É, tomei coragem e disposição para escrever neste blog que há tanto tempo não atualizo e para falar sobre a atual situação da Bahia.
Juro que tenho tentado ler tudo com alguma isenção ideológica, partidária, sem julgamento, tentando não ser manipulada por nenhum dos lados. Leio tudo com respeito e me disponho a pensar em todos os argumentos.
Mas, o que eu quero falar aqui é sobre o radicalismo de ambas as partes.
Os PMs erraram em pegar em armas? Erraram e erraram muito.
Os PMs são péssimos, verdadeiramente péssimos em suas práticas cotidianas de autoritarismo, racismo, corrupção, abuso de poder? Sim, são. Muito péssimos.
Os PMs são a grande peste que grevistas e manifestantes encontram em suas ações cidadãs? Sim, são.
Mas isso é suficiente para aniquilar o diálogo? Por que eles são péssimos, acabou tudo, não se pode mais debater a questão, eles não têm o direito de reivincar o cumprimento de leis trabalhistas que estão sendo esquecidas?
Não seria essa uma ótima oportunidade para eles reverem sua relação com a sociedade? Ingênua, eu, né? Também acho, mas enfim, acho que os discursos que reduzem a existência a uma coisa ou outra não nos levam para lugar nenhum. Abortam o diálogo, atravancam o desenvolvimento e a transformação.
A greve é política? O PSDB está alimentando o movimento? Se fosse tão simples assim, Jacques Wagner poderia tirar de letra essa questão, eu imagino. Todas aquelas famílias reunidas na AL, todos os cabos, soldados, praças do interior que querem se unir à causa estão sendo manipulados por um único homem? Acho outro pensamento preguiçoso. E essa uma das questões importantes, a gente tem uma preguicinha de pensar e de enfrentar os conflitos. Fica um monte de gente no facebook e no twitter jogando na cara da gente que a gente votou em Jacques Wagner e agora aguente. Ora, vamos debater inteligente e corajosamente a questão ou vamos ficar atirando pedras a esmo?
Eu votei em Jacques Wagner nas duas eleições. Eu sou Petista (sim, ainda sou) e me orgulho disso, porque o PT é uma história de mais de duas décadas, porque ainda há pessoas neste grande partido que defendem os trabalhadores, como o nome do partido sugere.
Mas, isso não me impede de fazer sérias críticas a este partido, do modo como ele é conduzido hoje. O fato de ter votado em Jacques Wagner não me impede, muito pelo contrário, me autoriza, ou ainda me obriga a ser crítica de sua atuação. Sim, me obriga a ser crítica, se pensarmos que o governo é representativo e não autoritário. Ele deve me representar, foi pra isso que votei nele e quando ele não age assim, devo me manifestar, sem medo de ser tachada de 'voto perdido' ou 'traidora do partido'.
Aí que entra meu querido futebol.
O Bahia pode fazer a merda que for, eu vou defender o Bahia sempre. Joel Santana, Renato Gaúcho, René Simões, Márcio Araújo, Falcão, seja quem for, vai fazer merda, a gente vai chiar muito, mas a gente vai continuar Bahia, vai defender, não vai deixar o inimigo falar mal - só quem pode falar mal do time da gente é a gente.
Querer defender o PT como se fosse seu time de futebol, sem criticidade, cego pela paixão de torcedor em conversa de boteco é uma insanidade.
Votar é outra história. Votar é fazer parte do processo de condução da vida política do país. Eleição não é Campeonato Nacional de Futebol e eu não tenho que fechar com todos os equívocos do meu candidato só porque votei nele. Eu tenho outra arma: eu posso não votar nele na próxima eleição. Abandonar um candidato ou mesmo um partido não representa necessariamente abandonar uma ideologia. Pode ser justamente o contrário. Pode ser manter-se na ideologia através de outras representações.
Enfm, posso ter sido bem confusa, e fui, mas quem não está confuso hoje na nossa Bahia?
Eu repudio a forma imatura e vaidosa como Jacques Wagner está conduzindo este importante evento em nosso estado. Para mim, na verdade, não há nenhuma novidade, porque ele tratou como cachorro os professores das unviersidades quando passaram aproximadamente três meses em greve e agora trata milhares de policiais como bandidos.
Se essa bosta é briga política, tá na hora de entrar alguém com um pingo de bom senso e de respeito pelo povo para conduzir esta situação. Se estão acostumados às brigas de gabinete onde são vendidos votos e negociadas ações do governo, leis e procedimentos, não é disso que estamos tratando no momento, Sr. Governador.
Estamos tratando de vidas humanas e isso não se trata com birra nem com vaidade.
De tudo que tiremos uma oportunidade de transformação. Que o fato de os acontecimentos terem influenciado a vida de cada um de nós (o que não acontece com outras greves) nos ensine a fazer democracia, a debater ideias, a rever posturas, a escolher nossos representantes, a nos avaliarmos politicamente e ajudarmos enfim, nosso país a consolidar sua democracia.
Sem tanques de guerra na rua. Sem forças armadas, inclusive porque temos uma presidenta que foi torturada por um regime bruto e cruel conduzido por estes mesmos senhores que novamente se dizem em ação em nome da ordem e da lei.
É bolada, cidadão baiano!
Depois da pesquisa de mestrado realizada no PPGAC - UFBA, intitulada TEATRO X FUTEBOL: Por uma dramaturgia do espetáculo futebolístico, dou continuidade à pesquisa em nível de doutorado: A EXPERIÊNCIA TRÁGICA DO TORCEDOR: o Futebol como espetáculo absoluto do Século XX. Neste blog pensamentos, perguntas, problematizações, cotidianices, política, arte, poesia. TEATRO E FUTEBOL juntos, porque entre o campo e o palco, entre o jogo e peça existem mais parentescos do que supõe a nossa vã filosofia.
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
domingo, 11 de dezembro de 2011
FUTEBOL, POLÍTICA, EDUCAÇÃO E ARTE por José Miguel Wisnik
Este vídeo fez parte do vídeo maior que eu apresentei na minha defesa de mestrado.
Foi editado por mim e por Alexsandro Moreira, a partir do áudio de uma entrevista de José Miguel Wisnik para o programa Café Filosófico em 2009.
Não requer explicações, nem maiores introduções, porque ele é simplesmente demais.
Foi editado por mim e por Alexsandro Moreira, a partir do áudio de uma entrevista de José Miguel Wisnik para o programa Café Filosófico em 2009.
Não requer explicações, nem maiores introduções, porque ele é simplesmente demais.
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terça-feira, 11 de outubro de 2011
BAHÊA MINHA VIDA - uma obra de arte
Meu pai do céu. Por onde começar? Do que falar?
Do filme em si?
Do primoroso trabalho de Márcio Cavalcante e sua equipe?
Da experiência única de ver este filme numa sala de cinema com a plateia mais surreal que qualquer pessoa pode imaginar?
Vou tentar.
Posso começar pela provocação de meu amigo, o querido Jean Wyllys, que desabafou no twitter que não entendia a comoção do futebol, por mais que tentasse não conseguia passar mais que cinco minutos na frente da tv vendo um jogo. Obviamente seu comentário no twitter e no face recebeu muitos comentários, dos dois lados. Os que fechavam com ele e não viam sentido nos 22 homens atrás de uma bola, blablabla... E outros, que como eu, entendem que não é só uma questão matemática e lógica, mas que resume em atos, fatos e acontecimentos toda a existência humana. Eu que ainda não tinha visto o filme mas que já imaginava como seria emocionante, por ter visto inúmeros trailers e teaseares e porque Alam não só já tinha visto o filme como também viveu a batalha por um ingresso no Iguatemi, invadido por uma onda tricolor, tal qual Pituaçu em dia de jogo. Sem conseguir, saiu correndo para o Glauber Rocha, onde a histeria era menor... Sim, mesmo sem ter visto o filme ainda, eu disse a Jean para vir a Salvador para vermos juntos o filme, para ele entender e sentir o que é isso. E como eu estava certa. Depois, amigo, para batizar de fato, só uma partidinha no caldeirão...
Mal sabia eu que o filme era muito, muito mais do que homenagem ao Esporte Clube Bahia, mais do que um filme sobre futebol, era uma linda poesia sobre a capacidade do ser humano de se entregar a alguma paixão. Paixão no sentido mais pleno do que qualquer outra cultura vai poder experimentar ou compreender. Mas o filme é ainda maior do que isso e essa experiência única, única, Jean, você tem que vir ver e lembrar, mais uma vez e sempre, o quanto é bom ser baiano. O quanto é bom ser Bahêa!
Pense numa sala de cinema em que a cada pessoa que entrava ouvia o bordão: "Bora Bahêa!" E respondia sorrindo, como filho que há muito tempo não vinha almoçar em casa: "Bora Bahêa." Isso depois de uma fila de uniformizados. Isso depois de uma semana em cartaz. Isso numa sala de cinema que não é das mais populares, reduto de intelectuais... Pois é...
De repente, um fi de deus bota o hino no celular. Toda a plateia canta junto. Todo o hino.
Uma plateia de amigos. Uma plateia de irmãos. Parecia uma grande família, almoçando junta.
Durante o filme, gritos de gol. gritos de guerra, cantação do hino, risos, lágrimas, tudo junto. Ao, fim aplausos e confraternização. Gente, uma experiência mesmo muito inusitada. Só quem viveu sabe.
Mas vamos ao filme.
O filme é didaticamente dividido em capítulos, não acintosamente, mas fluentemente, dentro de sua dramaturgia de documentário-paixão.
Primeiro, fala-se sobre o futebol. Essa paixão, que como tal, não se explica, por mais que seja gostoso tentar. Tem fala de historiador, jornalista, jogador, torcedor, poeta... Todo mundo vive sua tentativa de explicação.
Aí, entra o time, o clube, a história. Numa primorosa pesquisa que foi organizada também primorosamente para não cair na chatice em que muitos documentários podem cair, vamos conhecendo a história de nosso amado clube. Sempre com uma polifonia típica do tema. O que eu mais acho gostoso na minha pesquisa é que quando eu toco no assunto eu, que sou teoricamente a pesquisadora, sou a que menos fala. Todo mundo se sente especialista em futebol e é. Ninguém tem vergonha ou pudor em dar sua opinião e todas as opiniões são ouvidas, comentadas, respeitadas. Assim também é o filme. Todo mundo tem o que dizer e tudo o que se diz, de onde se diz é importante, é fundamental!
Aí, entra a parte para mim mais emocionante do filme. Parte que extrapola tudo o que eu esperava do filme. O encontro dos ex-jogadores do escrete de 59 é um primor. De tudo, por tudo. Senhores pais e senhroas mães: levem seus filhos porque é lindo ver aqueles velhinhos lindos, plenos, doces e que, mesmo com certa dor das limitações da velhice, desfilam suas memórias e sua presença para que aprendamos com eles. É simplesmente emocionante. A edição foi muito feliz em colocar as falhs de memória dos jogadores, não por ser engraçado, mas por ser tocante. Os olhos deles se reconhecendo, é demais. É emocionante. É quase cruel. Poucos são os que não choram. O que é Marito Bahia, meu Deus? E Rubem Bahia, jogador de 1931? Demais.
Aí, em dado momento, eu me dou conta de que estou prestes a descobrir o que dizer a meu amigo Jean. Vendo as imagens da torcida, belíssimas imagens, entendo porque o futebol é esse delírio. É porque no futebol, o homem vira menino. Gente, percebam os olhos de homens que se abraçam, que gritam, que choram, que declaram seu amor incondicional ao time. Os olhos, meu deus, são olhos de meninos. E Ziraldo, muito inteligentemente fez nosso mascote com a figura de uma criança. É isso que somos: crianças. E como tal, dedicamos toda energia e seriedade naquilo que fazemos. Acreditamos! É muita alegria por algo aparentemente tão simples. Um dos convidados (que eu não vou me lembrar quem) diz que o futebol é libertador porque o homem abre mão daquilo que lhe caracteriza como humano, que é a possibilidade de usar as mãos. Ele abre mão, deliberadamente daquilo que o identifica, e cria um mundo completamente novo e possível, fazendo mágica com os pés. Demais.
