagerando, pode ter tido problemas, mas para o que eu olho como pesquisadora e como espectadora, o jogo foi perfeito.
O FLU abriu o placar e ficou administrando a pseudo-vantagem (que 1 X 0 não é vantagem)... E não é que o Liberdad empatou? E aí parecia que o FLU tava perdendo de 10 X 0. E jogando mal. Jogando mal, ele fez dois gols que pelamordedeus...
Eu queria ser o cara que fez o segundo gol. Gente, a torcida não acreditava, o cara não acreditava, o técnico não acreditava, o rival não acreditava. E eu me deleitava com aquela cena. Que coisa linda é esse futebol assim, nessa hora. O cara ficou muito feliz, eu acho que poucas vezes eu vi um homem tão feliz. (eu parei uns dez minutinhos procurando no youtube o gol, mas não achei. Sacangem...)
Bom, não é muito mais do que isso, não, que eu tinha para (não) dizer. É que fiquei pensando nesse jogo o dia todo. Foi revigorante para mim.
Eu li um texto muito bom no Correio anteontem (ou foi ontem?) sobre a falta de talentos no futebol e outro hoje sobre o mercado do futebol que me fazem pensar sobre os rumos do futebol meio como o teatro burguês que se perdeu do povo. Mas, calma que isso é assunto para post sério.
Voltem com frequência, que eu prometo que vou escrever toda semana. É chato ir ao um blog e ver que é o mesmo post ainda, né...
É bolada, leitor companheiro.
PS. Jequié tem time, mas está na segunda divisão do Baianão. Domingo teve jogo, mas eu não fui, Preciso me inteirar com o futebol de lá. Tem um estádio legalzinho. Vou torcer para o ADJ - Associação Despotiva de Jequié (eu acho). Sim, por falar nisso, o Serrano na Copa do Brasil no ano que vem. Que delícia. Eu vi o Serrano jogar contra o Flamento na década de 80 (quando os clubes jogavam fora dos campeonatos para se exibir mesmo, como espetáculo, hoje não tem mais isso - outro post sério!!!). Vitória da Conquista tem dois times na Série A do baianão e o VItória da Conquista (na verdade o Primeiros Passos) está na Série D do brasileirão, isso é muito legal. Ah, gente, é sim, vai, para de rir...
Fui.
Mas, ontem, desavisadamente, eu ia dormir com aquele olho preguiçoso na TV e eis que me deparo com o jogo da Libertadores FLUMINENSE X LIBERDAD do Paraguai. Eu juro que queria dormir, mas o jogo - como tem sido a maioria dos jogos do Fluminense, estava quentíssimo, e depois de tanta raiva com meu Baêa, eu me lembrei ontem porque é que eu estudo futebol.
O jogo era pura emoção. Jogo dinâmico, torcida participativa, empolgada nos momentos bons, cobrando nos momentos maus. Dois times com vontade de ganhar. Jogadores bem preparados, com uma resistência física impressionante. Tá, eu posso estar exagerando, pode ter tido problemas, mas para o que eu olho como pesquisadora e como espectadora, o jogo foi perfeito.
O FLU abriu o placar e ficou administrando a pseudo-vantagem (que 1 X 0 não é vantagem)... E não é que o Liberdad empatou? E aí parecia que o FLU tava perdendo de 10 X 0. E jogando mal. Jogando mal, ele fez dois gols que pelamordedeus...
Eu queria ser o cara que fez o segundo gol. Gente, a torcida não acreditava, o cara não acreditava, o técnico não acreditava, o rival não acreditava. E eu me deleitava com aquela cena. Que coisa linda é esse futebol assim, nessa hora. O cara ficou muito feliz, eu acho que poucas vezes eu vi um homem tão feliz. (eu parei uns dez minutinhos procurando no youtube o gol, mas não achei. Sacangem...)
Bom, não é muito mais do que isso, não, que eu tinha para (não) dizer. É que fiquei pensando nesse jogo o dia todo. Foi revigorante para mim.
Eu li um texto muito bom no Correio anteontem (ou foi ontem?) sobre a falta de talentos no futebol e outro hoje sobre o mercado do futebol que me fazem pensar sobre os rumos do futebol meio como o teatro burguês que se perdeu do povo. Mas, calma que isso é assunto para post sério.
Voltem com frequência, que eu prometo que vou escrever toda semana. É chato ir ao um blog e ver que é o mesmo post ainda, né...
É bolada, leitor companheiro.
PS. Jequié tem time, mas está na segunda divisão do Baianão. Domingo teve jogo, mas eu não fui, Preciso me inteirar com o futebol de lá. Tem um estádio legalzinho. Vou torcer para o ADJ - Associação Despotiva de Jequié (eu acho). Sim, por falar nisso, o Serrano na Copa do Brasil no ano que vem. Que delícia. Eu vi o Serrano jogar contra o Flamento na década de 80 (quando os clubes jogavam fora dos campeonatos para se exibir mesmo, como espetáculo, hoje não tem mais isso - outro post sério!!!). Vitória da Conquista tem dois times na Série A do baianão e o VItória da Conquista (na verdade o Primeiros Passos) está na Série D do brasileirão, isso é muito legal. Ah, gente, é sim, vai, para de rir...
Fui.
quarta-feira, 30 de março de 2011
O FEMININO NO UNIVERSO DO FUTEBOL
Não.
Não vou tratar de questões de gênero numa perspectiva antropológica sobre a presença, ou a relação das mulheres com o futebol. Existe uma abordagem muito interessante proposta por um amigo e colega de doutorado. Ele sugere um olhar (mais simbólico do que antropológico) para o que ele considera ser típico do futebol e do teatro. Rodrigo Dourado, ele próprio estudioso de questões de gênero, considera que o futebol é masculino e o teatro feminino. Por sua própria configuração, pela energia investida em cada um, pela forma como nos relacionamos com cada um deles. Curioso, né? Mas, não é ainda sobre isso que eu vou escrever, até porque ainda não estudei nem bati cabela sobre o assunto, apesar de concordar e achar muito instigante sua proposta.
Vou falar, muito cotidianamente do que tenho visto em termos de participação feminina no universo, sobretudo televisivo, das transmissões e comentários de futebol.
Eu própria nunca fui, até começar a pesquisar, uma grande apaixonada pelo futebo. Torcia para o Corinthians porque morava em Sampa e meu pai fiel torcedor, levou a família junto. Já minha irmã mais velha, ah, essa sempre foi um moleque para o lado de futebol. De bater embaixadinha e tudo mais. De deixar muito barbado em mesa de bar caladinho - sobretudo os sãopaulinos e palmeirenses - quando começava a discorrer sobre o tema. Eu sempre achei muito bonito o jeito como ela sempre foi apaixonada pelo futebol e quem sabe Freud não vai achar lá na nossa relação as causas de eu estudar futebol.
Ela sempre dizia que queria ser apresentadora de programa de futebol, ou comentarista e na época em que ela profetizava o que então parecia absurdo, o território era mesmo dos histriônicos barrigudos.
Mas, muita coisa mudou. Minha irmã dedicou-se mesmo à educação (de seus filhos e dos outros) e hoje é professora - como eu. E as TV's estão repletas de mulheres falando sobre futebol.
Até porque, esteve no nosso imaginário até bem pouco tempo, que mulher que gosta de futebol - e entende - é um tipo masculinizado. Era justamente isso que eu achava surreal em minha irmã. Ela é linda e delicada e falava de futebol como um verdadeiro especialista de buteco (que são os melhores, diga-se de passagem!)
Aí eu fico prestando atenção aos comentários das moças e algumas vezes parece ter uma coisa meio estudada, meio decorada, aquele comentário que é pura retórica (não que os comentários masculinos sejam lá muito diferentes disso), mas parece, em alguns casos, que há um desconforto com o assunto e que a presença de um rosto - e corpo - feminino se impõe mais do que a experiência mesmo da colega no assunto. Note que reforçando minha hipótese do fetiche, ainda não temos uma participação significativa de mulheres nas transmissões de rádio, porque porque neste veículo, o que importa é de fato o que têm a dizer, e não a sua imagem, como na TV.
