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domingo, 11 de dezembro de 2011

FUTEBOL, POLÍTICA, EDUCAÇÃO E ARTE por José Miguel Wisnik

Este vídeo fez parte do vídeo maior que eu apresentei na minha defesa de mestrado.

Foi editado por mim e por Alexsandro Moreira, a partir do áudio de uma entrevista de José Miguel Wisnik para o programa Café Filosófico em 2009.


Não requer explicações, nem maiores introduções, porque ele é simplesmente demais.



quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A ESCOLA E O FUTEBOL

Enfim, sento-me à cadeira deste meu querido computador, para novamente escrever uma postagem decente para meu querido blog futebol de artista. Nesse período de férias, li algumas coisas sobre futebol. A novela do chato do Ronaldinho Gaúcho, um livro da Bravo sobre o tema, (é mole?) algumas coisas na Placar e quase nada da bibliografia que tenho que ler para o doutorado.

Ontem recebi uma grande e antiga amiga para almoçarmos. Ela é professora e o papo, obviamente, além de coisas de mulher, foi centrado na educação. Uma porque somos professoras, como já disse, outra porque fazemos pós, e sobretudo porque estudamos juntas nos idos de 1990 no Colégio Técnico da Fundação José Carvalho, sobre o qual eu tenho um post pronto, mas que vou divulgar mais tarde.

Entre tantas considerações, chegamos a um ponto que sempre é polêmico, porque estudo isso e quando falo sobre, acabo usando aquele tom meio parcial de quem defende seu objeto sem a menor noção de limite. Pois é assim, sem esse bom senso que vou escrever agora parte do que penso sobre futebol e estudo.

Tem um email que muita gente reencaminhou para mim, logo no fim da copa que foi uma fala de Cristóvam Buarque sobre a posição do Brasil no ranking do futebol e como os brasileiros ficaram chateados e sobre o descaso com a colocação do Brasil em termos de educação, que era aterrorizantemente pior do que no futebol. Ora, eu acho essa comparação coisa de quem tem muito o que fazer, mas não faz. Acho que estamos comparando coisas extremamente diferentes e acho  usar do sucesso do futebol para discutir o fracasso da educação, pelo menos sobre estes termos uma perda total de tempo. Discuto a relação entre futebol e escola se o ponto de partida não for tão preenchido de mágoa, preconceito e julgamentos repletos de uma caretice sem precedentes e de falta de boa vontade para a discussão.

Geralmente se diz que jogador de futebol não estuda. ora, como se explica, então, que um ser humano consiga correr, condizindo uma bola, ao mesmo tempo em que mira num alvo, que geralmente é um alvo em movimento - seu parceiro - quando além de comandar o tempo e força da corrida deve guiar a bola e arremessá-la a uma distância onde ele pressupõe que estará o tal do alvo móvel. Algum dos distintos leitores já se deu o trabalho de tentar jogar futebol?

É muita habilidade junta a ser desenvolvidae isso se consegue com o que? Anteção!!! Com estudo. Muito estudo. Claro que o termo que se usa na prática é treino, mas para mim, o que está em questão é o estudo prático de como realizar estas jogadas.

E o que mais me intriga nesse conhecimento prático de quem joga futebol é que é um conhecimento corporal. É um aprendizado do corpo. Nenhum jogador calcula em teoria com qual velocidade ele deve lançar a bola, ou ainda em que ângulo, ou mesmo qual a força a ser emitida por sua perna num chute ou numa defesa. O conhecimento, repito, é prático e corporal.

Quando falamos que os jogadores de futebol não estudam, estamos esquecendo de completar a frase, Talvez de fato a maioria deles não estuda aquilo que nós estababelecemos como indispensável a ser estudado por todos. Nós reduzimos o mundo a um só modelo de tudo, e com a educação não foi diferente. Assim, estudar significa estudar na escola, aqueles assuntos que foram definidos como os mais importantes.