Dos títulos, passamos para o hino, que muito bem lembrado por outro convidado, é um hino à torcida e não necessariamente ao clube. Um chamado, uma trombeta de cavalaria.
Deste ponto, se não estou enganada, o filme avança para falar da descida às séries B e C e do emocionante retorno. Marcelo Barreto, respeitado jornalista esportivo, lê seu belíssimo texto sobre a subida do Bahia - texto que eu já conhecia e já tinha divulgado aqui neste blog. Os depoimentos emocionantes continuam.
Agora, o que faz do filme um grande feito, não é cada coisa isolada em si. Não é um elemento que se destaca no filme. É o talento que Márcio tem para fazer das vozes populares o maior trunfo. Juca Kfouri é maravilhoso, Marcelo Barreto é demais, os outros comentaristas são muito bons, mas a voz do filme, ah, essa é do povo. Os personagens da torcida tricolor são as estrelas absolutas também do filme e é muito bom a gente reconhecer nas telas essas figuraças que a gente vê sempre que vai a Pituaçu. É lindo ver que eles fazem o filme, que eles são no fundo as grandes estrelas do Bahêa. E cá pra nós, eles falam com uma propriedade que estudioso nenhum jamais vai alcançar.
Bom, acho que não há muito mais o que falar do filme. Na verdade eu nem ando muito inspirada para escrever. Tenho me dedicado muito mais a ver, assistir e aprender.
Mas não poderia jamais deixar de registrar minha emoção e alegria com este filme.
Uma leve tristeza, porque vejo que minha pesquisa de doutorado, tão dura e tão racional jamais chegará perto de tanta beleza, leveza e magia. Mas, vou seguir tocando, né. É preciso terminar esse trem. E, pero que si pero que no, ficará mais um registro sobre essa linda torcida, em outra linguagem, em outra mídia, de outra forma. Minha contribuição.
Obrigada, Márcio Cavalcante e equipe, por um trabalho tão primoroso e apaixonado. Espero que o filme possa circular no país todo, pois é uma grande obra e deve ser apreciada por muitos.
Espero que meu amigo possa assistir ao filme, talvez não mais aqui ao meu lado em Salvador, mas em qualquer outro lugar desse Brasilzão que ele tem percorrido. Que ele se lembre de mim, que sinta - mesmo que não entenda - um pouco desse jeito estranho de ser brasileiro e que perceba de alguma forma que contra tudo o que se possa dizer do futebol, para o bem e para o mal - que ele á algo nosso, intimamente nosso. E simples, e belo, e vivo e apaixonante. E que ele sinta alguma alegria, mesmo que estranha, em ver tantos homens-meninos, juntos, cantando e pulando felizes, esquecendo tantas mazelas e fazendo o que dá pra ser feito aqui nesse mundo estranho que a gente entende tão pouco mas do qual não se pode sair facilmente. Nessa hora, eu acho Jean, nós re-encontramos o princípio criador, e isso não é uma figura de linguagem, não é uma hipérbole. Isso pra mim, é real.
Do filme em si?
Do primoroso trabalho de Márcio Cavalcante e sua equipe?
Da experiência única de ver este filme numa sala de cinema com a plateia mais surreal que qualquer pessoa pode imaginar?
Vou tentar.
Posso começar pela provocação de meu amigo, o querido Jean Wyllys, que desabafou no twitter que não entendia a comoção do futebol, por mais que tentasse não conseguia passar mais que cinco minutos na frente da tv vendo um jogo. Obviamente seu comentário no twitter e no face recebeu muitos comentários, dos dois lados. Os que fechavam com ele e não viam sentido nos 22 homens atrás de uma bola, blablabla... E outros, que como eu, entendem que não é só uma questão matemática e lógica, mas que resume em atos, fatos e acontecimentos toda a existência humana. Eu que ainda não tinha visto o filme mas que já imaginava como seria emocionante, por ter visto inúmeros trailers e teaseares e porque Alam não só já tinha visto o filme como também viveu a batalha por um ingresso no Iguatemi, invadido por uma onda tricolor, tal qual Pituaçu em dia de jogo. Sem conseguir, saiu correndo para o Glauber Rocha, onde a histeria era menor... Sim, mesmo sem ter visto o filme ainda, eu disse a Jean para vir a Salvador para vermos juntos o filme, para ele entender e sentir o que é isso. E como eu estava certa. Depois, amigo, para batizar de fato, só uma partidinha no caldeirão...
| Fila no Iguatemi para ver a estreia do filme |
Pense numa sala de cinema em que a cada pessoa que entrava ouvia o bordão: "Bora Bahêa!" E respondia sorrindo, como filho que há muito tempo não vinha almoçar em casa: "Bora Bahêa." Isso depois de uma fila de uniformizados. Isso depois de uma semana em cartaz. Isso numa sala de cinema que não é das mais populares, reduto de intelectuais... Pois é...
De repente, um fi de deus bota o hino no celular. Toda a plateia canta junto. Todo o hino.
Uma plateia de amigos. Uma plateia de irmãos. Parecia uma grande família, almoçando junta.
Durante o filme, gritos de gol. gritos de guerra, cantação do hino, risos, lágrimas, tudo junto. Ao, fim aplausos e confraternização. Gente, uma experiência mesmo muito inusitada. Só quem viveu sabe.
Mas vamos ao filme.
UM ENCONTRO DE GERAÇÕES
| Martio Bahia, grande ídolo |
Primeiro, fala-se sobre o futebol. Essa paixão, que como tal, não se explica, por mais que seja gostoso tentar. Tem fala de historiador, jornalista, jogador, torcedor, poeta... Todo mundo vive sua tentativa de explicação.
Aí, entra o time, o clube, a história. Numa primorosa pesquisa que foi organizada também primorosamente para não cair na chatice em que muitos documentários podem cair, vamos conhecendo a história de nosso amado clube. Sempre com uma polifonia típica do tema. O que eu mais acho gostoso na minha pesquisa é que quando eu toco no assunto eu, que sou teoricamente a pesquisadora, sou a que menos fala. Todo mundo se sente especialista em futebol e é. Ninguém tem vergonha ou pudor em dar sua opinião e todas as opiniões são ouvidas, comentadas, respeitadas. Assim também é o filme. Todo mundo tem o que dizer e tudo o que se diz, de onde se diz é importante, é fundamental!
![]() |
| Bel Bahia, patrimônio da nossa torcida |
| Lorinho, que amarrava os adversários em seu vudu abaianado |
| BA X VI: onde o clássico é pacífico |
Dos títulos, passamos para o hino, que muito bem lembrado por outro convidado, é um hino à torcida e não necessariamente ao clube. Um chamado, uma trombeta de cavalaria.
Deste ponto, se não estou enganada, o filme avança para falar da descida às séries B e C e do emocionante retorno. Marcelo Barreto, respeitado jornalista esportivo, lê seu belíssimo texto sobre a subida do Bahia - texto que eu já conhecia e já tinha divulgado aqui neste blog. Os depoimentos emocionantes continuam.
Agora, o que faz do filme um grande feito, não é cada coisa isolada em si. Não é um elemento que se destaca no filme. É o talento que Márcio tem para fazer das vozes populares o maior trunfo. Juca Kfouri é maravilhoso, Marcelo Barreto é demais, os outros comentaristas são muito bons, mas a voz do filme, ah, essa é do povo. Os personagens da torcida tricolor são as estrelas absolutas também do filme e é muito bom a gente reconhecer nas telas essas figuraças que a gente vê sempre que vai a Pituaçu. É lindo ver que eles fazem o filme, que eles são no fundo as grandes estrelas do Bahêa. E cá pra nós, eles falam com uma propriedade que estudioso nenhum jamais vai alcançar.
Bom, acho que não há muito mais o que falar do filme. Na verdade eu nem ando muito inspirada para escrever. Tenho me dedicado muito mais a ver, assistir e aprender.
Mas não poderia jamais deixar de registrar minha emoção e alegria com este filme.
Uma leve tristeza, porque vejo que minha pesquisa de doutorado, tão dura e tão racional jamais chegará perto de tanta beleza, leveza e magia. Mas, vou seguir tocando, né. É preciso terminar esse trem. E, pero que si pero que no, ficará mais um registro sobre essa linda torcida, em outra linguagem, em outra mídia, de outra forma. Minha contribuição.
![]() |
| Márcio Cavalcante - diretor |
Obrigada, Márcio Cavalcante e equipe, por um trabalho tão primoroso e apaixonado. Espero que o filme possa circular no país todo, pois é uma grande obra e deve ser apreciada por muitos.
Espero que meu amigo possa assistir ao filme, talvez não mais aqui ao meu lado em Salvador, mas em qualquer outro lugar desse Brasilzão que ele tem percorrido. Que ele se lembre de mim, que sinta - mesmo que não entenda - um pouco desse jeito estranho de ser brasileiro e que perceba de alguma forma que contra tudo o que se possa dizer do futebol, para o bem e para o mal - que ele á algo nosso, intimamente nosso. E simples, e belo, e vivo e apaixonante. E que ele sinta alguma alegria, mesmo que estranha, em ver tantos homens-meninos, juntos, cantando e pulando felizes, esquecendo tantas mazelas e fazendo o que dá pra ser feito aqui nesse mundo estranho que a gente entende tão pouco mas do qual não se pode sair facilmente. Nessa hora, eu acho Jean, nós re-encontramos o princípio criador, e isso não é uma figura de linguagem, não é uma hipérbole. Isso pra mim, é real.
É bolada, Tricolor-estrela!
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domingo, 21 de agosto de 2011
JUIZ, FÉLA DA POOTA, vai esculhambar o jogo de outro
Eu juro que eu me controlei pra não escrever, porque ia ficar parecendo mágoa de cabocla, parecendo choradeira de quem perdeu, mas agora num dá mais, né gente...
E vai numa linguagem de torcedor mesmo, viu.
A gente vai fingir que não tá uma esculhambação este campeonato brasileiro até quando, hein? A gente vai fingir que num tá vendo o esquema montado para manter os times da ‘periferia’ do Brasil fora dos grandes campeonatos, longe das zonas de classificação, até quando?
Quantos times do Nordeste e do Norte ainda estão na série A? Até quando? É um esquema, gente, tô falando.
Porque, pela mãe do guarda, o que os juízes têm feito com o time do Bahia neste campeonato é uma coisa assustadora. Vai dizer que eu tô exagerando? Gols legais anulados, pênaltis não marcados para nós e marcados para eles quando não há, cartão amarelo a toda hora, passar do tempo regulamentar e dos acréscimos anunciados, fala sério.
O Bahia, como grande time que é, vai se mantendo firme, dando trabalho para os grandes times. Diz pra mim se o Bahia não deu baile no Corinthians, no Santos, no Flamengo, no Fluminense e mesmo no Vasco? Diz, honestamente se não é time pra G4. É, gente. Não ganhou, mas também não perdeu para times que estão no G4. E o líder só ganhou porque o juiz roubou mais do que político quando se elege. Que porra de jogo foi aquele? E Neto dizendo que o Corinthians tava melhor... a onde? Sofrendo pra manter o 1 X 0 fruto de um pênalti roubado.
Ah, tá ficando feio e chato e a gente precisa fazer alguma coisa, fazer um barulho. Acabar com essa sujeira a gente não vai, mas pelo menos tem que dizer que tá feio, que tá todo mundo percebendo.
E não é só contra o Bahia, não. Depois dos jogos, é uma chuva de denúncia nas redes sociais. O Inter hoje com o Flamengo... Olha gente, eu sei que estudo futebol na academia, e não sou assim especialista no jogo pra falar com propriedade de macho, mas peraí, eu achei o juiz muito ladrão pro Flamengo. Muito cartão amarelo pro Inter, o gol de Ronaldinho foi meio roubo do cara lá na barreira, num foi não? Eu hein.
Isso não é de hoje, né. Aqui mesmo nesse blog eu falei do Vasco de 23, quando todos os times cariocas se indignaram que aquele time de pretos que acabara de subir para a primeira divisão estava ganhando de todos. Não conseguiram tirar o campeonato do Vasco, mas pelo menos tiraram sua invencibilidade que tornava a humilhação ainda maior. Todos os times cariocas se juntaram, sobretudo os arquirrivais Flamengo e Fluminense, para baterem no Vasco (que agora cresceu, virando time grande e ganhou roubado do Bahia, quando o jogo já tinha acabado e o juiz não marcou a falta no goleiro do Bahia).