Deixando um pouco de lado as transmissões, quero dizer que tem uma mulher que manda bem em termos de futebol, que é Clara Albuquerque, colunista do Correio da Bahia. Gosto muito do seu blog Oras Bolas http://www.correio24horas.com.br/blogs/ora-bolas/. Lá, ela faz uma inteligentíssima brincadeira com a coisa do gênero, elegendo, depois dos comentários, os fatos que são o pretinho-básico ou o esporte-fino da semana, tirando sarro, ela mesma, do fato de ser uma comentarista mulher, trazendo para o futebol uma aproximação com o 'aparentemente feminino' mundo da moda.
Bom, de salto alto ou sapatilha, estamos nós mulheres invadindo este espaço quer seja com a conivência deles por nosso corpão, quer seja por nossos comentários inovadores e olhar inusitado, não importa. Por onde quer que entremos, estamos lá e acho este um fato importante do futebol recente e das conquistas femininas.
A tempo: minha irmã continua fanática por futebol, fiel ao timão (fez seus filhos renegarem o São Paulo do pai e se tornarem corintianos roxos) é uma linda e sedutora professora que vez ou outra incrementa suas aulas de História falando de futebol. Os alunos adoram!!!
É bolada, mulherada!!!
Não vou tratar de questões de gênero numa perspectiva antropológica sobre a presença, ou a relação das mulheres com o futebol. Existe uma abordagem muito interessante proposta por um amigo e colega de doutorado. Ele sugere um olhar (mais simbólico do que antropológico) para o que ele considera ser típico do futebol e do teatro. Rodrigo Dourado, ele próprio estudioso de questões de gênero, considera que o futebol é masculino e o teatro feminino. Por sua própria configuração, pela energia investida em cada um, pela forma como nos relacionamos com cada um deles. Curioso, né? Mas, não é ainda sobre isso que eu vou escrever, até porque ainda não estudei nem bati cabela sobre o assunto, apesar de concordar e achar muito instigante sua proposta.
Vou falar, muito cotidianamente do que tenho visto em termos de participação feminina no universo, sobretudo televisivo, das transmissões e comentários de futebol.
Mas, muita coisa mudou. Minha irmã dedicou-se mesmo à educação (de seus filhos e dos outros) e hoje é professora - como eu. E as TV's estão repletas de mulheres falando sobre futebol.
Eu acho que, tem uma importante conquista de espaço aí, sem dúvida, mas sinto que tem um fetichismo também. Já repararam que as mulheres que comentam ou apresentam programas de futebol são lindas e imensas loiras, com um toque de garota de propaganda de cerveja?
Pode ser que eu esteja com uma puta dor de cotovelo por não estar dando meu carão nos programas (nem ser gostosona como elas), mas não podemos negar que tem uma coisa meio fantasiosa nestes programas 'masculinos'. Mulherão falando de futebol é o sonho de qualquer marmanjo, né, não?Aí eu fico prestando atenção aos comentários das moças e algumas vezes parece ter uma coisa meio estudada, meio decorada, aquele comentário que é pura retórica (não que os comentários masculinos sejam lá muito diferentes disso), mas parece, em alguns casos, que há um desconforto com o assunto e que a presença de um rosto - e corpo - feminino se impõe mais do que a experiência mesmo da colega no assunto. Note que reforçando minha hipótese do fetiche, ainda não temos uma participação significativa de mulheres nas transmissões de rádio, porque porque neste veículo, o que importa é de fato o que têm a dizer, e não a sua imagem, como na TV.
Deixando um pouco de lado as transmissões, quero dizer que tem uma mulher que manda bem em termos de futebol, que é Clara Albuquerque, colunista do Correio da Bahia. Gosto muito do seu blog Oras Bolas http://www.correio24horas.com.br/blogs/ora-bolas/. Lá, ela faz uma inteligentíssima brincadeira com a coisa do gênero, elegendo, depois dos comentários, os fatos que são o pretinho-básico ou o esporte-fino da semana, tirando sarro, ela mesma, do fato de ser uma comentarista mulher, trazendo para o futebol uma aproximação com o 'aparentemente feminino' mundo da moda.Suas participações nas transmissões da TV Bahia ainda são tímidas. Ela é bonita, mas não tem aquela cara de modelo de calendário de oficina. Acho que ela pode entrar mais pesado nos comentários. Entendo o suposto desconforto, porque no blog ela comenta mais sobre o universo do futebol, as principais notícias da semana e faz reflexões sobre isso. Na transmissão, ela tem que comentar o jogo, o desempenho técnico dos participantes, os resultados das tabelas e talvez isso lhe interesse menos. Mas, gosto de ver o espaço que ela vem ocupando, apesar de sentir lá no fundinho de minha torpe humanidade um tiquinho de inveja.
Bom, de salto alto ou sapatilha, estamos nós mulheres invadindo este espaço quer seja com a conivência deles por nosso corpão, quer seja por nossos comentários inovadores e olhar inusitado, não importa. Por onde quer que entremos, estamos lá e acho este um fato importante do futebol recente e das conquistas femininas.
A tempo: minha irmã continua fanática por futebol, fiel ao timão (fez seus filhos renegarem o São Paulo do pai e se tornarem corintianos roxos) é uma linda e sedutora professora que vez ou outra incrementa suas aulas de História falando de futebol. Os alunos adoram!!!
É bolada, mulherada!!!
sábado, 12 de março de 2011
MEU TIME É A MINHA PÁTRIA - Texto da Nova edição da Beleza Bahia
Gentes.
Saiu a nova edição da Revista Beleza Bahia, para a qual eu tenho o prazer de escrever duas colunas. Uma se chama Belezas Inusitadas, cujo texto está agora disponível em http://www.artedoespectador.blogspot.com/.
O texto abaixo é da coluna de futebol. Quem se interessar em conhecer a revista, pode acessar o link: http://www.belezabahia.com.br/site_antigo/web/revista/index.html. Ainda não tem a edição nova (com Cláudia Leite na capa) mas em breve, com certeza estará. Você pode conferir as outras edições. Chega de blablabla. Vamos ao texto:
MEU TIME É A MINHA PÁTRIA.
Quando, numa discussão sobre futebol, alguém diz que não entende como um torcedor do Vitória pode não torcer pelo Bahia em campeonatos nacionais, em situações em que o time enfrenta times do Sul e Sudeste e vice-versa, a gente percebe logo que essa pessoa não é um torcedor fanático e, portanto, não consegue identificar – nem na prática, nem na teoria – o verdadeiro sentido de fazer parte da torcida por um time de futebol.
O discurso de defesa da territorialidade a partir do ponto de vista geográfico, levando em consideração nossa organização político-espacial (a divisão do país em regiões e estados), deixa de considerar, logo de cara, outra possibilidade de organização social e cultural. Uma forma de organização escolhida pelo próprio sujeito, que se organiza sobre outras lógicas, outros pontos de vista, outros parâmetros e que diz respeito, portanto, a outras dimensões da vida particular e coletiva.
Nascido em determinada região ou estado, a pessoa – mesmo que venha a morar em outras cidades – terá sempre esta identificação com o lugar natal. Esta informação está lá, impressa em seu documento de identidade. O que é muito bom, porque revela informações importantes de sua genealogia, de sua cultura, de seus ancestrais e suas histórias. Mas, esta forma de nos identificarmos, é externa e, mais que isso, anterior à pessoa. Ela não envolve, em nenhuma medida, o seu poder de decisão. Seu documento de identidade identifica apenas uma parte dela. E acreditar nesta identificação como sendo a única possível ou mesmo a mais importante é uma postura arriscada, que reflete o pensamento de uma corrente que vê apenas uma parte da história.