A essa altura da conversa minha amiga perguntou se de fato os jogadores de futebol não estudam o estudo que nós consideramos padrão. Eu disse a ela que não dá para ser jogador profissional de futebol e fazer uma faculdade. Para mim, simplesmente, não dá. O jogador de futebol se dedica a seu ofício como os soldados espartanos se dedicavam à guerra. Da infância à fase adulta.

A vida deles é voltada para seu rendimento em campo. Sua alimentação, seus hábitos, sua família, tudo fica condicionado a isso. É claro que eu entendo que a força do mercado usa estes profissionais como bucha de canhã e lucram muito mais do que os incalculáveis salários que os jogadores ganham. Mas acho que apenas isso não infertiliza a discussão.

Acho que é preciso olhar para a prática do futebol - e o mal que o mercado lhe tem feito, como tem feito a tudo que toca - com um pouco mais de generosidade e mais que isso, boa vontade de compreender coisas que ele está aí para nos ensinar.

O futebol é interdisciplinar por natureza:
Integral, posto que o aprendizado se dá majoritariamente no corpo
Funcional do ponto de vista social, posto que todo o aprendizado estabelece-se numa perspectiva de unir aquilo que faço sozinho e aquilo que faço no coletivo e o que para mim é enfim o mais importante:
É um aprendizado significativo porque envolve, entre todas as demais coisas, o prazer, a alegria e o jogo.

E se acham que exagero ou que estou louca, repito, não estou sozinha. Ouça o que nos diz José Miguel Wisnik sobre a seleção do brasil de 1970:

"Futebol é uma linguagem sem palavras que está dizendo coisas que não são conscientes. Quando aqueles jogadores pegam a bola o tempo todo em campo, é uma longa história do povo brasileiro que está desembocando ali. Um país escravista e mestiço em que a escravidão foi abolida, mas os descendentes de escravos foram abandonas à sua própria sorte. Até hoje as injustiças, a desigualdade brasileira, a ausência de descendentes de escravos nas instituições, nas escolas... Essa desigualdade que é social, que é racial ela é uma história do país que se deu e que é uma história de injustiça.



No entanto é no campo de futebol que esses descendentes de escravos reverteram simbolicamente esta situação. Na música popular e no futebol que são as maiores conquistas do país e que se fizeram através de duas escolas informais. Não foi nenhuma escola que ensinou pra ninguém a música popular nem ensinou o futebol. O povo brasileiro criou isso e deu a isso uma dimensão mundial. Por isso que eu não admito que uma pessoa que se crê crítica vem chegar e dizer que aquilo é uma porcaria, e que é a ditadura. Não é a ditadura. Aquilo é a maior criação da história do povo brasileiro, revertendo a sua história de injustiça e criando simbolicamente – é verdade que aí nós vamos dizer ‘claro, é simbolicamente o país continua injusto, continua desigual’ – isso não quer dizer que seja uma democracia racial nem nada, portanto, cabe lutar para que seja, para que se tenha uma educação tão criativa nas escolas quanto o futebol e a música popular foram sem ter escola nenhuma. É a escola que tem que tomar aquilo como exemplo, aprender que aquilo ali é um exemplo de país." (Entrevista concedida ao Café Cultural em 2009.)


É bolada, Educador!!!!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

TIRIRICA E O VASCO DE 1923 - QUALQUER SEMELHANÇA, NÃO É MERA COINCIDÊNCIA, É PURA REINCIDÊNCIA

Na década de 20, no mundo do futebol o assunto era não só a presença dos negros no futebol brasileiro, mas também a qualidade do futebol jogado por eles. No começo da década, por mais que a superioridade dos jogadores negros fosse uma realidade, ainda se responsabilizava os jogadores de cor por qualquer derrota que por acaso seu clube viesse a sofrer.