E como se os juízes não fossem suficientes para a sacanagem, ainda escalaram para o time da putaria os comentaristas da Globo e da Band que para humilharem o futebol do Norte-Nordeste (e tudo o mais que a gente fizer por aqui) até deixam de ser rivais. Isso sim é INACREDITÁVEL. ISSO SIM É UMA BOA DUMA BOLA MURCHA.
Quem consegue assistir a um jogo na Band, quando o time adversário é paulista? Fala sério, eles não percebem, não, que aquilo é uma vergonha? Que eles simplesmente ignoram que o Brasil é muito mais do que São Paulo. Eles narram o jogo sempre do ponto de vista do time paulista. Bem assim é a Globo com os times do Rio. Ok, quer colocar torcedor para comentar, coloca dos dois times, porra. Eu sou corintiana também, mas aguentar Neto, ninguém merece, né. E cá pra nós, eu já cansei da briga encenada dele com o insuportável do apresentador do Terceiro Tempo que eu esqueci o nome e tô com preguiça de procurar. Chato! Milton Neves, lembrei quando estava revisando o texto.
E os comentaristas da Globo? Júnior, flamenguista e Casagrande, corintiano. Dá pra ser feliz com tanta manipulação?
Eles, além de desagradáveis eles fazem um papel nojento, que é o de esconder as merdas que os juízes vêm fazendo. Eles mesmos, podem perceber, se dedicam meia hora a defender o juiz quando a merda é inegável. Eles querem colocar a todo custo a leitura deles na cabeça dos espectadores. O lance do gol de Ronadinho mesmo hoje, e o cartão vermelho do Inter, eles falaram demais. Se tivesse mesmo tudo certo eles não precisariam fazer tanta falação. A gente sente a voz deles insegura, vê que eles tão criando uma argumentação para livrar a cara do juiz e não permitir que a polêmica seja criada durante a semana nos botecos, bancas, padarias e açougues... Eu estudo recepção, gente, eu sinto a dissimulação.
Ai, que raiva, viu.
E tem mais, eu acho isso uma sacanagem com o futebol e um tiro no pé. Porque vai ficar tão feio que a gente vai acabar escolhendo algo que realmente nos represente, que fale de nós. Estão definitivamente tirando o futebol do povo, fazendo dele um negócio podre, burocrático, falso, manipulado, tirando dele seu elemento fundamental que é o destino, o imponderável, o emergente. Sem isso, acabou. Para ver cena montada a gente tem os teatro, que passou pelo mesmo processo de burocratização e sequestro de seu verdadeiro dono: o povo. Pois a gente vai fazer o mesmo que fizemos com o teatro: Vamos deixar de lado, deixar de ir, deixar de ver, deixar de acreditar.
Eu sempre quis, na minha pesquisa, identificar uma possibilidade do teatro encontrar no futebol uma forma de voltar ao povo, até o momento em que me dei conta que o futebol já era em si o teatro do povo.
Mal sabia eu que era o futebol quem corria o risco de se vender como o teatro. Queria que ainda houvesse salvação, mas pra ser sincera, não acredito não.
E que ironia do destino. Vai acabar o juiz tendo não só o poder de acabar com o jogo, como também pôr fim ao futebol. Que cômico. Que trágico.
É BOLADA, TORCEDOR USURPADO!
E vai numa linguagem de torcedor mesmo, viu.
A gente vai fingir que não tá uma esculhambação este campeonato brasileiro até quando, hein? A gente vai fingir que num tá vendo o esquema montado para manter os times da ‘periferia’ do Brasil fora dos grandes campeonatos, longe das zonas de classificação, até quando?
Quantos times do Nordeste e do Norte ainda estão na série A? Até quando? É um esquema, gente, tô falando.
Porque, pela mãe do guarda, o que os juízes têm feito com o time do Bahia neste campeonato é uma coisa assustadora. Vai dizer que eu tô exagerando? Gols legais anulados, pênaltis não marcados para nós e marcados para eles quando não há, cartão amarelo a toda hora, passar do tempo regulamentar e dos acréscimos anunciados, fala sério.
O Bahia, como grande time que é, vai se mantendo firme, dando trabalho para os grandes times. Diz pra mim se o Bahia não deu baile no Corinthians, no Santos, no Flamengo, no Fluminense e mesmo no Vasco? Diz, honestamente se não é time pra G4. É, gente. Não ganhou, mas também não perdeu para times que estão no G4. E o líder só ganhou porque o juiz roubou mais do que político quando se elege. Que porra de jogo foi aquele? E Neto dizendo que o Corinthians tava melhor... a onde? Sofrendo pra manter o 1 X 0 fruto de um pênalti roubado.
Ah, tá ficando feio e chato e a gente precisa fazer alguma coisa, fazer um barulho. Acabar com essa sujeira a gente não vai, mas pelo menos tem que dizer que tá feio, que tá todo mundo percebendo.
E não é só contra o Bahia, não. Depois dos jogos, é uma chuva de denúncia nas redes sociais. O Inter hoje com o Flamengo... Olha gente, eu sei que estudo futebol na academia, e não sou assim especialista no jogo pra falar com propriedade de macho, mas peraí, eu achei o juiz muito ladrão pro Flamengo. Muito cartão amarelo pro Inter, o gol de Ronaldinho foi meio roubo do cara lá na barreira, num foi não? Eu hein.
Isso não é de hoje, né. Aqui mesmo nesse blog eu falei do Vasco de 23, quando todos os times cariocas se indignaram que aquele time de pretos que acabara de subir para a primeira divisão estava ganhando de todos. Não conseguiram tirar o campeonato do Vasco, mas pelo menos tiraram sua invencibilidade que tornava a humilhação ainda maior. Todos os times cariocas se juntaram, sobretudo os arquirrivais Flamengo e Fluminense, para baterem no Vasco (que agora cresceu, virando time grande e ganhou roubado do Bahia, quando o jogo já tinha acabado e o juiz não marcou a falta no goleiro do Bahia).
E como se os juízes não fossem suficientes para a sacanagem, ainda escalaram para o time da putaria os comentaristas da Globo e da Band que para humilharem o futebol do Norte-Nordeste (e tudo o mais que a gente fizer por aqui) até deixam de ser rivais. Isso sim é INACREDITÁVEL. ISSO SIM É UMA BOA DUMA BOLA MURCHA.
Quem consegue assistir a um jogo na Band, quando o time adversário é paulista? Fala sério, eles não percebem, não, que aquilo é uma vergonha? Que eles simplesmente ignoram que o Brasil é muito mais do que São Paulo. Eles narram o jogo sempre do ponto de vista do time paulista. Bem assim é a Globo com os times do Rio. Ok, quer colocar torcedor para comentar, coloca dos dois times, porra. Eu sou corintiana também, mas aguentar Neto, ninguém merece, né. E cá pra nós, eu já cansei da briga encenada dele com o insuportável do apresentador do Terceiro Tempo que eu esqueci o nome e tô com preguiça de procurar. Chato! Milton Neves, lembrei quando estava revisando o texto.
E os comentaristas da Globo? Júnior, flamenguista e Casagrande, corintiano. Dá pra ser feliz com tanta manipulação?
Eles, além de desagradáveis eles fazem um papel nojento, que é o de esconder as merdas que os juízes vêm fazendo. Eles mesmos, podem perceber, se dedicam meia hora a defender o juiz quando a merda é inegável. Eles querem colocar a todo custo a leitura deles na cabeça dos espectadores. O lance do gol de Ronadinho mesmo hoje, e o cartão vermelho do Inter, eles falaram demais. Se tivesse mesmo tudo certo eles não precisariam fazer tanta falação. A gente sente a voz deles insegura, vê que eles tão criando uma argumentação para livrar a cara do juiz e não permitir que a polêmica seja criada durante a semana nos botecos, bancas, padarias e açougues... Eu estudo recepção, gente, eu sinto a dissimulação.
Ai, que raiva, viu.
E tem mais, eu acho isso uma sacanagem com o futebol e um tiro no pé. Porque vai ficar tão feio que a gente vai acabar escolhendo algo que realmente nos represente, que fale de nós. Estão definitivamente tirando o futebol do povo, fazendo dele um negócio podre, burocrático, falso, manipulado, tirando dele seu elemento fundamental que é o destino, o imponderável, o emergente. Sem isso, acabou. Para ver cena montada a gente tem os teatro, que passou pelo mesmo processo de burocratização e sequestro de seu verdadeiro dono: o povo. Pois a gente vai fazer o mesmo que fizemos com o teatro: Vamos deixar de lado, deixar de ir, deixar de ver, deixar de acreditar.
Eu sempre quis, na minha pesquisa, identificar uma possibilidade do teatro encontrar no futebol uma forma de voltar ao povo, até o momento em que me dei conta que o futebol já era em si o teatro do povo.
Mal sabia eu que era o futebol quem corria o risco de se vender como o teatro. Queria que ainda houvesse salvação, mas pra ser sincera, não acredito não.
E que ironia do destino. Vai acabar o juiz tendo não só o poder de acabar com o jogo, como também pôr fim ao futebol. Que cômico. Que trágico.
É BOLADA, TORCEDOR USURPADO!
domingo, 28 de novembro de 2010
DELIVERY SPORT CLUB
ENTREGA!
ENTREGA!
A cantilena da final do campeonato brasileiro mostra que definitivamente a força do clube pra quem se torce é infinitamente maior do que a naturalidade deste torcedor. O que para leigos e desavisados poderia ser uma corrida para saber qual estado tem mais títulos nacionais, é na verdade uma união ao contrário. É a força da competitividade na construção da própria identidade.
Já podemos ver isso bem perto de nós. O torcedor tricolor, fanático, não quer nem saber da campanha POR UM BA X VI NA PRIMEIRA DIVISÃO. Ele quer mais é ver o elevador fazer o serviço completo e ver o Vitória amargar na segunda divisão.

Assim, torcedores cariocas e paulistas têm gritado sem a menor vergonha que seu time entregue para não ajudar o rival. São Paulo 'entregou' na semana passada para o Fluminense o que provavelmente fará também o Palmeiras hoje e também o Vasco contra o Corinthians para que as chances do Fluminense não aumentem.
Torcedores palmeirenses cantam que perder para o Fluminense não é mais do que obrigação.
Do ponto de vista do torcedor, eu entendo essa comoção, até porque participo dela. Mas, do ponto de vista da gestão do futebol, acho lamentável que um campeonato tão grande e importante acabe assim, nesse ENTREGA, ENTREGA sem fim, onde o valor da partida, momento maior da dramaturgia do futebol fica relegado ao mais baixo plano. A idéia dos pontos corridos parece poder evitar compra de árbitros, mas o que se tem visto é que essa certeza já não é tão grande. O risco de se comprar o juiz dos jogos finais só fez se expandir para outros jogos importantes. Como comentou Alam, apenas ampliou-se o mercado.
Esse erra-erra de juiz que tem uma cara danada de falcatrua não foi evitado, e ainda por cima, além de tirar a grande emoção de uma final de campeonato, relega as últimas rodadas a questões não mais esportivas ou estéticas, mas a questões éticas (lembrando que o futebol parece ter sua própria dimensão ética). O torcedor passa a torcer - e pedir - pela derrota do seu time - veja se isso não é uma distorção!
Acho que este modelo de campeonato deve ser repensado, até porque as coisas mudam muito rapidamente e se em algum momento este foi o melhor modelo, tenho certeza de que não é mais e de que isso que se esboça agora - em oposição a outros campeonatos onde o campeão era conhecido com várias rodadas de antecedência - só tende a aumentar nos anos seguintes.
O melhor modelo? Eu não sei, e acredito que ninguém sozinho o saiba. É preciso discutir, pensar e estudar um bom modelo que devolva a graça e a ética esportiva à final do maior campeonato do país do futebol.
É bolada, entregador!!!
ENTREGA!
A cantilena da final do campeonato brasileiro mostra que definitivamente a força do clube pra quem se torce é infinitamente maior do que a naturalidade deste torcedor. O que para leigos e desavisados poderia ser uma corrida para saber qual estado tem mais títulos nacionais, é na verdade uma união ao contrário. É a força da competitividade na construção da própria identidade.