Claro que eu tenho cá minhas questões com as diferenças de oportunidades entre as regiões do Norte-Nordeste e Sul-Sudeste. Sou atriz e sei o quanto o eixo Rio – São Paulo não só monopoliza boa parte das oportunidades, como impõe seus padrões para o restante do país como sendo o padrão de qualidade. Isso no mundo acadêmico, editorial, de moda, enfim, nas mais diversas dimensões. E sei que isso acontece também no futebol, Leia a revista Placar e veja que ela trata quase exclusivamente dos times destes dois estados, com exceções, talvez, para os times mineiros e gaúchos. Ela pode se defender com o argumento de que são os times com melhores campanhas na primeira divisão do campeonato brasileiro, mas a gente sabe que uma coisa leva a outra e que a atenção de fato é maior para os maiores times, das maiores cidades, dessas que não são as maiores (em termos de expansão territorial), mas sem dúvida funcionam como ‘as mais importantes’ regiões do nosso país. Importantes do ponto de vista da produtividade e do capital que geram. Ora, o mundo é muito mais do que isso. Ainda bem.
É nesta hora que eu pergunto: não seria o comportamento do torcedor doente, fanático, justamente a maior resistência contra este modelo que nos impõe uma identidade arbitrariamente, sem que ao menos sejamos consultados? Torcer contra o Vitória e pelo Palmeiras, contra o Bahia e pelo Coritiba, mesmo você sendo baiano, não seria justamente dizer que o critério político-geográfico, nestas circunstâncias, não quer dizer absolutamente nada e nem sequer serve como ponto de referência? O entrega-entrega da final do campeonato brasileiro foi um grande exemplo da força da identificação com o time em contraste com a identificação do estado. Palmeirenses e são paulinos gritavam nas arquibancadas: Entrega! Entrega! Lamentavam o gol do próprio time, comemorando o gol do adversário. Esquizofrenia? Não. Apenas a força de combater o inimigo como uma das formas mais eficazes de afirmar a mim mesmo.
Quando desconsideramos estas questões, por mais que os politizados de plantão insistam em dizer que é ignorância política, pode ser justo o contrário. Pode ser o mais nobre e politizado dos comportamentos democráticos: a escolha. EU escolho os critérios de importância para MEU posicionamento. EU escolho torcer pelo MEU time. Eu escolho que a minha relação íntima e pessoal como o clube do meu coração é muito mais importante do que a relação político-geográfica que querem me fazer crer ser mais inteligente do que minha escolha emocionada e passional. Eu sou muito mais do que diz o meu Registro Geral de identidade. Eu sou muito maior do que um documento.
Não há nada mais libertador do que a torcida incondicional a um time. Somos livres porque, mais do que ser torcedores do nosso time, somos nosso próprio time. E no fundo, no fundo, torcer contra o clube inimigo, mesmo sendo ele meu conterrâneo é assumir, de outro ponto de vista, a própria naturalidade, porque nos relacionamos com o nosso estado não apenas de forma burocrática e oficial (ditada pela frieza da minha certidão de nascimento), mas a partir de seus times de futebol, instituições, muito mais humanas do que cartórios e fóruns.
A relação com os times, que o preconceito dos intelectuais talvez não permita compreender como sendo uma possibilidade relevante de existência coletiva, nos permite ultrapassar os limites da racionalidade e tocar o imponderável da existência. Meu time é a minha pátria. Meu time é a melhor parte de mim. Meu time sou eu.
Saiu a nova edição da Revista Beleza Bahia, para a qual eu tenho o prazer de escrever duas colunas. Uma se chama Belezas Inusitadas, cujo texto está agora disponível em http://www.artedoespectador.blogspot.com/.
O texto abaixo é da coluna de futebol. Quem se interessar em conhecer a revista, pode acessar o link: http://www.belezabahia.com.br/site_antigo/web/revista/index.html. Ainda não tem a edição nova (com Cláudia Leite na capa) mas em breve, com certeza estará. Você pode conferir as outras edições. Chega de blablabla. Vamos ao texto:
MEU TIME É A MINHA PÁTRIA.
Quando, numa discussão sobre futebol, alguém diz que não entende como um torcedor do Vitória pode não torcer pelo Bahia em campeonatos nacionais, em situações em que o time enfrenta times do Sul e Sudeste e vice-versa, a gente percebe logo que essa pessoa não é um torcedor fanático e, portanto, não consegue identificar – nem na prática, nem na teoria – o verdadeiro sentido de fazer parte da torcida por um time de futebol.
O discurso de defesa da territorialidade a partir do ponto de vista geográfico, levando em consideração nossa organização político-espacial (a divisão do país em regiões e estados), deixa de considerar, logo de cara, outra possibilidade de organização social e cultural. Uma forma de organização escolhida pelo próprio sujeito, que se organiza sobre outras lógicas, outros pontos de vista, outros parâmetros e que diz respeito, portanto, a outras dimensões da vida particular e coletiva.
Nascido em determinada região ou estado, a pessoa – mesmo que venha a morar em outras cidades – terá sempre esta identificação com o lugar natal. Esta informação está lá, impressa em seu documento de identidade. O que é muito bom, porque revela informações importantes de sua genealogia, de sua cultura, de seus ancestrais e suas histórias. Mas, esta forma de nos identificarmos, é externa e, mais que isso, anterior à pessoa. Ela não envolve, em nenhuma medida, o seu poder de decisão. Seu documento de identidade identifica apenas uma parte dela. E acreditar nesta identificação como sendo a única possível ou mesmo a mais importante é uma postura arriscada, que reflete o pensamento de uma corrente que vê apenas uma parte da história.
Claro que eu tenho cá minhas questões com as diferenças de oportunidades entre as regiões do Norte-Nordeste e Sul-Sudeste. Sou atriz e sei o quanto o eixo Rio – São Paulo não só monopoliza boa parte das oportunidades, como impõe seus padrões para o restante do país como sendo o padrão de qualidade. Isso no mundo acadêmico, editorial, de moda, enfim, nas mais diversas dimensões. E sei que isso acontece também no futebol, Leia a revista Placar e veja que ela trata quase exclusivamente dos times destes dois estados, com exceções, talvez, para os times mineiros e gaúchos. Ela pode se defender com o argumento de que são os times com melhores campanhas na primeira divisão do campeonato brasileiro, mas a gente sabe que uma coisa leva a outra e que a atenção de fato é maior para os maiores times, das maiores cidades, dessas que não são as maiores (em termos de expansão territorial), mas sem dúvida funcionam como ‘as mais importantes’ regiões do nosso país. Importantes do ponto de vista da produtividade e do capital que geram. Ora, o mundo é muito mais do que isso. Ainda bem.
É nesta hora que eu pergunto: não seria o comportamento do torcedor doente, fanático, justamente a maior resistência contra este modelo que nos impõe uma identidade arbitrariamente, sem que ao menos sejamos consultados? Torcer contra o Vitória e pelo Palmeiras, contra o Bahia e pelo Coritiba, mesmo você sendo baiano, não seria justamente dizer que o critério político-geográfico, nestas circunstâncias, não quer dizer absolutamente nada e nem sequer serve como ponto de referência? O entrega-entrega da final do campeonato brasileiro foi um grande exemplo da força da identificação com o time em contraste com a identificação do estado. Palmeirenses e são paulinos gritavam nas arquibancadas: Entrega! Entrega! Lamentavam o gol do próprio time, comemorando o gol do adversário. Esquizofrenia? Não. Apenas a força de combater o inimigo como uma das formas mais eficazes de afirmar a mim mesmo.
Quando desconsideramos estas questões, por mais que os politizados de plantão insistam em dizer que é ignorância política, pode ser justo o contrário. Pode ser o mais nobre e politizado dos comportamentos democráticos: a escolha. EU escolho os critérios de importância para MEU posicionamento. EU escolho torcer pelo MEU time. Eu escolho que a minha relação íntima e pessoal como o clube do meu coração é muito mais importante do que a relação político-geográfica que querem me fazer crer ser mais inteligente do que minha escolha emocionada e passional. Eu sou muito mais do que diz o meu Registro Geral de identidade. Eu sou muito maior do que um documento.
Não há nada mais libertador do que a torcida incondicional a um time. Somos livres porque, mais do que ser torcedores do nosso time, somos nosso próprio time. E no fundo, no fundo, torcer contra o clube inimigo, mesmo sendo ele meu conterrâneo é assumir, de outro ponto de vista, a própria naturalidade, porque nos relacionamos com o nosso estado não apenas de forma burocrática e oficial (ditada pela frieza da minha certidão de nascimento), mas a partir de seus times de futebol, instituições, muito mais humanas do que cartórios e fóruns.