Não era apenas uma questão de etnia - ou cor, ou raça, como se tratava à epoca - era também uma questão de classes. Pobres e ricos. Mas, um time quebrou algumas regras e colocou - pela qualidade de seus jogadores - o negro dentro dos campos. Acompanhem trechos do livro de Mário Filho, O Negro no Futebol Brasileiro, uma pérola da nossa bibliografia nacional, editada pela primeira vez em 1947. Com a palavra: Mário Filho:

"Na hora de assinar a súmula, via-se logo a diferença. Os acadêmicos  de medicina do Flamengo, escrevendo o nome depressa, os operários do Carioca levando toda a vida para garajutar o nome. Alguns suando frio, tremendo, achando que nunca seriam capazes de assinar o nome na frente de todo mundo. E tinham assinado o nome mais de mil vezes, de sexta a domingo, cobrindo as letras. Cada clube pequeno arranjava um professor. Só para isso, para ensinar jogador de futebol a assinar o nome.

Se ele errasse na súmula estava tudo perdido. o clube perdia os pontos, a Liga era capaz de chamá-lo para um examezinho. De be-a-bá. Dando uma cartilha para ele ler. Havia jogador que não aprendia a assinar o nome de jeito nenhum. Parecia que tinha aprendido, na hora esquecia, o clube precisava arranjar outro para entrar em campo.

Pascoal Cinelli, por exemplo, passou a ser Pascoal Silva. Um nome mais simples para aprender a assinar. Para ver a importância de saber assinar o nome. Importância que se exagerou pelo culto ao estudante. Havia, naturalmente, uma razão para esse culto. O Flamengo levantou dois campeonatos seguidos, o de 1914 e o de 1915, com um time quase de acadêmicos de medicina. Outros grandes clubes, o Fluminense, o América, o Botafogo, tinham estudantes, mas não assim nessa proporção esmagadora. Nove acadêmicos de medicina e um de direito no time. Quanto mais estudantes, melhor. O que parecia provar que só estudante é que tinha que jogar."

E nesse modelo, o torneio carioca vai seguindo. Os grandes times unidos, criando cada vez mais dificuldade para os jogadores negros, pobres e analfabetos jogarem, criando as estratégias mais absurdas. Os grandes times, ainda com poucos destes jogadores. Os times da segunda divisão, com maior liberdade e mais negros em seu escrete, continuavam assim: pequenos e de segunda divisão. Acontece que um time de negros e pobres fugiu à regra:


"Um clube da segunda divisão, porém, subiu para a primeira divisão. Chamava-se Clube de Regatas Vasco da Gama, e trouxe com ele, mulatos e pretos. (...) Ninguém ligou importância à ida do Vasco para a primeira divisão. Que é que podia fazer um clube de segunda divisão contra um América,c ampeão do Centenário, contra um Flamengo, bicampeão, contra um Fluminense, tricampeão?

O Vasco que botasse quantos mulatos, quantos pretos quisesse no time. Tudo continuaria como dantes, os brancos levantando os campeonatos, os mulatos e os pretos nos seus lugares, nos clubes pequenos.

Mas, quanto mais o Vasco vencia, mais os campos enchiam. Até o estádio do Fluminense ficou pequeno. Gente que nunca tinha assistido a uma partida de futebol deu para comprar a sua arquibancada. Tudo português, o português se julgando obrigado a ir para onde o Vasco ia.

Tornou-se quase uma questão nacional derrotar o Vasco. Os pobres das peladas e dos clubes pequenos brancos, mulatos e pretos dando nos times dos grandes clubes, só de brancos, de gente fina, de sociedade. Muitos sem saber ler nem escrever, mal assinando o nome, sem emprego, sem nada. O time da mistura estava na frente do campeonato, sem uma derrota. tinha de perder, pelo menos uma vez, de qulalquer maneira. O Flamengo não se preparara durante a semana para outra coisa. Treinando o dia todo, dormindo cedo, pondo a garagem em pé de guerra. Quando o jogo começou o Flamengo tomou conta do campo, da arquibancada, da geral, de tudo. Flamengo um a zero, pás de remo embrulhadas em Jornal do Brasil batendo nas cabeças dos vascaínos. Flamengo dois a zero, e novamente as pás de remo subindo e descendo. Quem era do Vasco não tinha direito de abrir a boca.