Já podemos ver isso bem perto de nós. O torcedor tricolor, fanático, não quer nem saber da campanha POR UM BA X VI NA PRIMEIRA DIVISÃO. Ele quer mais é ver o elevador fazer o serviço completo e ver o Vitória amargar na segunda divisão.
Assim, torcedores cariocas e paulistas têm gritado sem a menor vergonha que seu time entregue para não ajudar o rival. São Paulo 'entregou' na semana passada para o Fluminense o que provavelmente fará também o Palmeiras hoje e também o Vasco contra o Corinthians para que as chances do Fluminense não aumentem.
Torcedores palmeirenses cantam que perder para o Fluminense não é mais do que obrigação.
Do ponto de vista do torcedor, eu entendo essa comoção, até porque participo dela. Mas, do ponto de vista da gestão do futebol, acho lamentável que um campeonato tão grande e importante acabe assim, nesse ENTREGA, ENTREGA sem fim, onde o valor da partida, momento maior da dramaturgia do futebol fica relegado ao mais baixo plano. A idéia dos pontos corridos parece poder evitar compra de árbitros, mas o que se tem visto é que essa certeza já não é tão grande. O risco de se comprar o juiz dos jogos finais só fez se expandir para outros jogos importantes. Como comentou Alam, apenas ampliou-se o mercado.
Esse erra-erra de juiz que tem uma cara danada de falcatrua não foi evitado, e ainda por cima, além de tirar a grande emoção de uma final de campeonato, relega as últimas rodadas a questões não mais esportivas ou estéticas, mas a questões éticas (lembrando que o futebol parece ter sua própria dimensão ética). O torcedor passa a torcer - e pedir - pela derrota do seu time - veja se isso não é uma distorção!
Acho que este modelo de campeonato deve ser repensado, até porque as coisas mudam muito rapidamente e se em algum momento este foi o melhor modelo, tenho certeza de que não é mais e de que isso que se esboça agora - em oposição a outros campeonatos onde o campeão era conhecido com várias rodadas de antecedência - só tende a aumentar nos anos seguintes.
O melhor modelo? Eu não sei, e acredito que ninguém sozinho o saiba. É preciso discutir, pensar e estudar um bom modelo que devolva a graça e a ética esportiva à final do maior campeonato do país do futebol.
É bolada, entregador!!!
sábado, 20 de novembro de 2010
20 de novembro e O negro no Futebol Brasileiro
Para não deixar passar em branco esta data importante, em que a rua foi tomada de trios elétricos, nossa indiscutível marca, por dois motivos distintos mas tão semelhantes: Um trio no Campo Grande conduzia a marcha e a festa da CONSCIÊNCIA NEGRA. Do outro lado da cidade, três trios animam a inacabável festa do acesso do Bahia, mesmo com a derrota de hoje.
Coinscidência? Não. Tenha certeza que não.
O texto abaixo deve ser lido e considerado em seu contexto, obviamente. Já lá se foram mais de 40 anos e a situação, o discurso, o contexto, tudo isso mudou. O que não faz do texto e do livro sobre o qual comenta, um importante documento histórico sobre essa história que se completa: a do negro e a do futebol brasileiro.
*******************************************************************************
A VEZ DO PRETO - Édison Carneiro - 1964 (Texto das Orelhas da 2ª edição do livro de Mário Filho)
Esta crônica viva, movimentada, alegre, de êxitos e insucessos, avanços e recuos, marchas e contramarchas do negro na batalha que travou por um lugar no futebol metropolitano exemplifica a extrema versatilidade com que, historicamente, o nosso irmão de pele escura vem conquisntando, em todos os terrenos, a igualdade com todos os brasileiros.
A batalha particular do negro é quase toda a história do futebol - e, afortunadamente para nós, as suas várias peripércias são narradas ppor um homem tão senhor do assunto como Mário Filho, um velho sportman que conhece de primeira mão grande parte do que relembra, restaura e revive. E podemos dizer, com ele, que ao menos no futebol, chegou 'a vez do preto', tão bem simbolizada no triunfo mundial de Pelé.
Quando o futebol começou a candidatar-se à preferência popular, faltavam ao negro dinheiro e posição social. Naqueles tempos, as regatas e as corridas de cavalos eram as diversões prediletas. Esporte era para ricos, para brancos, ou pelo menos, para pessoas de boa família. O futebol não excluiu, inicialmente, o negro, mas não lhe deu as mesmas regalias que ao branco. O negro se conformava, parecia conhecer o 'seu' lugar, e o branco podia assumir a confortável atitude de bom senhor em relação aos escravos dóceis e obedientes.
O paternalismo desse primeiro período não durou muito. O interesse do público aumentava cada dia - o futebol não dava camisa a ninguém mas dava renome e fama - o remo e o turfe passavam a segundo plano - e houve um recrudescimento do preconceito de cor. No espírito do tempo, os ominosos tempos em que o fascismo estava em ascenção no mundo, a Amea, uma liga local, e a CBD se lançaram a campanhas de 'arianização' do futebol, afastando dos times jogadores pretos e mulatos, então numerosos - conta Mário Filho - nos clubes do subúrbio Bangu, Andaraí, América, Vasco, São Cristóvão. Tão deliberada era essa atitude dos racistas do futebol que nem mesmo se importavam co o risco da derrota em partidas internacionais. A ofensiva segregacionista fez as suas baixas nas hostes de cor - feridos, estropiado, desertores. Alguns tentaram disfarças a cor - Friedenreich engomava o cabelo, houve um mulato que cobria o rosto com uma camada tão espessa de pó-de-arroz que acabou dando o famoso apelido ao Fluminense. Outros, mais seguros de si, como Robson, declaravam já terem sido pretos. Outros se envergonhavam e se deixavam subjulgar, como Manteiga, que aproveitou a primeira oportunidade para voltar à sua terra, a Bahia, ou Leônidas que, vilipendiado, se refugiou em São Paulo. Outros ainda se asilaram em times estrangeiros. Em geral, porém, o negro não se deu por vencido - e, no campo e na pelada, com paciência e obstinação desenvolveu a perícia que, logo que os tempo mudaram, em especial após algumas derrotas memoráveis em campos estrangeiros, lhe abriu de novo as portas do clube. O negro não recebia um favor - não se confiava mais na vondade e na tolerância do branco, estava seguro das suas próprias forças e possibilidades, estava preparado para competir com quem quer que fosse em igualdade de condições.
Tudo isto está contado, com as minúcias naturais a quem conheceu de perto os acontecimentos que narra, neste livro de Mário Filho, em que estão vivos, estuantes de vida, no acerto e no erro, nas suas debilidades e nas suas virtudes, Friendereich, Manteiga, Leônidas, Domingos da Guia, o técnico Gentil Cardoso, Zizinho, Jair, Jaime de Almeida, Didi, Pelé e tantos outros, negros e mulatos de ontem e de hoje que deram o que podiam à glória e ao esplendor do futebol brasileiro.
Édison Carneiro - Historiador e escritor
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É bolada, meu Nego.
Coinscidência? Não. Tenha certeza que não.
O texto abaixo deve ser lido e considerado em seu contexto, obviamente. Já lá se foram mais de 40 anos e a situação, o discurso, o contexto, tudo isso mudou. O que não faz do texto e do livro sobre o qual comenta, um importante documento histórico sobre essa história que se completa: a do negro e a do futebol brasileiro.
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A VEZ DO PRETO - Édison Carneiro - 1964 (Texto das Orelhas da 2ª edição do livro de Mário Filho)
Esta crônica viva, movimentada, alegre, de êxitos e insucessos, avanços e recuos, marchas e contramarchas do negro na batalha que travou por um lugar no futebol metropolitano exemplifica a extrema versatilidade com que, historicamente, o nosso irmão de pele escura vem conquisntando, em todos os terrenos, a igualdade com todos os brasileiros.
A batalha particular do negro é quase toda a história do futebol - e, afortunadamente para nós, as suas várias peripércias são narradas ppor um homem tão senhor do assunto como Mário Filho, um velho sportman que conhece de primeira mão grande parte do que relembra, restaura e revive. E podemos dizer, com ele, que ao menos no futebol, chegou 'a vez do preto', tão bem simbolizada no triunfo mundial de Pelé.
Quando o futebol começou a candidatar-se à preferência popular, faltavam ao negro dinheiro e posição social. Naqueles tempos, as regatas e as corridas de cavalos eram as diversões prediletas. Esporte era para ricos, para brancos, ou pelo menos, para pessoas de boa família. O futebol não excluiu, inicialmente, o negro, mas não lhe deu as mesmas regalias que ao branco. O negro se conformava, parecia conhecer o 'seu' lugar, e o branco podia assumir a confortável atitude de bom senhor em relação aos escravos dóceis e obedientes.
O paternalismo desse primeiro período não durou muito. O interesse do público aumentava cada dia - o futebol não dava camisa a ninguém mas dava renome e fama - o remo e o turfe passavam a segundo plano - e houve um recrudescimento do preconceito de cor. No espírito do tempo, os ominosos tempos em que o fascismo estava em ascenção no mundo, a Amea, uma liga local, e a CBD se lançaram a campanhas de 'arianização' do futebol, afastando dos times jogadores pretos e mulatos, então numerosos - conta Mário Filho - nos clubes do subúrbio Bangu, Andaraí, América, Vasco, São Cristóvão. Tão deliberada era essa atitude dos racistas do futebol que nem mesmo se importavam co o risco da derrota em partidas internacionais. A ofensiva segregacionista fez as suas baixas nas hostes de cor - feridos, estropiado, desertores. Alguns tentaram disfarças a cor - Friedenreich engomava o cabelo, houve um mulato que cobria o rosto com uma camada tão espessa de pó-de-arroz que acabou dando o famoso apelido ao Fluminense. Outros, mais seguros de si, como Robson, declaravam já terem sido pretos. Outros se envergonhavam e se deixavam subjulgar, como Manteiga, que aproveitou a primeira oportunidade para voltar à sua terra, a Bahia, ou Leônidas que, vilipendiado, se refugiou em São Paulo. Outros ainda se asilaram em times estrangeiros. Em geral, porém, o negro não se deu por vencido - e, no campo e na pelada, com paciência e obstinação desenvolveu a perícia que, logo que os tempo mudaram, em especial após algumas derrotas memoráveis em campos estrangeiros, lhe abriu de novo as portas do clube. O negro não recebia um favor - não se confiava mais na vondade e na tolerância do branco, estava seguro das suas próprias forças e possibilidades, estava preparado para competir com quem quer que fosse em igualdade de condições.
Tudo isto está contado, com as minúcias naturais a quem conheceu de perto os acontecimentos que narra, neste livro de Mário Filho, em que estão vivos, estuantes de vida, no acerto e no erro, nas suas debilidades e nas suas virtudes, Friendereich, Manteiga, Leônidas, Domingos da Guia, o técnico Gentil Cardoso, Zizinho, Jair, Jaime de Almeida, Didi, Pelé e tantos outros, negros e mulatos de ontem e de hoje que deram o que podiam à glória e ao esplendor do futebol brasileiro.
Édison Carneiro - Historiador e escritor
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É bolada, meu Nego.
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domingo, 31 de outubro de 2010
ENFIM, A ALEGRIA E A ESPERANÇA!!!
CAROS LEITORES.
É a vitória dos artistas, professores, intelectuais, blogueiros, tuiteiros, ativistas sociais que no momento mais difícil da campanha, arregaçaram a manga e partiram para a batalha.
É a vitória do PT, um partido que apesar de suas contradições e de sua banda podre, não pode se reduzir a isso, muito ao contrário, deve ser livrar destes falsos petistas e devolver a dignidade que é seu maior patrimônio.
É a vitória da mulher, que agora mais do que nunca vai seguir lutando pelos seus direitos, por novas conquistas e por mais humanidade na vida pública.
O discurso de Dilma me emocionou muito, mesmo que por motivos diferentes do que o discuros de Lula em suas duas outras vitórias. Não espero que ela seja um novo, Lula. Espero que ela seja plenamente Dilma. Braços forte, porque para uma mulher chegar a onde ela chegou, com certeza ela teve que lutar duas vezes mais do que um homem teria precisado.