A relação com os times, que o preconceito dos intelectuais talvez não permita compreender como sendo uma possibilidade relevante de existência coletiva, nos permite ultrapassar os limites da racionalidade e tocar o imponderável da existência. Meu time é a minha pátria. Meu time é a melhor parte de mim. Meu time sou eu.
quarta-feira, 2 de março de 2011
CARNAVAL - A ALMA GÊMEA DO FUTEBOL
Ouvi certa vez na rua: Na Bahia só existem três religiões: O candomblé, o Baêa e O Chiclete com Banana. Achei genial.
Estamos à beira do carnaval, esse irmão gêmeo do futebol. Diversos sociólogos e antropólogos concordam que existe uma parecência enorme entre estes dois eventos que envolvem paixão, corpo, alegria e uma certa atitude non-sense no ser humano.
Mas, quem mais sabe disso é o torcedor-folião. É, aquele maluco da Bamor ou da Imbatíveis que sai nAs Muquiranas, que pula de quinta a quarta (veja que a lógica da semana é subvertida no carnaval baiano). É o povo que passa por seus apertos diários, que exibe sua falta de educação e cidadania (fruto da educação que lhe é de direito mas lhe foi sequestrada). É ess
a gente que gosta mesmo é de ser feliz, nem que seja de propósito, esquecendo DELIBERADAMENTE das agruras do dia-a-dia - suas próprias e a de seus iguais.
Mas, quem mais sabe disso é o torcedor-folião. É, aquele maluco da Bamor ou da Imbatíveis que sai nAs Muquiranas, que pula de quinta a quarta (veja que a lógica da semana é subvertida no carnaval baiano). É o povo que passa por seus apertos diários, que exibe sua falta de educação e cidadania (fruto da educação que lhe é de direito mas lhe foi sequestrada). É ess
a gente que gosta mesmo é de ser feliz, nem que seja de propósito, esquecendo DELIBERADAMENTE das agruras do dia-a-dia - suas próprias e a de seus iguais.
Hoje vi um clip de danças de rua nestes canais de clips e vi que somos muito originais e que é muito preciosa a forma como dançamos. Já sou franca admiradora do arrocha, que gostaria muito de saber dançar, sobretudo com parceiro, mas cada vez mais me encanta como somos dançarinos natos.
Voltando ao nosso carnaval, a cidade fica uma loucura. Eu acho muito bom essa coisa de se transformar uma cidade por conta de uma festa. Acho isso simplesmente revolucionário. Os europeus enlouquecem com essa possibilidade e por coisas assim o francês Michel Maffesoli acha que somos exemplo para o mundo pós-moderno. Tudo bem que quem mora aqui sofre demais com essas transformações. A Barra fica impossível. Mas isso não é culpa da festa. É culpa da falta de educação e cidadania. Se é pra montar camarote na calçada, custava colocar corredores na pista para a gente passar? Pedestre realmente não tem vez em Salvador, mas isso já é outra conversa.
Li uma entrevista de Jacques Wagner onde ele diz que não tem medo da Copa do Mundo. Quem faz o maior carnaval do mundo, um carnaval que dura uma semana e que recebe números asssombrosos (que no momento eu não sei quais são) no carnaval, lotando ruas e avenidas, não vai se assustar com uns gatos pingados que virão ver a Copa (obviamente que estas palavras toscas são minhas e não dele.) Acho lindo termos uma indústria do prazer, da música, do entretenimento, da felicidade. Só acho uma pena que poucos lucrem de fato com essa indústria e que muitos paguem a conta.
Mas, volto a repetir, a culpa aqui, não é da festa.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
JAEL DEU UMA PORRADA NA FALTA DE RESPEITO
acordos, desrespeitam contratos, e jogam no lixo qualquer traço ético que poderia haver na relação.
Será que o desempenho lamentável do time do Bahia no Baianão não estaria relacionado com essa novela interminável dos pagamentos?
http://futeboldeartista.blogspot.com/2010/02/lei-pele-e-lei-pe-na-bunda.html
É bolada, deverdor!!!
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
FIM DE ANO, FIM DE FEIRA
É gente, por mais que eu tenha prometido voltar logo, com textos melhores, mais cuidados eu acabei por abandonar o meu blog querido por muito mais tempo do que esperava.
Até a semana passada o motivo era a correria, pintando e arrumando a casa, encerrando semestre de doutorado, de aulas, viajando, enfim, aquela correria.
Agora o omotivo é o oposto. Maresia total. A canseira bateu, fiquei meio lerda e passo dias sem acessar a net. Minha família está aqui e a vida real é bem mais interessante do que a tela.
Porém, mais uma vez eu mecomprometo que no comecinho do ano que vem eu volto, com novos temas, novos textos, novas questões futebolísticas, artísticas e de vida, que eu adoro falar dela, pra gente conversar.
Foram tantas coisas neste ano bom de 2010. O blog, por exemplo, é de 2010 e foi uma grande realização para mim. E a primeira divisão? Afi... E Dilma? E todos os amigos maravilhosos que fiz e que reencontrei.
Bom, isso não é um post de retrospectiva, por isso vou ali que 2011 tá na janela.
Um grande abraço a todos, boa virada de ano. Muita alfazema, sal grosso, praia e incenso porque se não fizer bem, mal num faz.
Paz e saúde pra nós. O resto, é trabalhar.
É bolada, 2011!!!
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
TORCIDA CAMPEÃ
Gente, estou em viagem por esta Bahia linda, levando um pouquinho daquilo que eu sei e aprendendo muito do tanto que eu ainda nem disconfio. São encontros lindos e momentos mágicos, onde esse nosso chão nordestino me acalenta e me conforta.
Mas, dei uma paradinha para dizer da alegria em ver a beleza e força da torcida do Tricolo de Aço ser reconhecida nacionalmente. O prêmio de torcida de ouro do Brasileirão é um reconhecimento de tanto amor e dedicação de pessoas tão comuns que escolheram um time para se orgulhar e para chorar por ele às vezes, de tristeza ou de alegria. Aproveito para saudar os irmão tricolores cariocas pelo título nacional e para pedir desculpas ao Vitória por não estar mais na série B para lhe dar as boas-vindas. Coisas de futebol.
Bom, é isso.
Grande abraço aos leitores. Nas férias juro que darei textos mais preparados.
É bolada, viajador!
Mas, dei uma paradinha para dizer da alegria em ver a beleza e força da torcida do Tricolo de Aço ser reconhecida nacionalmente. O prêmio de torcida de ouro do Brasileirão é um reconhecimento de tanto amor e dedicação de pessoas tão comuns que escolheram um time para se orgulhar e para chorar por ele às vezes, de tristeza ou de alegria. Aproveito para saudar os irmão tricolores cariocas pelo título nacional e para pedir desculpas ao Vitória por não estar mais na série B para lhe dar as boas-vindas. Coisas de futebol.
Bom, é isso.
Grande abraço aos leitores. Nas férias juro que darei textos mais preparados.
É bolada, viajador!
domingo, 28 de novembro de 2010
DELIVERY SPORT CLUB
ENTREGA!
ENTREGA!
A cantilena da final do campeonato brasileiro mostra que definitivamente a força do clube pra quem se torce é infinitamente maior do que a naturalidade deste torcedor. O que para leigos e desavisados poderia ser uma corrida para saber qual estado tem mais títulos nacionais, é na verdade uma união ao contrário. É a força da competitividade na construção da própria identidade.
Já podemos ver isso bem perto de nós. O torcedor tricolor, fanático, não quer nem saber da campanha POR UM BA X VI NA PRIMEIRA DIVISÃO. Ele quer mais é ver o elevador fazer o serviço completo e ver o Vitória amargar na segunda divisão.