O Flamengo deixara de ser um clube, um time, era todos os clubes, todos os times, o futebol brasileiro, branquinho de boa famíllia. Tudo estava nos eixos novamente. O pessoal do Vasco quieto, esperando a virada. O primeiro milho era dos pintos. O Flamengo esperasse para ver uma coisa. Às vezes, o Vasco estava apanhando de três a zero, virava,ia ganhar o jogo de quatro,cinco.

Foi começando o segundo tempo, gol do Vasco. E os vascaínos sem poder gritar gol. Um gritozinho, uma pá de remo na cabeça. Só se gritava Flamengo, o Flamengo acabou fazendo mais um gol. Não havia rádio e, apesar de não haver rádio, toda a cidade soube, quase no mesmo instante que o Vasco tinha perdido. Foi um segundo carnaval.

E durante muitos dias casa comerciais de portugueses penduraram um carttaz atrás do balcão que dizia assim:

 'É PROIBIDO FALAR EM FUTEBOL'!

Veio outra semana, o Vasco continuou a vencer, não perdeu mais até o fim do campeonato. A vitória do Flamengo tinha dado a ilusão de que tudo ia voltar a ser o que era dantes: os times brancos levando campeonatos, os times de preto perdendo sempre. A ilusão durou pouco, os clubes finos, de sociedade, estavam diante de umf ato consumado. Não se ganhava campeonato só com times de brancos. Um time de brancos, mulatos e pretos era o campeão da cidade. Era uma verdadeira revolução que se operava no futebol brasileiro. Restava saber qual seria a reação do grandes clubes.

A reação foi tremenda. Em 1924 nascia a AMEA, uma liga de grandes clubes, sem o Vasco."

Essa liga criou regras inacreditáveis para fazer com que os jogadores pobres e negros do Vasco não pudesesm atuar. Era obrigado a trabalhar, as fábricas eram vigiadas para ver se os jogadores estavam trabalhando. Era a fase do futebol amador. era obrigatório estudar. Criou-se a terrível prova do Ba-a-bá. Essa mesma, Deputado Tirirca. Assunte;

"Acabara-se o tempo de o jogador só precisar saber assinar o nome na súmula. Se não soubesse escrever e ler corretamente e na presença de alguém assim como o presidente da liga estava cortado.

Um pouco antes do jogo, o juiz chamava os jogadores, um por um, o jogador assinava a súmula e pronto. Mas a Liga foi exigindo mais. A papeleta de inscrições tornou-se quase um exame de primeiras letras. Um aporção de perguntas. Nome por extenso, filiação, nacionalidade, naturalidade, dia em que nasceu, onde trabalha, onde estuda, etc, etc.

Muito jogador que sabia assinar o nome se pertubava. Bastou Leitão ir para o Vasco e teve que assinar a pepeleta de inscrição na frente de Célio Barros, então presidente da Liga Metropolitana. Célio de Barros não tirava os olhos de cima de Leitão. Leitão suando frio, parecia que não ia acabar nunca de encher a papeleta."



Mário Filho - O negro no Futebol Brasileiro.


Pouco a dizer depois de um exemplo tão eficaz do que temos feito ao longo desses quase cem anos, com os pobres, negros e analfabetos do nosso país.

Se não conseguiram impugnar a candidatura de Tiririca, não venham agora cassar sua eleição. Como ir contra a expressão de 1.300.000 pessoas que seja lá porque motivo foi, elegeram Tiririca com essa marca histórica. Parafraseando Daniel Marques: "roubar de gravata, paletó e diploma pode? Analfabeto, não?"

Não sei se ele vai roubar, não sei o que ele mesmo vai fazer lá (nem ele sabe...) mas que sua presença é genial em termos de provocações para nossa política e ainda em termo de performatividade, de expressividade, eu não tenho a menor dúvida.