Sinto que será um belo governo, diferente do de Lula, sim, mas um governo tão bom quanto, a seu modo.
A emoção agora, até janeiro, será a despedida de nosso grande Presidente, que mudou a cara deste país.
HOJE ESTOU MUITO FELIZ. NÃO POR ACASO A ESPERANÇA VENCE O MEDO.
Há uma semana fui vítima de uma grande violência, mas hoje, posso dizer que estou mais calma e esperançosa. Espero que muito em breve as pessoas não precisem entrar na casa dos outros para roubar-lhes o que conquistaram tão duramente. Espero que pessoas como a que entrou em minha casa, possam encontrar um caminho diferente deste e que nenhum de nós dois tenha que passar por uma situação de medo como foi para mim e como deve ter sido para ele.
Que todos nós, tenhamos o mais breve possível, o direito de termos nosso próprio dinheiro para que possamos garantir nossas necessidades básicas, nosso lazer, nossos prazeres.
Meu Ronaldo - como era chamado meu notebook, conhecido por todos os meus amigos - foi com o ladrão. Ficou uma tristeza, o medo, um vazio besta. Diria até que uma saudade... Enfim, cada um com suas loucuras.
Escrever sobre sua vitória é escrever sobre a vitória de uma geração que lutou bravamente contra uma ditadura cruel e sanguinária. A vitória de uma classe social que se impôs e disse NÃO à Globo e seu jogo sujo. Que respondeu muito claramente, dizendo: EU ASSISTO ÀS SUAS NOVELAS MAS NÃO COMPRO SEU DISCURSO.
É a vitória dos artistas, professores, intelectuais, blogueiros, tuiteiros, ativistas sociais que no momento mais difícil da campanha, arregaçaram a manga e partiram para a batalha.
É a vitória do PT, um partido que apesar de suas contradições e de sua banda podre, não pode se reduzir a isso, muito ao contrário, deve ser livrar destes falsos petistas e devolver a dignidade que é seu maior patrimônio.
É a vitória da mulher, que agora mais do que nunca vai seguir lutando pelos seus direitos, por novas conquistas e por mais humanidade na vida pública.
O discurso de Dilma me emocionou muito, mesmo que por motivos diferentes do que o discuros de Lula em suas duas outras vitórias. Não espero que ela seja um novo, Lula. Espero que ela seja plenamente Dilma. Braços forte, porque para uma mulher chegar a onde ela chegou, com certeza ela teve que lutar duas vezes mais do que um homem teria precisado.
Sinto que será um belo governo, diferente do de Lula, sim, mas um governo tão bom quanto, a seu modo.
A emoção agora, até janeiro, será a despedida de nosso grande Presidente, que mudou a cara deste país.
HOJE ESTOU MUITO FELIZ. NÃO POR ACASO A ESPERANÇA VENCE O MEDO.
Há uma semana fui vítima de uma grande violência, mas hoje, posso dizer que estou mais calma e esperançosa. Espero que muito em breve as pessoas não precisem entrar na casa dos outros para roubar-lhes o que conquistaram tão duramente. Espero que pessoas como a que entrou em minha casa, possam encontrar um caminho diferente deste e que nenhum de nós dois tenha que passar por uma situação de medo como foi para mim e como deve ter sido para ele.
Que todos nós, tenhamos o mais breve possível, o direito de termos nosso próprio dinheiro para que possamos garantir nossas necessidades básicas, nosso lazer, nossos prazeres.
Meu Ronaldo - como era chamado meu notebook, conhecido por todos os meus amigos - foi com o ladrão. Ficou uma tristeza, o medo, um vazio besta. Diria até que uma saudade... Enfim, cada um com suas loucuras.
Mas, hoje é dia de alegria.
Hoje é dia da Vitória (Amanhã é dia do Bahia!!!)
VAMOS EM FRENTE, MINHA PRESIDENTA! EU TENHO ORGULHO DE NOSSA VITÓRIA!!!
É BOLADA, ELEITOR. OU MELHOR: É GOL!
É BOLADA, ELEITOR. OU MELHOR: É GOL!
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
A psicologia de massa do fascismo à brasileira
A psicologia de massa do fascismo à brasileira
Enviado por luisnassif, qua, 13/10/2010 - 23:15
Há tempos alerto para a campanha de ódio que o pacto mídia-FHC estava plantando no jogo político brasileiro.
O momento é dos mais delicados. O país passa por profundos processos de transformação, com a entrada de milhões de pessoas no mercado de consumo e político. Pela primeira vez na história, abre-se espaço para um mercado de consumo de massa capaz de lançar o país na primeira divisão da economia mundial
Esses movimentos foram essenciais na construção de outras nações, mas sempre vieram acompanhados de tensões, conflitos, entre os que emergem buscando espaço, e os já estabelecidos impondo resistências.
Em outros países, essas tensões descambaram para guerras, como a da Secessão norte-americana, ou para movimentos totalitários, como o fascismo nos anos 20 na Europa.
Nos últimos anos, parecia que Lula completaria a travessia para o novo modelo reduzindo substancialmente os atritos. O reconhecimento do exterior ajudou a aplainar o pesado preconceito da classe média acuada. A estratégia política de juntar todas as peças – de multinacionais a pequenas empresas, do agronegócio à agricultura familiar, do mercado aos movimentos sociais – permitiu uma síntese admirável do novo país. O terrorismo midiático, levantando fantasmas com o MST, Bolívia, Venezuela, Cuba e outras bobagens, não passava de jogo de cena, no qual nem a própria mídia acreditava.
À falta de um projeto de país, esgotado o modelo no qual se escudou, FHC – seguido por seu discípulo José Serra – passou a apostar tudo na radicalização. Ajudou a referendar a idéia da república sindicalista, a espalhar rumores sobre tendências totalitárias de Lula, mesmo sabendo que tais temores eram infundados.
Em ambientes mais sérios do que nas entrevistas políticas aos jornais, o sociólogo FHC não endossava as afirmações irresponsáveis do político FHC.
Mas as sementes do ódio frutificaram. E agora explodem em sua plenitude, misturando a exploração dos preconceitos da classe média com o da religiosidade das classes mais simples de um candidato que, por muitos anos, parecia ser a encarnação do Brasil moderno e hoje representa o oportunismo mais deslavado da moderna história política brasileira.
O fascismo à brasileira
Se alguém pretende desenvolver alguma tese nova sobre a psicologia de massa do fascismo, no Brasil, aproveite. Nessas eleições, o clima que envolve algumas camadas da sociedade é o laboratório mais completo – e com acompanhamento online - de como é possível inculcar ódio, superstição e intolerância em classes sociais das mais variadas no Brasil urbano – supostamente o lado moderno da sociedade.
Dia desses, um pai relatou um caso de bullying com a filha, quando se declarou a favor de Dilma.
Em São Paulo esse clima está generalizado. Nos contatos com familiares, nesses feriados, recebi relatos de um sentimento difuso de ódio no ar como há muito tempo não se via, provavelmente nem na campanha do impeachment de Collor, talvez apenas em 1964, período em que amigos dedavam amigos e os piores sentimentos vinham à tona, da pequena cidade do interior à grande metrópole.
Agora, esse ódio não está poupando nenhum setor. É figadal, ostensivo, irracional, não se curvando a argumentos ou ponderações.
Minhas filhas menores freqüentam uma escola liberal, que estimula a tolerância em todos os níveis. Os relatos que me trazem é que qualquer opinião que não seja contra Dilma provoca o isolamento da colega. Outro pai de aluna do Vera Cruz me diz que as coleguinhas afirmam no recreio que Dilma é assassina.
Na empresa em que trabalha outra filha, toda a média gerência é furiosamente anti-Dilma. No primeiro turno, ela anunciou seu voto em Marina e foi cercada por colegas indignados. O mesmo ocorre no ambiente de trabalho de outra filha.
No domingo fui visitar uma tia na Vila Maria. O mesmo sentimento dos antidilmistas, virulento, agressivo, intimidador. Um amigo banqueiro ficou surpreso ao entrar no seu banco, na segunda, é captar as reações dos funcionários ao debate da Band.
A construção do ódio
Na base do ódio um trabalho da mídia de massa de martelar diariamente a história das duas caras, a guerrilha, o terrorismo, a ameaça de que sem Lula ela entregaria o país ao demonizado José Dirceu. Depois, o episódio da Erenice abrindo as comportas do que foi plantado.
Os desdobramentos são imprevisíveis e transcendem o processo eleitoral. A irresponsabilidade da mídia de massa e de um candidato de uma ambição sem limites conseguiu introjetar na sociedade brasileira uma intolerância que, em outros tempos, se resolvia com golpes de Estado. Agora, não, mas será um veneno violento que afetará o jogo político posterior, seja quem for o vencedor.
Que país sairá dessas eleições?, até desanima imaginar.
Mas demonstra cabalmente as dificuldades embutidas em qualquer espasmo de modernização brasileira, explica as raízes do subdesenvolvimento, a resistência história a qualquer processo de modernização. Não é a herança portuguesa. É a escassez de homens públicos de fôlego com responsabilidade institucional sobre o país. É a comprovação de porque o país sempre ficou para trás, abortou seus melhores momentos de modernização, apequenou-se nos momentos cruciais, cedendo a um vale-tudo sem projeto, uma guerra sem honra.
Seria interessante que o maior especialista da era da Internet, o espanhol Manuel Castells, em uma próxima vinda ao Brasil, convidado por seu amigo Fernando Henrique Cardoso, possa escapar da programação do Instituto FHC para entender um pouco melhor a irresponsabilidade, o egocentrismo absurdo que levou um ex-presidente a abrir mão da biografia por um último espasmo de poder. Sem se importar com o preço que o país poderia pagar.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
O que fizemos no passado? O que estamos fazendo agora? O que estamos prestes a fazer?
Entramos numa bela de uma enrascada neste segundo turno. A estupidez e a vergonha estão crescendo e confiantes na vitória. O grupo da Tv globo, veja, folha e afins deve estar comemorando com muita champagne e caviar por terem conseguido fazer esta sujeira que estão fazendo. O que era para ser um debate produtivo de idéias diretas, como queriam alguns, virou um jogo sujo envolvendo religião, sexo, comportamentos pessoais, manipulação de imagens e informações e sobretudo uma chuva de mentiras.
É lamentável o que podemos estar por viver. A vitória da sujeira, da mentira e da canalhice. Eu não posso acreditar que vamos nos deixar abater dessa forma. Eu que acreditava que estávamos indo tão bem em termos de consciência e de liberdade de pensamento. Ledo engano. Vejo que, novamente, opostos votam igual. Vejo que intelectuais se aliam - ainda que não assumidamente pelos mesmos motivos - aos burgueses estúpidos e escravocratas da grande mídia, à classe alta que odeia pobre e quer mais que esse povinho se esconda na periferia.
Eu custo a acreditar que nós professores, estudantes universitários e de pós graduação, que artistas, militantes, agentes sociais não vamos nos unir para barrarmos o crescimento do PSDB. Eu não posso acreditar que estamos entrando nesta enrascada, por termos provocado um segundo turno que só se mostrou podre e sujo, porque o partido podre e sujo assim deu as cartas e por mais que Dilma tente, não consiga fugir deste lamaçal onde nos atiraram.
Precisamos nos unir antes que seja tarde.
O Brasil não pode parar nas mãos do PSDB novamente. Não pode, simplesmente não pode e cabe a cada um de nós fazermos nossa parte.
É hora de quem pensa este país numa perspectiva libertária e plural se unir para barrar o crescimento da candidatura de Serra. A pesquisa mostra que 70% dos ricos estão com Serra. Isso não pode ser ignorado. Empregado não pode votar no mesmo candidato do patrãos. Eles querem coisas diferentes para o país.
A pesquisa mostra ainda que a difamação fez aumentar os níveis de rejeição a Dilma. Mostra que os eleitores de Dilma são em sua maioria homens, o que é de se espantar muito.
Agora que Serra colocou Dilma em mal estar com a comunidade LGBT vem se dizer favorável à união de gays. Você acredita nisso? O modelo de campanha deles é botar Dilma contra todos e ele se aliar a todos. Evangélicos, católicos, ateus, gregos e baianos...