Assim, torcedores cariocas e paulistas têm gritado sem a menor vergonha que seu time entregue para não ajudar o rival. São Paulo 'entregou' na semana passada para o Fluminense o que provavelmente fará também o Palmeiras hoje e também o Vasco contra o Corinthians para que as chances do Fluminense não aumentem.
Torcedores palmeirenses cantam que perder para o Fluminense não é mais do que obrigação.
Do ponto de vista do torcedor, eu entendo essa comoção, até porque participo dela. Mas, do ponto de vista da gestão do futebol, acho lamentável que um campeonato tão grande e importante acabe assim, nesse ENTREGA, ENTREGA sem fim, onde o valor da partida, momento maior da dramaturgia do futebol fica relegado ao mais baixo plano. A idéia dos pontos corridos parece poder evitar compra de árbitros, mas o que se tem visto é que essa certeza já não é tão grande. O risco de se comprar o juiz dos jogos finais só fez se expandir para outros jogos importantes. Como comentou Alam, apenas ampliou-se o mercado.
Esse erra-erra de juiz que tem uma cara danada de falcatrua não foi evitado, e ainda por cima, além de tirar a grande emoção de uma final de campeonato, relega as últimas rodadas a questões não mais esportivas ou estéticas, mas a questões éticas (lembrando que o futebol parece ter sua própria dimensão ética). O torcedor passa a torcer - e pedir - pela derrota do seu time - veja se isso não é uma distorção!
Acho que este modelo de campeonato deve ser repensado, até porque as coisas mudam muito rapidamente e se em algum momento este foi o melhor modelo, tenho certeza de que não é mais e de que isso que se esboça agora - em oposição a outros campeonatos onde o campeão era conhecido com várias rodadas de antecedência - só tende a aumentar nos anos seguintes.
O melhor modelo? Eu não sei, e acredito que ninguém sozinho o saiba. É preciso discutir, pensar e estudar um bom modelo que devolva a graça e a ética esportiva à final do maior campeonato do país do futebol.
É bolada, entregador!!!
ENTREGA!
A cantilena da final do campeonato brasileiro mostra que definitivamente a força do clube pra quem se torce é infinitamente maior do que a naturalidade deste torcedor. O que para leigos e desavisados poderia ser uma corrida para saber qual estado tem mais títulos nacionais, é na verdade uma união ao contrário. É a força da competitividade na construção da própria identidade.
Já podemos ver isso bem perto de nós. O torcedor tricolor, fanático, não quer nem saber da campanha POR UM BA X VI NA PRIMEIRA DIVISÃO. Ele quer mais é ver o elevador fazer o serviço completo e ver o Vitória amargar na segunda divisão.
Assim, torcedores cariocas e paulistas têm gritado sem a menor vergonha que seu time entregue para não ajudar o rival. São Paulo 'entregou' na semana passada para o Fluminense o que provavelmente fará também o Palmeiras hoje e também o Vasco contra o Corinthians para que as chances do Fluminense não aumentem.
Torcedores palmeirenses cantam que perder para o Fluminense não é mais do que obrigação.
Do ponto de vista do torcedor, eu entendo essa comoção, até porque participo dela. Mas, do ponto de vista da gestão do futebol, acho lamentável que um campeonato tão grande e importante acabe assim, nesse ENTREGA, ENTREGA sem fim, onde o valor da partida, momento maior da dramaturgia do futebol fica relegado ao mais baixo plano. A idéia dos pontos corridos parece poder evitar compra de árbitros, mas o que se tem visto é que essa certeza já não é tão grande. O risco de se comprar o juiz dos jogos finais só fez se expandir para outros jogos importantes. Como comentou Alam, apenas ampliou-se o mercado.
Esse erra-erra de juiz que tem uma cara danada de falcatrua não foi evitado, e ainda por cima, além de tirar a grande emoção de uma final de campeonato, relega as últimas rodadas a questões não mais esportivas ou estéticas, mas a questões éticas (lembrando que o futebol parece ter sua própria dimensão ética). O torcedor passa a torcer - e pedir - pela derrota do seu time - veja se isso não é uma distorção!
Acho que este modelo de campeonato deve ser repensado, até porque as coisas mudam muito rapidamente e se em algum momento este foi o melhor modelo, tenho certeza de que não é mais e de que isso que se esboça agora - em oposição a outros campeonatos onde o campeão era conhecido com várias rodadas de antecedência - só tende a aumentar nos anos seguintes.
O melhor modelo? Eu não sei, e acredito que ninguém sozinho o saiba. É preciso discutir, pensar e estudar um bom modelo que devolva a graça e a ética esportiva à final do maior campeonato do país do futebol.
É bolada, entregador!!!
sábado, 20 de novembro de 2010
20 de novembro e O negro no Futebol Brasileiro
Para não deixar passar em branco esta data importante, em que a rua foi tomada de trios elétricos, nossa indiscutível marca, por dois motivos distintos mas tão semelhantes: Um trio no Campo Grande conduzia a marcha e a festa da CONSCIÊNCIA NEGRA. Do outro lado da cidade, três trios animam a inacabável festa do acesso do Bahia, mesmo com a derrota de hoje.
Coinscidência? Não. Tenha certeza que não.
O texto abaixo deve ser lido e considerado em seu contexto, obviamente. Já lá se foram mais de 40 anos e a situação, o discurso, o contexto, tudo isso mudou. O que não faz do texto e do livro sobre o qual comenta, um importante documento histórico sobre essa história que se completa: a do negro e a do futebol brasileiro.
*******************************************************************************
A VEZ DO PRETO - Édison Carneiro - 1964 (Texto das Orelhas da 2ª edição do livro de Mário Filho)
Esta crônica viva, movimentada, alegre, de êxitos e insucessos, avanços e recuos, marchas e contramarchas do negro na batalha que travou por um lugar no futebol metropolitano exemplifica a extrema versatilidade com que, historicamente, o nosso irmão de pele escura vem conquisntando, em todos os terrenos, a igualdade com todos os brasileiros.
A batalha particular do negro é quase toda a história do futebol - e, afortunadamente para nós, as suas várias peripércias são narradas ppor um homem tão senhor do assunto como Mário Filho, um velho sportman que conhece de primeira mão grande parte do que relembra, restaura e revive. E podemos dizer, com ele, que ao menos no futebol, chegou 'a vez do preto', tão bem simbolizada no triunfo mundial de Pelé.
Quando o futebol começou a candidatar-se à preferência popular, faltavam ao negro dinheiro e posição social. Naqueles tempos, as regatas e as corridas de cavalos eram as diversões prediletas. Esporte era para ricos, para brancos, ou pelo menos, para pessoas de boa família. O futebol não excluiu, inicialmente, o negro, mas não lhe deu as mesmas regalias que ao branco. O negro se conformava, parecia conhecer o 'seu' lugar, e o branco podia assumir a confortável atitude de bom senhor em relação aos escravos dóceis e obedientes.
O paternalismo desse primeiro período não durou muito. O interesse do público aumentava cada dia - o futebol não dava camisa a ninguém mas dava renome e fama - o remo e o turfe passavam a segundo plano - e houve um recrudescimento do preconceito de cor. No espírito do tempo, os ominosos tempos em que o fascismo estava em ascenção no mundo, a Amea, uma liga local, e a CBD se lançaram a campanhas de 'arianização' do futebol, afastando dos times jogadores pretos e mulatos, então numerosos - conta Mário Filho - nos clubes do subúrbio Bangu, Andaraí, América, Vasco, São Cristóvão. Tão deliberada era essa atitude dos racistas do futebol que nem mesmo se importavam co o risco da derrota em partidas internacionais. A ofensiva segregacionista fez as suas baixas nas hostes de cor - feridos, estropiado, desertores. Alguns tentaram disfarças a cor - Friedenreich engomava o cabelo, houve um mulato que cobria o rosto com uma camada tão espessa de pó-de-arroz que acabou dando o famoso apelido ao Fluminense. Outros, mais seguros de si, como Robson, declaravam já terem sido pretos. Outros se envergonhavam e se deixavam subjulgar, como Manteiga, que aproveitou a primeira oportunidade para voltar à sua terra, a Bahia, ou Leônidas que, vilipendiado, se refugiou em São Paulo. Outros ainda se asilaram em times estrangeiros. Em geral, porém, o negro não se deu por vencido - e, no campo e na pelada, com paciência e obstinação desenvolveu a perícia que, logo que os tempo mudaram, em especial após algumas derrotas memoráveis em campos estrangeiros, lhe abriu de novo as portas do clube. O negro não recebia um favor - não se confiava mais na vondade e na tolerância do branco, estava seguro das suas próprias forças e possibilidades, estava preparado para competir com quem quer que fosse em igualdade de condições.