A candidatura de Tiririca já foi um das maiores PERFORMANCES desse começo de década. Seu mandato não deve ser diferente. Ele faz o que o palhaço faz de melhor: ele assume e escancara o ridículo da situação. Vamos ver o que vai ser esta presença no Congresso. Quem sabe não é essa nossa salvação?


Leia também: http://correiodobrasil.com.br/somos-todos-palhacos-tiririca/184551/
Assine o abaixo assinado: http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/abaixoassinado/7167/1

É bolada, eleitor!


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terça-feira, 21 de setembro de 2010

ADÉLIA PRADO, escolas e meninos (A João Vicente que se recusa diária e veementemente a ir para a escola)

"Desejo a morte de tudo que obriga um menino a escrever: mãe, estou desesperado.


O que é que eu faço, em que língua vou fazer um comício, uma passeata que irrompa nos gabinetes, nas salas de professores que tomam cafezinho e arrotam sua incomensurável boçalidade sobre o susto dos meninos desarmados?

Fazem política, os desgraçados, brigam horas e horas pela aula a mais, o tostão a mais, o enquadramento, o quinquênio, o milênio de arrogância, frustração e azedume.

Deus te abençoe filhinho, vai pra escola, seja educado e respeitador, honra teu mestre.

Mestre?

Onde é que tem um mestre no Brasil pra que eu lhe beije as mãos?

Jã não basta ser gente para encarnecer de dor? Ainda tem as escolas que se aplicar neste esmero de esvaziar dos meninos seu desejo de bois, gramas e pequenos córregos?

Ó, ofício demoníaco de encher de areia e confusão o que ainda é puro e tenro cálice.


Não quero dar aulas, ó meu deus, me livra desta aflição, me deixa dormir, me deixa em paz, aula de nada, de nada, aula de religião eu não quero dar.

Falo e me aflijo porque sei que não tem outro caminho senão começar de baixo, de trás, do fim da história, quando Deus pega Adão e lhe mostra as coisas, lhe deixa dar nome às coisas, lhe deixa, lhe deixa, ruminando seu espanto, sua alegria, sua primeira palavra...

Ó senhor presidente, ó senhor ministro, escuta: O menino foi à escola e escreveu a sua mãe: estou desesperado.

Escuta quem tenha ouvidos: os meninos do Brasil fenecem entre retórica, montanhas de papel e medo.
Entre ladrões, como Cristo na cruz."

(Adélia Prado: SOLTE OS CACHORROS, 1979)

domingo, 19 de setembro de 2010

Neymar, nossos jovens e nosso dever de casa

Pensei muito no que escrever sobre o chilique de Neymar com o técnico Dorival Júnior, mas não tinha uma idéia consolidada. Ontem, conversando com um amigo professor, meu querido Rômulo Matos e com meu digníssimo amor (nós dois também professores) sobre o comportamento dos adolescentes na sala de aula, acabei por achar a liga que faltava.

Não quero falar sobre o fato da fama ter subido à cabeça de Neymar e tudo o mais que já parece bem batido e evidente. "Estamos criando um  monstro" disse alguém, não sei se o próprio Dorival. Relacionar de alguma forma o comportamento de Neymar agora com o de Bruno também parece ser quase que uma tendência. Começa assim, acaba como o outro.

Mas, para mim, em termos de fama, o que aconteceu foi justo o contrário. Não acho que Neymar tenha feito isso porque é famoso, mas talvez justamente por ter esquecido deste pequeno detalhe no momento da confusão. Acho que foi a hora em que o Neymar bonzinho, das propagandas com crianças saiu de cena e deu lugar para o adolescente desaforado, cheio de si, desrespeitoso e sem limites. E isso, justamente isso, o aproxima mais dos jovens de sua idade, do que a imagem de bom moço que foi exaustivamente trabalhada durante todo o ano de 2010, pelas redes de TV pela descontrolada e cabonita Revista Placar, enfim, pelos meio de comunicação.