Vamos deixar o marketing sujo (se isso não for um pleonasmos, ai ai...) colocar nossa vitória a perder? Levamos 16 anos para colocar Lula no poder. Não desistimos, mesmo com tantos golpes. A democracia é um bebê e precisa de cuidados. Não podemos cochilar. A cada cochilo pequenas conquistas nos são roubadas. Fiquemos atentos. Precisamos trabalhar.
EU NÃO QUERO SERRA PRESIDENTE! O BRASIL NÃO PODE VOLTAR PARA AS MÃOS DO PSDB. PRECISAMOS NOS UNIR NUM MOVIMENTO INTELIGENTE E ENSURDECEDOR. PRECISAMOS SAIR DA DISCUSSÃO E PARTIRMOS PARA A BRIGA.
BLUSAS, BOTONS, CARTAZES E BANDEIRAS. PRECISAMOS MOSTRAR QUEM SOMOS E DO QUE SOMOS CAPAZES. PRECISAMOS MOSTRAR QUE ESTAMOS UNIDOS POR UM PAÍS LIVRE E JUSTO QUE AOS TRANCOS E BARRANCOS TEM CONSEGUIDO SE ORGANIZAR.
PT DA BAHIA, PT DO BRASIL, PRECISAMOS DE EVENTOS NA RUA PARA MOSTRARMOS QUANTO SOMOS, PARA NOS CONHECERMOS, PARA MOSTRAR QUE NÃO ESTAMOS PARADOS E NÃO VAMOS NOS INTIMIDAR POR ESTE JOGO SUJO. NÓS PODEMOS ATÉ NÃO SABER DIREITO O QUE QUEREMOS, MAS O QUE NÃO QUEREMOS NÓS SABEMOS: NÃO QUEREMOS PSDB NO PODER.
Adriana Amorim
Professora, atriz, mãe.
É lamentável o que podemos estar por viver. A vitória da sujeira, da mentira e da canalhice. Eu não posso acreditar que vamos nos deixar abater dessa forma. Eu que acreditava que estávamos indo tão bem em termos de consciência e de liberdade de pensamento. Ledo engano. Vejo que, novamente, opostos votam igual. Vejo que intelectuais se aliam - ainda que não assumidamente pelos mesmos motivos - aos burgueses estúpidos e escravocratas da grande mídia, à classe alta que odeia pobre e quer mais que esse povinho se esconda na periferia.
Eu custo a acreditar que nós professores, estudantes universitários e de pós graduação, que artistas, militantes, agentes sociais não vamos nos unir para barrarmos o crescimento do PSDB. Eu não posso acreditar que estamos entrando nesta enrascada, por termos provocado um segundo turno que só se mostrou podre e sujo, porque o partido podre e sujo assim deu as cartas e por mais que Dilma tente, não consiga fugir deste lamaçal onde nos atiraram.
Precisamos nos unir antes que seja tarde.
O Brasil não pode parar nas mãos do PSDB novamente. Não pode, simplesmente não pode e cabe a cada um de nós fazermos nossa parte.
É hora de quem pensa este país numa perspectiva libertária e plural se unir para barrar o crescimento da candidatura de Serra. A pesquisa mostra que 70% dos ricos estão com Serra. Isso não pode ser ignorado. Empregado não pode votar no mesmo candidato do patrãos. Eles querem coisas diferentes para o país.
A pesquisa mostra ainda que a difamação fez aumentar os níveis de rejeição a Dilma. Mostra que os eleitores de Dilma são em sua maioria homens, o que é de se espantar muito.
Agora que Serra colocou Dilma em mal estar com a comunidade LGBT vem se dizer favorável à união de gays. Você acredita nisso? O modelo de campanha deles é botar Dilma contra todos e ele se aliar a todos. Evangélicos, católicos, ateus, gregos e baianos...
Vamos deixar o marketing sujo (se isso não for um pleonasmos, ai ai...) colocar nossa vitória a perder? Levamos 16 anos para colocar Lula no poder. Não desistimos, mesmo com tantos golpes. A democracia é um bebê e precisa de cuidados. Não podemos cochilar. A cada cochilo pequenas conquistas nos são roubadas. Fiquemos atentos. Precisamos trabalhar.
EU NÃO QUERO SERRA PRESIDENTE! O BRASIL NÃO PODE VOLTAR PARA AS MÃOS DO PSDB. PRECISAMOS NOS UNIR NUM MOVIMENTO INTELIGENTE E ENSURDECEDOR. PRECISAMOS SAIR DA DISCUSSÃO E PARTIRMOS PARA A BRIGA.
BLUSAS, BOTONS, CARTAZES E BANDEIRAS. PRECISAMOS MOSTRAR QUEM SOMOS E DO QUE SOMOS CAPAZES. PRECISAMOS MOSTRAR QUE ESTAMOS UNIDOS POR UM PAÍS LIVRE E JUSTO QUE AOS TRANCOS E BARRANCOS TEM CONSEGUIDO SE ORGANIZAR.
PT DA BAHIA, PT DO BRASIL, PRECISAMOS DE EVENTOS NA RUA PARA MOSTRARMOS QUANTO SOMOS, PARA NOS CONHECERMOS, PARA MOSTRAR QUE NÃO ESTAMOS PARADOS E NÃO VAMOS NOS INTIMIDAR POR ESTE JOGO SUJO. NÓS PODEMOS ATÉ NÃO SABER DIREITO O QUE QUEREMOS, MAS O QUE NÃO QUEREMOS NÓS SABEMOS: NÃO QUEREMOS PSDB NO PODER.
Adriana Amorim
Professora, atriz, mãe.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
TIRIRICA E O VASCO DE 1923 - QUALQUER SEMELHANÇA, NÃO É MERA COINCIDÊNCIA, É PURA REINCIDÊNCIA
Na década de 20, no mundo do futebol o assunto era não só a presença dos negros no futebol brasileiro, mas também a qualidade do futebol jogado por eles. No começo da década, por mais que a superioridade dos jogadores negros fosse uma realidade, ainda se responsabilizava os jogadores de cor por qualquer derrota que por acaso seu clube viesse a sofrer.
Não era apenas uma questão de etnia - ou cor, ou raça, como se tratava à epoca - era também uma questão de classes. Pobres e ricos. Mas, um time quebrou algumas regras e colocou - pela qualidade de seus jogadores - o negro dentro dos campos. Acompanhem trechos do livro de Mário Filho, O Negro no Futebol Brasileiro, uma pérola da nossa bibliografia nacional, editada pela primeira vez em 1947. Com a palavra: Mário Filho:
"Na hora de assinar a súmula, via-se logo a diferença. Os acadêmicos de medicina do Flamengo, escrevendo o nome depressa, os operários do Carioca levando toda a vida para garajutar o nome. Alguns suando frio, tremendo, achando que nunca seriam capazes de assinar o nome na frente de todo mundo. E tinham assinado o nome mais de mil vezes, de sexta a domingo, cobrindo as letras. Cada clube pequeno arranjava um professor. Só para isso, para ensinar jogador de futebol a assinar o nome.
Se ele errasse na súmula estava tudo perdido. o clube perdia os pontos, a Liga era capaz de chamá-lo para um examezinho. De be-a-bá. Dando uma cartilha para ele ler. Havia jogador que não aprendia a assinar o nome de jeito nenhum. Parecia que tinha aprendido, na hora esquecia, o clube precisava arranjar outro para entrar em campo.
Pascoal Cinelli, por exemplo, passou a ser Pascoal Silva. Um nome mais simples para aprender a assinar. Para ver a importância de saber assinar o nome. Importância que se exagerou pelo culto ao estudante. Havia, naturalmente, uma razão para esse culto. O Flamengo levantou dois campeonatos seguidos, o de 1914 e o de 1915, com um time quase de acadêmicos de medicina. Outros grandes clubes, o Fluminense, o América, o Botafogo, tinham estudantes, mas não assim nessa proporção esmagadora. Nove acadêmicos de medicina e um de direito no time. Quanto mais estudantes, melhor. O que parecia provar que só estudante é que tinha que jogar."
"Um clube da segunda divisão, porém, subiu para a primeira divisão. Chamava-se Clube de Regatas Vasco da Gama, e trouxe com ele, mulatos e pretos. (...) Ninguém ligou importância à ida do Vasco para a primeira divisão. Que é que podia fazer um clube de segunda divisão contra um América,c ampeão do Centenário, contra um Flamengo, bicampeão, contra um Fluminense, tricampeão?
O Vasco que botasse quantos mulatos, quantos pretos quisesse no time. Tudo continuaria como dantes, os brancos levantando os campeonatos, os mulatos e os pretos nos seus lugares, nos clubes pequenos.
Mas, quanto mais o Vasco vencia, mais os campos enchiam. Até o estádio do Fluminense ficou pequeno. Gente que nunca tinha assistido a uma partida de futebol deu para comprar a sua arquibancada. Tudo português, o português se julgando obrigado a ir para onde o Vasco ia.
Tornou-se quase uma questão nacional derrotar o Vasco. Os pobres das peladas e dos clubes pequenos brancos, mulatos e pretos dando nos times dos grandes clubes, só de brancos, de gente fina, de sociedade. Muitos sem saber ler nem escrever, mal assinando o nome, sem emprego, sem nada. O time da mistura estava na frente do campeonato, sem uma derrota. tinha de perder, pelo menos uma vez, de qulalquer maneira. O Flamengo não se preparara durante a semana para outra coisa. Treinando o dia todo, dormindo cedo, pondo a garagem em pé de guerra. Quando o jogo começou o Flamengo tomou conta do campo, da arquibancada, da geral, de tudo. Flamengo um a zero, pás de remo embrulhadas em Jornal do Brasil batendo nas cabeças dos vascaínos. Flamengo dois a zero, e novamente as pás de remo subindo e descendo. Quem era do Vasco não tinha direito de abrir a boca.
O Flamengo deixara de ser um clube, um time, era todos os clubes, todos os times, o futebol brasileiro, branquinho de boa famíllia. Tudo estava nos eixos novamente. O pessoal do Vasco quieto, esperando a virada. O primeiro milho era dos pintos. O Flamengo esperasse para ver uma coisa. Às vezes, o Vasco estava apanhando de três a zero, virava,ia ganhar o jogo de quatro,cinco.
Foi começando o segundo tempo, gol do Vasco. E os vascaínos sem poder gritar gol. Um gritozinho, uma pá de remo na cabeça. Só se gritava Flamengo, o Flamengo acabou fazendo mais um gol. Não havia rádio e, apesar de não haver rádio, toda a cidade soube, quase no mesmo instante que o Vasco tinha perdido. Foi um segundo carnaval.
E durante muitos dias casa comerciais de portugueses penduraram um carttaz atrás do balcão que dizia assim:
Veio outra semana, o Vasco continuou a vencer, não perdeu mais até o fim do campeonato. A vitória do Flamengo tinha dado a ilusão de que tudo ia voltar a ser o que era dantes: os times brancos levando campeonatos, os times de preto perdendo sempre. A ilusão durou pouco, os clubes finos, de sociedade, estavam diante de umf ato consumado. Não se ganhava campeonato só com times de brancos. Um time de brancos, mulatos e pretos era o campeão da cidade. Era uma verdadeira revolução que se operava no futebol brasileiro. Restava saber qual seria a reação do grandes clubes.
A reação foi tremenda. Em 1924 nascia a AMEA, uma liga de grandes clubes, sem o Vasco."
Essa liga criou regras inacreditáveis para fazer com que os jogadores pobres e negros do Vasco não pudesesm atuar. Era obrigado a trabalhar, as fábricas eram vigiadas para ver se os jogadores estavam trabalhando. Era a fase do futebol amador. era obrigatório estudar. Criou-se a terrível prova do Ba-a-bá. Essa mesma, Deputado Tirirca. Assunte;
"Acabara-se o tempo de o jogador só precisar saber assinar o nome na súmula. Se não soubesse escrever e ler corretamente e na presença de alguém assim como o presidente da liga estava cortado.
Um pouco antes do jogo, o juiz chamava os jogadores, um por um, o jogador assinava a súmula e pronto. Mas a Liga foi exigindo mais. A papeleta de inscrições tornou-se quase um exame de primeiras letras. Um aporção de perguntas. Nome por extenso, filiação, nacionalidade, naturalidade, dia em que nasceu, onde trabalha, onde estuda, etc, etc.