Tudo isto está contado, com as minúcias naturais a quem conheceu de perto os acontecimentos que narra, neste livro de Mário Filho, em que estão vivos, estuantes de vida, no acerto e no erro, nas suas debilidades e nas suas virtudes, Friendereich, Manteiga, Leônidas, Domingos da Guia, o técnico Gentil Cardoso, Zizinho, Jair, Jaime de Almeida, Didi, Pelé e tantos outros, negros e mulatos de ontem e de hoje que deram o que podiam à glória e ao esplendor do futebol brasileiro.
Édison Carneiro - Historiador e escritor
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É bolada, meu Nego.
Coinscidência? Não. Tenha certeza que não.
O texto abaixo deve ser lido e considerado em seu contexto, obviamente. Já lá se foram mais de 40 anos e a situação, o discurso, o contexto, tudo isso mudou. O que não faz do texto e do livro sobre o qual comenta, um importante documento histórico sobre essa história que se completa: a do negro e a do futebol brasileiro.
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A VEZ DO PRETO - Édison Carneiro - 1964 (Texto das Orelhas da 2ª edição do livro de Mário Filho)
Esta crônica viva, movimentada, alegre, de êxitos e insucessos, avanços e recuos, marchas e contramarchas do negro na batalha que travou por um lugar no futebol metropolitano exemplifica a extrema versatilidade com que, historicamente, o nosso irmão de pele escura vem conquisntando, em todos os terrenos, a igualdade com todos os brasileiros.
A batalha particular do negro é quase toda a história do futebol - e, afortunadamente para nós, as suas várias peripércias são narradas ppor um homem tão senhor do assunto como Mário Filho, um velho sportman que conhece de primeira mão grande parte do que relembra, restaura e revive. E podemos dizer, com ele, que ao menos no futebol, chegou 'a vez do preto', tão bem simbolizada no triunfo mundial de Pelé.
Quando o futebol começou a candidatar-se à preferência popular, faltavam ao negro dinheiro e posição social. Naqueles tempos, as regatas e as corridas de cavalos eram as diversões prediletas. Esporte era para ricos, para brancos, ou pelo menos, para pessoas de boa família. O futebol não excluiu, inicialmente, o negro, mas não lhe deu as mesmas regalias que ao branco. O negro se conformava, parecia conhecer o 'seu' lugar, e o branco podia assumir a confortável atitude de bom senhor em relação aos escravos dóceis e obedientes.
O paternalismo desse primeiro período não durou muito. O interesse do público aumentava cada dia - o futebol não dava camisa a ninguém mas dava renome e fama - o remo e o turfe passavam a segundo plano - e houve um recrudescimento do preconceito de cor. No espírito do tempo, os ominosos tempos em que o fascismo estava em ascenção no mundo, a Amea, uma liga local, e a CBD se lançaram a campanhas de 'arianização' do futebol, afastando dos times jogadores pretos e mulatos, então numerosos - conta Mário Filho - nos clubes do subúrbio Bangu, Andaraí, América, Vasco, São Cristóvão. Tão deliberada era essa atitude dos racistas do futebol que nem mesmo se importavam co o risco da derrota em partidas internacionais. A ofensiva segregacionista fez as suas baixas nas hostes de cor - feridos, estropiado, desertores. Alguns tentaram disfarças a cor - Friedenreich engomava o cabelo, houve um mulato que cobria o rosto com uma camada tão espessa de pó-de-arroz que acabou dando o famoso apelido ao Fluminense. Outros, mais seguros de si, como Robson, declaravam já terem sido pretos. Outros se envergonhavam e se deixavam subjulgar, como Manteiga, que aproveitou a primeira oportunidade para voltar à sua terra, a Bahia, ou Leônidas que, vilipendiado, se refugiou em São Paulo. Outros ainda se asilaram em times estrangeiros. Em geral, porém, o negro não se deu por vencido - e, no campo e na pelada, com paciência e obstinação desenvolveu a perícia que, logo que os tempo mudaram, em especial após algumas derrotas memoráveis em campos estrangeiros, lhe abriu de novo as portas do clube. O negro não recebia um favor - não se confiava mais na vondade e na tolerância do branco, estava seguro das suas próprias forças e possibilidades, estava preparado para competir com quem quer que fosse em igualdade de condições.
Tudo isto está contado, com as minúcias naturais a quem conheceu de perto os acontecimentos que narra, neste livro de Mário Filho, em que estão vivos, estuantes de vida, no acerto e no erro, nas suas debilidades e nas suas virtudes, Friendereich, Manteiga, Leônidas, Domingos da Guia, o técnico Gentil Cardoso, Zizinho, Jair, Jaime de Almeida, Didi, Pelé e tantos outros, negros e mulatos de ontem e de hoje que deram o que podiam à glória e ao esplendor do futebol brasileiro.
Édison Carneiro - Historiador e escritor
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É bolada, meu Nego.
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010
ENCONTRO COM JOSÉ MIGUEL WISNIK
Eu encontrei pessoalmente com a minha bibliografia. Rsrsrs. Digo, com meu autor querido, um pilar da minha dissertação e sem dúvida um dos responsáveis pelo meu apreço pelo futebol nos termos em que tenho hoje, mais do que tinha, sem dúvida, antes de ler seu livro, assistir em vídeo suas palestras, ou mesmo apenas ouví-lo em programas de áudio, como é o caso do Café Literário, onde ele trata do tema.
No V INTERCULTE - Encontro Interdisciplinar de Cultura, Tecnologia e Educação, promovido pelo CENTRO UNIVERSITÁRIO JORGE AMADO - UNIJORGE, a palestra de abertura foi, na verdade, uma aula show com os artistas José Miguel Wisnik e Arthur Netrovisk. Um passeio por canções do nosso repertório, pela nossa poesia, pelas obras dos próprios artistas e muitos comentários que nos elevaram a alma.
De futebol, ele não falou, infelizmente, mas tudo vivido ali foi muito bom. E depois da grande aula (apesar dos graves problemas técnicos imperdoáveis, em se tratando de palestra de músicos) a hora da tietagem: pegar autógrafo, falar da minha pesquisa, dar uma revista onde tenho artigos publicados, passar o endereço dos blogs, enfim, ficar perto dessa pessoa que eu admiro tanto para trocar um pouquinho de energia, mais do que de idéias porque a fila da babação tava era grande e simancol é uma coisa que eu tenho...
Ficam algumas fotos do evento para vocês curtirem. Para completar a alegria só faltava o Baêa ter ganho o importante jogo daquela noite, o que não aconteceu. Mas, paciência, né, torcedora... faz parte do futebol. No sábado a gente ganha em Pituaçu de novo!
É bolada, leitor-admirador-aprendedor!!!
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010
TIRIRICA E O VASCO DE 1923 - QUALQUER SEMELHANÇA, NÃO É MERA COINCIDÊNCIA, É PURA REINCIDÊNCIA
Na década de 20, no mundo do futebol o assunto era não só a presença dos negros no futebol brasileiro, mas também a qualidade do futebol jogado por eles. No começo da década, por mais que a superioridade dos jogadores negros fosse uma realidade, ainda se responsabilizava os jogadores de cor por qualquer derrota que por acaso seu clube viesse a sofrer.