Mas, voltemos aos nossos jovens que odeiam a escola, desrespeitam os professores, não lêem, não refletem, não têm posicionamento político e todas essas coisas que dizemos em qualquer esquina sobre eles e, mais do que isso, cobramos diariamente que mudem. MUDEM. MUDEM.

E, aqui eu peço um aparte. Como podemos exigir que ELES mudem, se não mudamos, nós??? Como é que eles vão mudar, se foi isso que fizemos deles? Será mera coinscidência que toda uma geração seja assim, como a julgamos: acéfala, apolítica, aculturada???

Precisamos parar de culpar e de tentar fazê-los mudar à força e nos jogarmos profundamente numa auto-crítica coletiva de toda uma geração. Toda uma geração mesmo, porque não estamos falando de Salvador, de Bahia ou Brasil. Quem já viu - só para citar um exemplo - Entre os Muros da Escola, um filme francês, deve perceber que este modelo de juventude é universal. E mais do que encarar este modelo como um problema, eu acredito que ele seja uma característica dessa geração e que apenas não responde às nossas expectativas que não são necessariamente o que de melhor existe em termos de comportamento.

O que a nossa geração fez? Cantou o hino na porta da escola? Hasteou a bandeira? Vestiu uniforme? Pintou a cara??? Pra quê??? Pra construir o balaústre do neoliberalismo que destruiu o mundo dividindo-o entre milionários e miseráveis. Foi isso que a nossa geração fez. Orgulhosos??? Somos melhores que os jovens que 'não pensam'??? Não estou tão certa.


Nossa geração está tranquila dentro de seu apartamento financiado, no engarrafamento dentro de seu carro retalhado em prestações. Está dentro dos cinemas com ar-condicionado e livrarias de papel couché. Estamos nos programas de pós-graduação estudando nossos projetos mais eficazes de endogenia crônica.

Quando não, estamos assustados dentro dos ônibus coletivos, uns com medo dos outros. Trabalhadores acuados usurpados pelo patrão no trabalho e pelo nosso igual, viciado que virou assaltante. O MUNDO DIVIDIDO ENTRE OS QUE NÃO COMEM E OS QUE NÃO DORMEM COM MEDO DOS QUE NÃO COMEM. (Vi essa frase no filme de Milton Santos, mas não me lembro seu autor).

Será que insistir numa escola com modelo militar, de grade curricular, paredes, ferro e cadeado é o melhor que podemos fazer? Será que culpar os jovens por aquilo que eles são - mas do que não têm a menor culpa - é sensato?

Foi você que criou seu filho!!! Fomos nós que fizemos essa geração. Se há culpados, coisa que eu não acredito, somos nós. Nós que não realizamos as promessas da democracia. Nós, que sem o saudosismo das guerrilhas contra o regime militar, contra a divisão do mundo em dois, nós que nos afundamos nas compras, na fama, nos privilégios. Nós que buscamos soluções apenas para nossos problemas individuais, nunca sociais.

Mas, somos nós culpados, também???
Nossos pais?
Nossos avós?
Adão e Eva?
Darwin?

Não quero dizer, com tudo isso, que a vida é fruto do nada, e que não temos poder nenhum de decisão ou interferência. Muito pelo contrário, por mais contraditório que isso possa parecer.

Eu acho que o caminho está traçado e tentar fazer dos jovens de hoje o que fomos na nossa própria juventude e que nós achamos o máximo é jogo perdido. Ainda bem!!!

Eu imagino que algo de muito novo e transformador pode estar por acontecer. Sob novos paradigmas. Não este paradigma político-ideológico que nos guia há séculos. Um novo. Tão novo que eu sequer desconfio o que seja ou com o que se parece. E não estou criando aqui nenhuma nova teoria. São ecos de pensamentos como o de Michel Maffesoli, por exemplo e do próprio Miltons Santos.

De mim mesma só sei que não odeio os jovens. Nem os insuportaveizinhos dos adolescentes. Às vezes, me desespero com eles, perco a paciência, faço meus discursos envelhecidos em carvalho. Mas depois me lembro que os estou comparando com um modelo que EU decidi ser o melhor.