Muito jogador que sabia assinar o nome se pertubava. Bastou Leitão ir para o Vasco e teve que assinar a pepeleta de inscrição na frente de Célio Barros, então presidente da Liga Metropolitana. Célio de Barros não tirava os olhos de cima de Leitão. Leitão suando frio, parecia que não ia acabar nunca de encher a papeleta."
Mário Filho - O negro no Futebol Brasileiro.
Pouco a dizer depois de um exemplo tão eficaz do que temos feito ao longo desses quase cem anos, com os pobres, negros e analfabetos do nosso país.
Se não conseguiram impugnar a candidatura de Tiririca, não venham agora cassar sua eleição. Como ir contra a expressão de 1.300.000 pessoas que seja lá porque motivo foi, elegeram Tiririca com essa marca histórica. Parafraseando Daniel Marques: "roubar de gravata, paletó e diploma pode? Analfabeto, não?"
Não sei se ele vai roubar, não sei o que ele mesmo vai fazer lá (nem ele sabe...) mas que sua presença é genial em termos de provocações para nossa política e ainda em termo de performatividade, de expressividade, eu não tenho a menor dúvida.
A candidatura de Tiririca já foi um das maiores PERFORMANCES desse começo de década. Seu mandato não deve ser diferente. Ele faz o que o palhaço faz de melhor: ele assume e escancara o ridículo da situação. Vamos ver o que vai ser esta presença no Congresso. Quem sabe não é essa nossa salvação?
Leia também: http://correiodobrasil.com.br/somos-todos-palhacos-tiririca/184551/
Assine o abaixo assinado: http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/abaixoassinado/7167/1
É bolada, eleitor!
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Não era apenas uma questão de etnia - ou cor, ou raça, como se tratava à epoca - era também uma questão de classes. Pobres e ricos. Mas, um time quebrou algumas regras e colocou - pela qualidade de seus jogadores - o negro dentro dos campos. Acompanhem trechos do livro de Mário Filho, O Negro no Futebol Brasileiro, uma pérola da nossa bibliografia nacional, editada pela primeira vez em 1947. Com a palavra: Mário Filho:
"Na hora de assinar a súmula, via-se logo a diferença. Os acadêmicos de medicina do Flamengo, escrevendo o nome depressa, os operários do Carioca levando toda a vida para garajutar o nome. Alguns suando frio, tremendo, achando que nunca seriam capazes de assinar o nome na frente de todo mundo. E tinham assinado o nome mais de mil vezes, de sexta a domingo, cobrindo as letras. Cada clube pequeno arranjava um professor. Só para isso, para ensinar jogador de futebol a assinar o nome.
Se ele errasse na súmula estava tudo perdido. o clube perdia os pontos, a Liga era capaz de chamá-lo para um examezinho. De be-a-bá. Dando uma cartilha para ele ler. Havia jogador que não aprendia a assinar o nome de jeito nenhum. Parecia que tinha aprendido, na hora esquecia, o clube precisava arranjar outro para entrar em campo.
Pascoal Cinelli, por exemplo, passou a ser Pascoal Silva. Um nome mais simples para aprender a assinar. Para ver a importância de saber assinar o nome. Importância que se exagerou pelo culto ao estudante. Havia, naturalmente, uma razão para esse culto. O Flamengo levantou dois campeonatos seguidos, o de 1914 e o de 1915, com um time quase de acadêmicos de medicina. Outros grandes clubes, o Fluminense, o América, o Botafogo, tinham estudantes, mas não assim nessa proporção esmagadora. Nove acadêmicos de medicina e um de direito no time. Quanto mais estudantes, melhor. O que parecia provar que só estudante é que tinha que jogar."
E nesse modelo, o torneio carioca vai seguindo. Os grandes times unidos, criando cada vez mais dificuldade para os jogadores negros, pobres e analfabetos jogarem, criando as estratégias mais absurdas. Os grandes times, ainda com poucos destes jogadores. Os times da segunda divisão, com maior liberdade e mais negros em seu escrete, continuavam assim: pequenos e de segunda divisão. Acontece que um time de negros e pobres fugiu à regra:
"Um clube da segunda divisão, porém, subiu para a primeira divisão. Chamava-se Clube de Regatas Vasco da Gama, e trouxe com ele, mulatos e pretos. (...) Ninguém ligou importância à ida do Vasco para a primeira divisão. Que é que podia fazer um clube de segunda divisão contra um América,c ampeão do Centenário, contra um Flamengo, bicampeão, contra um Fluminense, tricampeão?
O Vasco que botasse quantos mulatos, quantos pretos quisesse no time. Tudo continuaria como dantes, os brancos levantando os campeonatos, os mulatos e os pretos nos seus lugares, nos clubes pequenos.
Mas, quanto mais o Vasco vencia, mais os campos enchiam. Até o estádio do Fluminense ficou pequeno. Gente que nunca tinha assistido a uma partida de futebol deu para comprar a sua arquibancada. Tudo português, o português se julgando obrigado a ir para onde o Vasco ia.
Tornou-se quase uma questão nacional derrotar o Vasco. Os pobres das peladas e dos clubes pequenos brancos, mulatos e pretos dando nos times dos grandes clubes, só de brancos, de gente fina, de sociedade. Muitos sem saber ler nem escrever, mal assinando o nome, sem emprego, sem nada. O time da mistura estava na frente do campeonato, sem uma derrota. tinha de perder, pelo menos uma vez, de qulalquer maneira. O Flamengo não se preparara durante a semana para outra coisa. Treinando o dia todo, dormindo cedo, pondo a garagem em pé de guerra. Quando o jogo começou o Flamengo tomou conta do campo, da arquibancada, da geral, de tudo. Flamengo um a zero, pás de remo embrulhadas em Jornal do Brasil batendo nas cabeças dos vascaínos. Flamengo dois a zero, e novamente as pás de remo subindo e descendo. Quem era do Vasco não tinha direito de abrir a boca.
O Flamengo deixara de ser um clube, um time, era todos os clubes, todos os times, o futebol brasileiro, branquinho de boa famíllia. Tudo estava nos eixos novamente. O pessoal do Vasco quieto, esperando a virada. O primeiro milho era dos pintos. O Flamengo esperasse para ver uma coisa. Às vezes, o Vasco estava apanhando de três a zero, virava,ia ganhar o jogo de quatro,cinco.
Foi começando o segundo tempo, gol do Vasco. E os vascaínos sem poder gritar gol. Um gritozinho, uma pá de remo na cabeça. Só se gritava Flamengo, o Flamengo acabou fazendo mais um gol. Não havia rádio e, apesar de não haver rádio, toda a cidade soube, quase no mesmo instante que o Vasco tinha perdido. Foi um segundo carnaval.
E durante muitos dias casa comerciais de portugueses penduraram um carttaz atrás do balcão que dizia assim:
'É PROIBIDO FALAR EM FUTEBOL'!
Veio outra semana, o Vasco continuou a vencer, não perdeu mais até o fim do campeonato. A vitória do Flamengo tinha dado a ilusão de que tudo ia voltar a ser o que era dantes: os times brancos levando campeonatos, os times de preto perdendo sempre. A ilusão durou pouco, os clubes finos, de sociedade, estavam diante de umf ato consumado. Não se ganhava campeonato só com times de brancos. Um time de brancos, mulatos e pretos era o campeão da cidade. Era uma verdadeira revolução que se operava no futebol brasileiro. Restava saber qual seria a reação do grandes clubes.
A reação foi tremenda. Em 1924 nascia a AMEA, uma liga de grandes clubes, sem o Vasco."
Essa liga criou regras inacreditáveis para fazer com que os jogadores pobres e negros do Vasco não pudesesm atuar. Era obrigado a trabalhar, as fábricas eram vigiadas para ver se os jogadores estavam trabalhando. Era a fase do futebol amador. era obrigatório estudar. Criou-se a terrível prova do Ba-a-bá. Essa mesma, Deputado Tirirca. Assunte;
"Acabara-se o tempo de o jogador só precisar saber assinar o nome na súmula. Se não soubesse escrever e ler corretamente e na presença de alguém assim como o presidente da liga estava cortado.
Um pouco antes do jogo, o juiz chamava os jogadores, um por um, o jogador assinava a súmula e pronto. Mas a Liga foi exigindo mais. A papeleta de inscrições tornou-se quase um exame de primeiras letras. Um aporção de perguntas. Nome por extenso, filiação, nacionalidade, naturalidade, dia em que nasceu, onde trabalha, onde estuda, etc, etc.
Muito jogador que sabia assinar o nome se pertubava. Bastou Leitão ir para o Vasco e teve que assinar a pepeleta de inscrição na frente de Célio Barros, então presidente da Liga Metropolitana. Célio de Barros não tirava os olhos de cima de Leitão. Leitão suando frio, parecia que não ia acabar nunca de encher a papeleta."
Mário Filho - O negro no Futebol Brasileiro.
Pouco a dizer depois de um exemplo tão eficaz do que temos feito ao longo desses quase cem anos, com os pobres, negros e analfabetos do nosso país.
Se não conseguiram impugnar a candidatura de Tiririca, não venham agora cassar sua eleição. Como ir contra a expressão de 1.300.000 pessoas que seja lá porque motivo foi, elegeram Tiririca com essa marca histórica. Parafraseando Daniel Marques: "roubar de gravata, paletó e diploma pode? Analfabeto, não?"
Não sei se ele vai roubar, não sei o que ele mesmo vai fazer lá (nem ele sabe...) mas que sua presença é genial em termos de provocações para nossa política e ainda em termo de performatividade, de expressividade, eu não tenho a menor dúvida.
A candidatura de Tiririca já foi um das maiores PERFORMANCES desse começo de década. Seu mandato não deve ser diferente. Ele faz o que o palhaço faz de melhor: ele assume e escancara o ridículo da situação. Vamos ver o que vai ser esta presença no Congresso. Quem sabe não é essa nossa salvação?
Leia também: http://correiodobrasil.com.br/somos-todos-palhacos-tiririca/184551/
Assine o abaixo assinado: http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/abaixoassinado/7167/1
É bolada, eleitor!
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MARINA, VOCÊ SE PINTOU??? Impossível não divulgar.
Marina,... você se pintou?
“Marina, morena Marina, você se pintou” – diz a canção de Caymmi. Mas é provável, Marina, que pintaram você. Era a candidata ideal: mulher, militante, ecológica e socialmente comprometida com o “grito da Terra e o grito dos pobres”, como diz Leonardo Boff.
Dizem que escolheu o partido errado. Pode ser. Mas, por outro lado, o que é certo neste confuso tempo de partidos gelatinosos, de alianças surreais e de pragmatismo hiperbólico? Quem pode atirar a primeira pedra no que diz respeito a escolhas partidárias?
Mas ainda assim, Marina, sua candidatura estava fadada a não decolar. Não pela causa que defende, não pela grandeza de sua figura. Mas pelo fato de que as verdadeiras causas que afetam a população do Brasil não interessam aos financiadores de campanha, às elites e aos seus meios de comunicação. A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra. Do governo Lula contra o governo do PSDB/DEM. Assim decidiram as “famiglias” que controlam a informação no país. E elas não só decidiram quem iria duelar, mas também quiseram definir o vencedor. O Estadão dixit: Serra deve ser eleito.
Mas a estratégia de reconduzir ao poder a velha aliança PSDB/DEM estava fazendo água. O povo insistia em confirmar não a sua preferência por Dilma, mas seu apreço pelo Lula. O que, é claro, se revertia em intenção de voto em sua candidata. Mas “os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz”. Sacaram da manga um ás escondido. Usar a Marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja.
Marina, você, cujo coração é vermelho e verde, foi pintada de azul. “Azul tucano”. Deram-lhe o espaço que sua causa nunca teve, que sua luta junto aos seringueiros e contra as elites rurais jamais alcançaria nos grandes meios de comunicação. A Globo nunca esteve ao seu lado. A Veja, a FSP, o Estadão jamais se preocuparam com a ecologia profunda. Eles sempre foram, e ainda são, seus e nossos inimigos viscerais.