Não era apenas uma questão de etnia - ou cor, ou raça, como se tratava à epoca - era também uma questão de classes. Pobres e ricos. Mas, um time quebrou algumas regras e colocou - pela qualidade de seus jogadores - o negro dentro dos campos. Acompanhem trechos do livro de Mário Filho, O Negro no Futebol Brasileiro, uma pérola da nossa bibliografia nacional, editada pela primeira vez em 1947. Com a palavra: Mário Filho:
"Na hora de assinar a súmula, via-se logo a diferença. Os acadêmicos de medicina do Flamengo, escrevendo o nome depressa, os operários do Carioca levando toda a vida para garajutar o nome. Alguns suando frio, tremendo, achando que nunca seriam capazes de assinar o nome na frente de todo mundo. E tinham assinado o nome mais de mil vezes, de sexta a domingo, cobrindo as letras. Cada clube pequeno arranjava um professor. Só para isso, para ensinar jogador de futebol a assinar o nome.
Se ele errasse na súmula estava tudo perdido. o clube perdia os pontos, a Liga era capaz de chamá-lo para um examezinho. De be-a-bá. Dando uma cartilha para ele ler. Havia jogador que não aprendia a assinar o nome de jeito nenhum. Parecia que tinha aprendido, na hora esquecia, o clube precisava arranjar outro para entrar em campo.
Pascoal Cinelli, por exemplo, passou a ser Pascoal Silva. Um nome mais simples para aprender a assinar. Para ver a importância de saber assinar o nome. Importância que se exagerou pelo culto ao estudante. Havia, naturalmente, uma razão para esse culto. O Flamengo levantou dois campeonatos seguidos, o de 1914 e o de 1915, com um time quase de acadêmicos de medicina. Outros grandes clubes, o Fluminense, o América, o Botafogo, tinham estudantes, mas não assim nessa proporção esmagadora. Nove acadêmicos de medicina e um de direito no time. Quanto mais estudantes, melhor. O que parecia provar que só estudante é que tinha que jogar."
"Um clube da segunda divisão, porém, subiu para a primeira divisão. Chamava-se Clube de Regatas Vasco da Gama, e trouxe com ele, mulatos e pretos. (...) Ninguém ligou importância à ida do Vasco para a primeira divisão. Que é que podia fazer um clube de segunda divisão contra um América,c ampeão do Centenário, contra um Flamengo, bicampeão, contra um Fluminense, tricampeão?
O Vasco que botasse quantos mulatos, quantos pretos quisesse no time. Tudo continuaria como dantes, os brancos levantando os campeonatos, os mulatos e os pretos nos seus lugares, nos clubes pequenos.
Mas, quanto mais o Vasco vencia, mais os campos enchiam. Até o estádio do Fluminense ficou pequeno. Gente que nunca tinha assistido a uma partida de futebol deu para comprar a sua arquibancada. Tudo português, o português se julgando obrigado a ir para onde o Vasco ia.
Tornou-se quase uma questão nacional derrotar o Vasco. Os pobres das peladas e dos clubes pequenos brancos, mulatos e pretos dando nos times dos grandes clubes, só de brancos, de gente fina, de sociedade. Muitos sem saber ler nem escrever, mal assinando o nome, sem emprego, sem nada. O time da mistura estava na frente do campeonato, sem uma derrota. tinha de perder, pelo menos uma vez, de qulalquer maneira. O Flamengo não se preparara durante a semana para outra coisa. Treinando o dia todo, dormindo cedo, pondo a garagem em pé de guerra. Quando o jogo começou o Flamengo tomou conta do campo, da arquibancada, da geral, de tudo. Flamengo um a zero, pás de remo embrulhadas em Jornal do Brasil batendo nas cabeças dos vascaínos. Flamengo dois a zero, e novamente as pás de remo subindo e descendo. Quem era do Vasco não tinha direito de abrir a boca.
O Flamengo deixara de ser um clube, um time, era todos os clubes, todos os times, o futebol brasileiro, branquinho de boa famíllia. Tudo estava nos eixos novamente. O pessoal do Vasco quieto, esperando a virada. O primeiro milho era dos pintos. O Flamengo esperasse para ver uma coisa. Às vezes, o Vasco estava apanhando de três a zero, virava,ia ganhar o jogo de quatro,cinco.
Foi começando o segundo tempo, gol do Vasco. E os vascaínos sem poder gritar gol. Um gritozinho, uma pá de remo na cabeça. Só se gritava Flamengo, o Flamengo acabou fazendo mais um gol. Não havia rádio e, apesar de não haver rádio, toda a cidade soube, quase no mesmo instante que o Vasco tinha perdido. Foi um segundo carnaval.
E durante muitos dias casa comerciais de portugueses penduraram um carttaz atrás do balcão que dizia assim:
Veio outra semana, o Vasco continuou a vencer, não perdeu mais até o fim do campeonato. A vitória do Flamengo tinha dado a ilusão de que tudo ia voltar a ser o que era dantes: os times brancos levando campeonatos, os times de preto perdendo sempre. A ilusão durou pouco, os clubes finos, de sociedade, estavam diante de umf ato consumado. Não se ganhava campeonato só com times de brancos. Um time de brancos, mulatos e pretos era o campeão da cidade. Era uma verdadeira revolução que se operava no futebol brasileiro. Restava saber qual seria a reação do grandes clubes.
A reação foi tremenda. Em 1924 nascia a AMEA, uma liga de grandes clubes, sem o Vasco."
Essa liga criou regras inacreditáveis para fazer com que os jogadores pobres e negros do Vasco não pudesesm atuar. Era obrigado a trabalhar, as fábricas eram vigiadas para ver se os jogadores estavam trabalhando. Era a fase do futebol amador. era obrigatório estudar. Criou-se a terrível prova do Ba-a-bá. Essa mesma, Deputado Tirirca. Assunte;
"Acabara-se o tempo de o jogador só precisar saber assinar o nome na súmula. Se não soubesse escrever e ler corretamente e na presença de alguém assim como o presidente da liga estava cortado.
Um pouco antes do jogo, o juiz chamava os jogadores, um por um, o jogador assinava a súmula e pronto. Mas a Liga foi exigindo mais. A papeleta de inscrições tornou-se quase um exame de primeiras letras. Um aporção de perguntas. Nome por extenso, filiação, nacionalidade, naturalidade, dia em que nasceu, onde trabalha, onde estuda, etc, etc.
Muito jogador que sabia assinar o nome se pertubava. Bastou Leitão ir para o Vasco e teve que assinar a pepeleta de inscrição na frente de Célio Barros, então presidente da Liga Metropolitana. Célio de Barros não tirava os olhos de cima de Leitão. Leitão suando frio, parecia que não ia acabar nunca de encher a papeleta."
Mário Filho - O negro no Futebol Brasileiro.
Pouco a dizer depois de um exemplo tão eficaz do que temos feito ao longo desses quase cem anos, com os pobres, negros e analfabetos do nosso país.
Se não conseguiram impugnar a candidatura de Tiririca, não venham agora cassar sua eleição. Como ir contra a expressão de 1.300.000 pessoas que seja lá porque motivo foi, elegeram Tiririca com essa marca histórica. Parafraseando Daniel Marques: "roubar de gravata, paletó e diploma pode? Analfabeto, não?"
Não sei se ele vai roubar, não sei o que ele mesmo vai fazer lá (nem ele sabe...) mas que sua presença é genial em termos de provocações para nossa política e ainda em termo de performatividade, de expressividade, eu não tenho a menor dúvida.
A candidatura de Tiririca já foi um das maiores PERFORMANCES desse começo de década. Seu mandato não deve ser diferente. Ele faz o que o palhaço faz de melhor: ele assume e escancara o ridículo da situação. Vamos ver o que vai ser esta presença no Congresso. Quem sabe não é essa nossa salvação?
Leia também: http://correiodobrasil.com.br/somos-todos-palhacos-tiririca/184551/
Assine o abaixo assinado: http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/abaixoassinado/7167/1
É bolada, eleitor!