Acho que SÓ eles poderão construir algo realmente novo. Talvez eu esteja redondamente enganada. Ou talvez excessivamente otimista.

Mas, não se enganem: estes jovens HORROROSOS que detestamos somos nós, numa nova versão.

Ou a gente credita alguma confiança a estes nossos filhos, estas nossas sementes, e tentamos minimamente cooperar com a construção do novo, ou estaremos, nós mesmos atuando em função de um fim trágico, que já idealizamos como sendo de responsabilidade deles, mas que no fundo, no fundo, está impregnado de nossas impressões digitais. Se não der para ajudar, não atrapalhemos. Muito ajuda quem pouco atrapalha, Já cometemos erros demais até aqui.

Neymar. Segura a onda. Você é uma referência e sabe disso.


Mas eu não canso de dizer: eu gosto e acredito nos jovens de hoje!!!



É bolada, velho-rabugento!!!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A LEI PELÉ E A LEI PÉ NA BUNDA!


No futebol é antiga uma questão que intriga e provoca polêmica, protestos e manifestações. É a situação dos jogadores de futebol em relação a sua profissionalização e seus direitos trabalhistas, envolvendo, sobretudo a questão do passe do jogador. Escravidão ou passe livre?


A Lei Pelé (9615/98) tenta resolver de alguma forma este impasse, tornando o jogador dono do próprio passe, mas não avança em termos de direitos do trabalhador. Usado como um eficaz instrumento do jogo - como a bola ou a trave - o jogador é sugado ao máximo, enriquece diretores de clubes e empresários e quase sempre, acaba na miséria e no esquecimento.

Na arte-educação, não é diferente. Olha lá se não é pior. Explico já o aparente exagero.

Sem espaço nas instituições públicas, que rarissimamente abrem concursos para a área de artes - seja em nível de ensino básico ou superior - este profissional vive de pratinho na mão pedindo uma esmolinha numa ong aqui, uma ajudinha num projeto ali, uma vaguinha numa escolinha de bairro que não vai lhe assinar carteira. Nas escolas públicas, as aulas de arte são ministradas por professores de religião, português, filosofia e - pasmem - até de matemática. O critério? O professor que precisa de horas, pega as aulas de artes. Dá pra levar a sério um país desse? Alô LDB!

E as ogns, essas bem intencionadas instituições que querem salvar o mundo com arte-educação e cidadania. Pois bem. Começassem respeitando aqueles que estão na ponta, na sala de aula, no dia a dia! Como salvar criancinhas, adolescentes e jovens de um mundo brutal e cruel se este modelo de mundo é reproduzido dentro da própria instituição? Quero esclarecer que falo aqui das ongs que vem de "cima" e querem ajudar os coitadinhos de "baixo", movimentando um dinheiro considerável disponibilizado para salvar o mundo. Retiro deste saco, ongs nascidas das comunidades, geridas e coordenadas por ela, a exemplo da Casa do Sol Pe. Luiz Lintner e Beje-Eró, para citar apenas algumas. Mas, avancemos.

Diretos humanos são a cachaça da vez. Toda ong fala neles, cita seus artigos a torto e a direito, como dizem os mais velhos. E lá, na bendita declaração tá escrito:

Artigo 24: Todo o homem tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.
Ongs e projetos especiais do governo (seja ele de que instância for) não assinam carteira, não garatem direitos, raras vezes oferecem benefícios e claramente infrigem a Consolidação das Leis Trabalhistas. Geralmente argumentam que o contrato de prestação de serviço não está ligado à CLT, mas no dia-a-dia o que somos é exatamente isso: trabalhadores.