Mas a estratégia deu certo. Serra foi para o segundo turno, e a mídia não cansa de propagar a “vitória da Marina”. Não aceite esse presente de grego. Hão de descartá-la assim que você falar qual é exatamente a sua luta e contra quem ela se dirige.
“Marina, você faça tudo, mas faça o favor”: não deixe que a pintem de azul tucano. Sua história não permite isso. E não deixe que seus eleitores se iludam acreditando que você está mais perto de Serra do que de Dilma. Que não pensem que sua luta pode torná-la neutra ou que pensem que para você “tanto faz”. Que os percalços e dificuldades que você teve no Governo Lula não a façam esquecer os 8 anos de FHC e os 500 anos de domínio absoluto da Casagrande no país cuja maioria vive na senzala. Não deixe que pintem “esse rosto que o povo gosta, que gosta e é só dele”.
Dilma, admitamos, não é a candidata de nossos sonhos. Mas Serra o é de nossos mais terríveis pesadelos. Ajude-nos a enfrentá-lo. Você não precisa dos paparicos da elite brasileira e de seus meios de comunicação. “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
A carta aberta de juristas em defesa de Lula
Em uma democracia, todo poder emana do povo, que o exerce diretamente ou pela mediação de seus representantes eleitos por um processo eleitoral justo e representativo.
Em uma democracia, a manifestação do pensamento é livre. Em uma democracia as decisões populares são preservadas por instituições republicanas e isentas como o Judiciário, o Ministério Público, a imprensa livre, os movimentos populares, as organizações da sociedade civil, os sindicatos, dentre outras.
Estes valores democráticos, consagrados na Constituição da República de 1988, foram preservados e consolidados pelo atual governo. Governo que jamais transigiu com o autoritarismo. Governo que não se deixou seduzir pela popularidade a ponto de macular as instituições democráticas. Governo cujo Presidente deixa seu cargo com 80% de aprovação popular sem tentar alterar casuisticamente a Constituição para buscar um novo mandato.
Governo que sempre escolheu para Chefe do Ministério Público Federal o primeiro de uma lista tríplice elaborada pela categoria e não alguém de seu convívio ou conveniência. Governo que estruturou a polícia federal, a Defensoria Pública, que apoiou a criação do Conselho Nacional de Justiça e a ampliação da democratização das instituições judiciais.
Nos últimos anos, com vigor, a liberdade de manifestação de idéias fluiu no País. Não houve um ato sequer do governo que limitasse a expressão do pensamento em sua plenitude.
Não se pode cunhar de autoritário um governo por fazer criticas a setores da imprensa ou a seus adversários, já que a própria crítica é direito de qualquer cidadão, inclusive do Presidente da República.
Estamos às vésperas das eleições para Presidente da República, dentre outros cargos. Eleições que concretizam os preceitos da democracia, sendo salutar que o processo eleitoral conte com a participação de todos.
Mas é lamentável que se queira negar ao Presidente da República o direito de, como cidadão, opinar, apoiar, manifestar-se sobre as próximas eleições. O direito de expressão é sagrado para todos imprensa, oposição, e qualquer cidadão. O Presidente da República, como qualquer cidadão, possui o direito de participar do processo político-eleitoral e, igualmente como qualquer cidadão, encontra-se submetido à jurisdição eleitoral. Não se vêem atentados à Constituição, tampouco às instituições, que exercem com liberdade a plenitude de suas atribuições.
Como disse Goffredo em sua célebre Carta: Ao povo é que compete tomar a decisão política fundamental, que irá determinar os lineamentos da paisagem jurídica que se deseja viver. Deixemos, pois, o povo tomar a decisão dentro de um processo eleitoral legítimo, dentro de um civilizado embate de idéias, sem desqualificações açodadas e superficiais, e com a participação de todos os brasileiros.
ADRIANO PILATTI - Professor da PUC-Rio
AIRTON SEELAENDER – Professor da UFSC
ALESSANDRO OCTAVIANI - Professor da USP
ALEXANDRE DA MAIA – Professor da UFPE
ALYSSON LEANDRO MASCARO – Professor da USP
ARTUR STAMFORD - Professor da UFPE
CELSO ANTONIO BANDEIRA DE MELLO – Professor Emérito da PUC-SP
CEZAR BRITTO – Advogado e ex-Presidente do Conselho Federal da OAB
CELSO SANCHEZ VILARDI – Advogado
CLÁUDIO PEREIRA DE SOUZA NETO – Advogado, Conselheiro Federal da OAB e Professor da UFF
DALMO DE ABREU DALLARI – Professor Emérito da USP
DAVI DE PAIVA COSTA TANGERINO – Professor da UFRJ
DIOGO R. COUTINHO – Professor da USP
ENZO BELLO – Professor da UFF
FÁBIO LEITE - Professor da PUC-Rio
FELIPE SANTA CRUZ – Advogado e Presidente da CAARJ
FERNANDO FACURY SCAFF – Professor da UFPA e da USP
FLÁVIO CROCCE CAETANO - Professor da PUC-SP
FRANCISCO GUIMARAENS – Professor da PUC-Rio
GILBERTO BERCOVICI – Professor Titular da USP
GISELE CITTADINO – Professora da PUC-Rio
GUSTAVO FERREIRA SANTOS – Professor da UFPE e da Universidade Católica de Pernambuco
GUSTAVO JUST – Professor da UFPE
HENRIQUE MAUES - Advogado e ex-Presidente do IAB
HOMERO JUNGER MAFRA – Advogado e Presidente da OAB-ES
IGOR TAMASAUSKAS - Advogado
JARBAS VASCONCELOS – Advogado e Presidente da OAB-PA
JAYME BENVENUTO - Professor e Diretor do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Católica de Pernambuco
JOÃO MAURÍCIO ADEODATO – Professor Titular da UFPE
JOÃO PAULO ALLAIN TEIXEIRA - Professor da UFPE e da Universidade Católica de Pernambuco
JOSÉ DIOGO BASTOS NETO – Advogado e ex-Presidente da Associação dos Advogados de São Paulo
JOSÉ FRANCISCO SIQUEIRA NETO - Professor Titular do Mackenzie
LENIO LUIZ STRECK - Professor Titular da UNISINOS
LUCIANA GRASSANO – Professora e Diretora da Faculdade de Direito da UFPE
LUÍS FERNANDO MASSONETTO - Professor da USP
LUÍS GUILHERME VIEIRA – Advogado
LUIZ ARMANDO BADIN – Advogado, Doutor pela USP e ex-Secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça
LUIZ EDSON FACHIN - Professor Titular da UFPR
MARCELLO OLIVEIRA – Professor da PUC-Rio
MARCELO CATTONI – Professor da UFMG
MARCELO LABANCA – Professor da Universidade Católica de Pernambuco
MÁRCIA NINA BERNARDES – Professora da PUC-Rio
MARCIO THOMAZ BASTOS – Advogado
MARCIO VASCONCELLOS DINIZ – Professor e Vice-Diretor da Faculdade de Direito da UFC
MARCOS CHIAPARINI - Advogado
MARIO DE ANDRADE MACIEIRA – Advogado e Presidente da OAB-MA
MÁRIO G. SCHAPIRO - Mestre e Doutor pela USP e Professor Universitário
MARTONIO MONT’ALVERNE BARRETO LIMA - Procurador-Geral do Município de Fortaleza e Professor da UNIFOR
MILTON JORDÃO – Advogado e Conselheiro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária
NEWTON DE MENEZES ALBUQUERQUE - Professor da UFC e da UNIFOR
PAULO DE MENEZES ALBUQUERQUE – Professor da UFC e da UNIFOR
PIERPAOLO CRUZ BOTTINI - Professor da USP
RAYMUNDO JULIANO FEITOSA – Professor da UFPE
REGINA COELI SOARES - Professora da PUC-Rio
RICARDO MARCELO FONSECA – Professor e Diretor da Faculdade de Direito da UFPR
RICARDO PEREIRA LIRA – Professor Emérito da UERJ
ROBERTO CALDAS - Advogado
ROGÉRIO FAVRETO – ex-Secretário da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça
RONALDO CRAMER – Professor da PUC-Rio
SERGIO RENAULT – Advogado e ex-Secretário da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça
SÉRGIO SALOMÃO SHECAIRA - Professor Titular da USP
THULA RAFAELLA PIRES - Professora da PUC-Rio
WADIH NEMER DAMOUS FILHO – Advogado e Presidente da OAB-RJ
WALBER MOURA AGRA – Professor da Universidade Católica de Pernambuco
terça-feira, 28 de setembro de 2010
A MIDIA COMERCIAL EM GUERRA CONTRA LULA E DILMA
Leonardo Boff*
Fonte: http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/2010/09/24/animos-se-acalmam-a-8-dias-da-eleicao/
Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.
Esta história de vida, me avaliza fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa.
Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de
fatos, a distorção e a mentira direta.
Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública.
São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, em que se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.
Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do país, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.
Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.
Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.
Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascendente como Lula.
Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo.
Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.
Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de “fazedores de cabeça” do povo.
Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.
O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceitual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros.
De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa se fizeram classe média.
Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, a melhorar de vida, enfim.
Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão social e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome.
Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.
O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil.
Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela Veja faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais, não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.
O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista? Ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?
Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.
*Teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
ADÉLIA PRADO, escolas e meninos (A João Vicente que se recusa diária e veementemente a ir para a escola)
"Desejo a morte de tudo que obriga um menino a escrever: mãe, estou desesperado.
O que é que eu faço, em que língua vou fazer um comício, uma passeata que irrompa nos gabinetes, nas salas de professores que tomam cafezinho e arrotam sua incomensurável boçalidade sobre o susto dos meninos desarmados?
Fazem política, os desgraçados, brigam horas e horas pela aula a mais, o tostão a mais, o enquadramento, o quinquênio, o milênio de arrogância, frustração e azedume.
Deus te abençoe filhinho, vai pra escola, seja educado e respeitador, honra teu mestre.
Mestre?
Onde é que tem um mestre no Brasil pra que eu lhe beije as mãos?
Jã não basta ser gente para encarnecer de dor? Ainda tem as escolas que se aplicar neste esmero de esvaziar dos meninos seu desejo de bois, gramas e pequenos córregos?
Ó, ofício demoníaco de encher de areia e confusão o que ainda é puro e tenro cálice.
Não quero dar aulas, ó meu deus, me livra desta aflição, me deixa dormir, me deixa em paz, aula de nada, de nada, aula de religião eu não quero dar.
Falo e me aflijo porque sei que não tem outro caminho senão começar de baixo, de trás, do fim da história, quando Deus pega Adão e lhe mostra as coisas, lhe deixa dar nome às coisas, lhe deixa, lhe deixa, ruminando seu espanto, sua alegria, sua primeira palavra...
Ó senhor presidente, ó senhor ministro, escuta: O menino foi à escola e escreveu a sua mãe: estou desesperado.
Escuta quem tenha ouvidos: os meninos do Brasil fenecem entre retórica, montanhas de papel e medo.
(Adélia Prado: SOLTE OS CACHORROS, 1979)
O que é que eu faço, em que língua vou fazer um comício, uma passeata que irrompa nos gabinetes, nas salas de professores que tomam cafezinho e arrotam sua incomensurável boçalidade sobre o susto dos meninos desarmados?
Deus te abençoe filhinho, vai pra escola, seja educado e respeitador, honra teu mestre.
Mestre?
Onde é que tem um mestre no Brasil pra que eu lhe beije as mãos?
Ó, ofício demoníaco de encher de areia e confusão o que ainda é puro e tenro cálice.
Não quero dar aulas, ó meu deus, me livra desta aflição, me deixa dormir, me deixa em paz, aula de nada, de nada, aula de religião eu não quero dar.
Falo e me aflijo porque sei que não tem outro caminho senão começar de baixo, de trás, do fim da história, quando Deus pega Adão e lhe mostra as coisas, lhe deixa dar nome às coisas, lhe deixa, lhe deixa, ruminando seu espanto, sua alegria, sua primeira palavra...
Escuta quem tenha ouvidos: os meninos do Brasil fenecem entre retórica, montanhas de papel e medo.
Entre ladrões, como Cristo na cruz."
(Adélia Prado: SOLTE OS CACHORROS, 1979)
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