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Não era apenas uma questão de etnia - ou cor, ou raça, como se tratava à epoca - era também uma questão de classes. Pobres e ricos. Mas, um time quebrou algumas regras e colocou - pela qualidade de seus jogadores - o negro dentro dos campos. Acompanhem trechos do livro de Mário Filho, O Negro no Futebol Brasileiro, uma pérola da nossa bibliografia nacional, editada pela primeira vez em 1947. Com a palavra: Mário Filho:
"Na hora de assinar a súmula, via-se logo a diferença. Os acadêmicos de medicina do Flamengo, escrevendo o nome depressa, os operários do Carioca levando toda a vida para garajutar o nome. Alguns suando frio, tremendo, achando que nunca seriam capazes de assinar o nome na frente de todo mundo. E tinham assinado o nome mais de mil vezes, de sexta a domingo, cobrindo as letras. Cada clube pequeno arranjava um professor. Só para isso, para ensinar jogador de futebol a assinar o nome.
Se ele errasse na súmula estava tudo perdido. o clube perdia os pontos, a Liga era capaz de chamá-lo para um examezinho. De be-a-bá. Dando uma cartilha para ele ler. Havia jogador que não aprendia a assinar o nome de jeito nenhum. Parecia que tinha aprendido, na hora esquecia, o clube precisava arranjar outro para entrar em campo.
Pascoal Cinelli, por exemplo, passou a ser Pascoal Silva. Um nome mais simples para aprender a assinar. Para ver a importância de saber assinar o nome. Importância que se exagerou pelo culto ao estudante. Havia, naturalmente, uma razão para esse culto. O Flamengo levantou dois campeonatos seguidos, o de 1914 e o de 1915, com um time quase de acadêmicos de medicina. Outros grandes clubes, o Fluminense, o América, o Botafogo, tinham estudantes, mas não assim nessa proporção esmagadora. Nove acadêmicos de medicina e um de direito no time. Quanto mais estudantes, melhor. O que parecia provar que só estudante é que tinha que jogar."
E nesse modelo, o torneio carioca vai seguindo. Os grandes times unidos, criando cada vez mais dificuldade para os jogadores negros, pobres e analfabetos jogarem, criando as estratégias mais absurdas. Os grandes times, ainda com poucos destes jogadores. Os times da segunda divisão, com maior liberdade e mais negros em seu escrete, continuavam assim: pequenos e de segunda divisão. Acontece que um time de negros e pobres fugiu à regra:
"Um clube da segunda divisão, porém, subiu para a primeira divisão. Chamava-se Clube de Regatas Vasco da Gama, e trouxe com ele, mulatos e pretos. (...) Ninguém ligou importância à ida do Vasco para a primeira divisão. Que é que podia fazer um clube de segunda divisão contra um América,c ampeão do Centenário, contra um Flamengo, bicampeão, contra um Fluminense, tricampeão?
O Vasco que botasse quantos mulatos, quantos pretos quisesse no time. Tudo continuaria como dantes, os brancos levantando os campeonatos, os mulatos e os pretos nos seus lugares, nos clubes pequenos.
Mas, quanto mais o Vasco vencia, mais os campos enchiam. Até o estádio do Fluminense ficou pequeno. Gente que nunca tinha assistido a uma partida de futebol deu para comprar a sua arquibancada. Tudo português, o português se julgando obrigado a ir para onde o Vasco ia.
Tornou-se quase uma questão nacional derrotar o Vasco. Os pobres das peladas e dos clubes pequenos brancos, mulatos e pretos dando nos times dos grandes clubes, só de brancos, de gente fina, de sociedade. Muitos sem saber ler nem escrever, mal assinando o nome, sem emprego, sem nada. O time da mistura estava na frente do campeonato, sem uma derrota. tinha de perder, pelo menos uma vez, de qulalquer maneira. O Flamengo não se preparara durante a semana para outra coisa. Treinando o dia todo, dormindo cedo, pondo a garagem em pé de guerra. Quando o jogo começou o Flamengo tomou conta do campo, da arquibancada, da geral, de tudo. Flamengo um a zero, pás de remo embrulhadas em Jornal do Brasil batendo nas cabeças dos vascaínos. Flamengo dois a zero, e novamente as pás de remo subindo e descendo. Quem era do Vasco não tinha direito de abrir a boca.
O Flamengo deixara de ser um clube, um time, era todos os clubes, todos os times, o futebol brasileiro, branquinho de boa famíllia. Tudo estava nos eixos novamente. O pessoal do Vasco quieto, esperando a virada. O primeiro milho era dos pintos. O Flamengo esperasse para ver uma coisa. Às vezes, o Vasco estava apanhando de três a zero, virava,ia ganhar o jogo de quatro,cinco.
Foi começando o segundo tempo, gol do Vasco. E os vascaínos sem poder gritar gol. Um gritozinho, uma pá de remo na cabeça. Só se gritava Flamengo, o Flamengo acabou fazendo mais um gol. Não havia rádio e, apesar de não haver rádio, toda a cidade soube, quase no mesmo instante que o Vasco tinha perdido. Foi um segundo carnaval.
E durante muitos dias casa comerciais de portugueses penduraram um carttaz atrás do balcão que dizia assim:
'É PROIBIDO FALAR EM FUTEBOL'!
Veio outra semana, o Vasco continuou a vencer, não perdeu mais até o fim do campeonato. A vitória do Flamengo tinha dado a ilusão de que tudo ia voltar a ser o que era dantes: os times brancos levando campeonatos, os times de preto perdendo sempre. A ilusão durou pouco, os clubes finos, de sociedade, estavam diante de umf ato consumado. Não se ganhava campeonato só com times de brancos. Um time de brancos, mulatos e pretos era o campeão da cidade. Era uma verdadeira revolução que se operava no futebol brasileiro. Restava saber qual seria a reação do grandes clubes.
A reação foi tremenda. Em 1924 nascia a AMEA, uma liga de grandes clubes, sem o Vasco."
Essa liga criou regras inacreditáveis para fazer com que os jogadores pobres e negros do Vasco não pudesesm atuar. Era obrigado a trabalhar, as fábricas eram vigiadas para ver se os jogadores estavam trabalhando. Era a fase do futebol amador. era obrigatório estudar. Criou-se a terrível prova do Ba-a-bá. Essa mesma, Deputado Tirirca. Assunte;
"Acabara-se o tempo de o jogador só precisar saber assinar o nome na súmula. Se não soubesse escrever e ler corretamente e na presença de alguém assim como o presidente da liga estava cortado.
Um pouco antes do jogo, o juiz chamava os jogadores, um por um, o jogador assinava a súmula e pronto. Mas a Liga foi exigindo mais. A papeleta de inscrições tornou-se quase um exame de primeiras letras. Um aporção de perguntas. Nome por extenso, filiação, nacionalidade, naturalidade, dia em que nasceu, onde trabalha, onde estuda, etc, etc.
Muito jogador que sabia assinar o nome se pertubava. Bastou Leitão ir para o Vasco e teve que assinar a pepeleta de inscrição na frente de Célio Barros, então presidente da Liga Metropolitana. Célio de Barros não tirava os olhos de cima de Leitão. Leitão suando frio, parecia que não ia acabar nunca de encher a papeleta."
Mário Filho - O negro no Futebol Brasileiro.
Pouco a dizer depois de um exemplo tão eficaz do que temos feito ao longo desses quase cem anos, com os pobres, negros e analfabetos do nosso país.
Se não conseguiram impugnar a candidatura de Tiririca, não venham agora cassar sua eleição. Como ir contra a expressão de 1.300.000 pessoas que seja lá porque motivo foi, elegeram Tiririca com essa marca histórica. Parafraseando Daniel Marques: "roubar de gravata, paletó e diploma pode? Analfabeto, não?"
Não sei se ele vai roubar, não sei o que ele mesmo vai fazer lá (nem ele sabe...) mas que sua presença é genial em termos de provocações para nossa política e ainda em termo de performatividade, de expressividade, eu não tenho a menor dúvida.
A candidatura de Tiririca já foi um das maiores PERFORMANCES desse começo de década. Seu mandato não deve ser diferente. Ele faz o que o palhaço faz de melhor: ele assume e escancara o ridículo da situação. Vamos ver o que vai ser esta presença no Congresso. Quem sabe não é essa nossa salvação?
Leia também: http://correiodobrasil.com.br/somos-todos-palhacos-tiririca/184551/
Assine o abaixo assinado: http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/abaixoassinado/7167/1
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