Educador de ong é aquele que apela por um emprego, sujeitando-se às mais impensadas e humilhantes situações. Quando consegue uma vaga, é frequentemente lembrado que o "mercado" vai mal e que ele deveria muito era agradecer a oportunidade de estar ali. Quando o salário atrasa, é convidado a pensar como 'ong' e assim entender que as condições de trabalho são outras. É convidado a pagar de seu próprio bolso, transporte, alimentação e todos os juros das contas pagas em atraso, porque o recurso não saiu.

Fim de ano para educador de ong é um tormento. Sem estabilidade, sem 13º, sem férias, sem ao menos os salários de janeiro e fevereiro, este profissional tem verdadeiro pavor de virada de ano, pois já sabe que é tempo de vacas magras. Ao fim do projeto, em novembro ou dezembro, recebe um muito obrigado do gestor, a promessa de que talvez no ano que vem ele seja chamado novamente. Ah, mas lembre-se que para o projeto ser renovado, a gente vai precisar daquele relatório, com lindas fotos e um número de inscritos, não de concluintes... quem tá na prática sabe do que eu tô falando!

E lá se vai todo vínculo, levando com ele qualquer possibilidade de respeito, direitos e cidadania! E todos esses "temas transversais" tornam-se "temas proibidos". Das bizarras reuniões pedagógicas onde se distribuem textos sobre educação humanista à realidade dos fatos, as coisas mudam completamente de figura. Carteira assinada? FGTS? Seguro Desemprego? Licença maternidade? Plano de Saúde? Fala sério! Conquista de mais de 50 anos da classe trabalhadora, são ainda um sonho,uma proposta de futuro para arte-educadores... e jogadores de futebol!

Ok. O que fazer, então?

A democracia corintiana (movimento surgido na década de 80 no Corinthians, liderado por um grupo de futebolistas politizados: Sócrates , Wladimir, Casagrande e Zenon que constituiu o maior movimento ideológico da história do futebol brasileiro e foi um período da história do clube onde as decisões importantes, tais como contratações, regras da concentração, entre outros, eram decididas pelo voto, sendo assim uma forma de autogestão - EU AMO WIKIPEDIA!), trouxe ao futebol brasileiro uma possibilidade de algo improvável, mas que se tornou possível porque alguém ousou falar, refletir e propor mudanças. E olha que era época de ditadura militar. Desenhou-se no futebol um modelo sonhado para a vida real.

Considero que o movimento é forçar a barra dentro das instituições e projetos para que a nossa realidade pare de contradizer o nosso discurso dentro da sala de aula. Precisamos fazer de fato o que estamos ensinando na teoria. Paulo Freire já nos alertou que educação exige coerência. E se a gestão das ongs não está preocupada com isso, é preciso fazer com que se preocupe, senão por uma questão conceitual e ideológica, que seja porque isso virou para eles um problema. É preciso uma postura política. Sempre! As lutas e articulações políticas de classe tendem a ser esvaziadas e consideradas ineficazes, ultrapassadas e até ridículas. Mas isso é uma ação deliberada. Somos levados a crer que nada tem jeito, que nada adianta. É MENTIRA!

O que querem é que fiquemos parados, calados, isolados e intimidados. Assim, somos presas fáceis. Temos medo e vergonha de nos posicionarmos, de perguntar, de exigir direitos, informações.

Somos tratados como objetos dos projetos. Como a gaveta ou o grampeador, o arte-educador não faz parte das propostas nem das soluções. Pode até achar que faz, mas no fundo, não faz não. É preciso bater na mesa, chutar o balde, meter o pé na porta. Chega de sermos a "bucha de branco" do dominó do terceiro setor. Se vc está com problemas desse tipo e tem parceiros que querem lutar, fortaleça sua luta. Atue no coletivo. Não enfraqueça a luta de quem tem coragem de começar! A gente é maior do que imagina, me contou Augusto Boal. Seu colega de profissão é um aliado, não um concorrente. Ou a gente se enxerga como um todo e pára de lutar pela moedinha no fundo do prato, ou jamais seremos donos do nosso próprio passe. Jamais teremos mando de campo. Jamais seremos a bola da vez.

É bolada, arte-educador!