segunda-feira, 16 de maio de 2011

MEU ÍDOLO ESTÁ NO BANCO


O primeiro sintoma foi deixar de sofrer quando era jogo do Corinthians. Dizia que aquilo já não lhe fazia mais tanto sentido:

"Tanto faz..."

Aos poucos, nem sabia mais se o timão estava jogando ou se passava Faustão.

Entra tantas densas baforadas, cinzas, pesadas e cruéis, seus olhos foram ficando acinzentados como a nuvem constante que o acompanha, sempre do lado de fora da casa, buscando incomodar o menos possível.

O cabelo, cinza também. Ralo e cinza. A pele perdendo seu vigor, a coluna desistindo a cada dia. As pernas, uma puxando a outra. Uma mão no bolso, outra no cigarro e lá vai ele calmamente pelas ruas largas do Guigó. Mas, o mais eloquente, sempre foi o olhar.



Nosso país não sabe o que fazer com seus velhos. Eles saem do mercado de trabalho e desaparecem sem sumir. Sem função. Sem projeto. Sem desafio. Depois de quase meio século trabalhando, tendo enfrentado pau-de-arara da Bahia a São Paulo. De pedreiro a zelador. De garanhão a pai maduro. Nada disso parece garantir uma velhice plena, feliz ou animada. Zumbis, viram os homens de outrora.

Os conflitos pipocam e de repente, só a monstra fumaça cinza. "Meu amigo" como ele insiste.

A presença das filhas e netos é constante, mas não aplaca a solidão.

Voltar para o mato, para o seio da família, para o verde e o azul da roça, onde cantam passarinhos e cacarejam as galinhas, talvez traga paz à alma. E o olhar, um portal do passado. Quanta recordação.

Eu não entendo meus sentimentos. Minha compreensão e força súbitas. Meu silêncio e meu suspiro. Minha vontade de acertar. Meu otimismo talvez bobo e infundado, talvez certo e decisivo.

Não sei de nada, não quero nada. Existo e amo e só isso me basta.

Quando rezo, peço qualquer coisa, peço o que seja bom, sem saber o que isso é. Mas rezo e sempre adormeço no terço. Sono bom.

Não vejo nem sinto nada com clareza, nessa nuvem espessa, cinza e cruel.



Essa fumaça inimiga que cerca e vence, sempre vence.

Mas, só ele sabe de si. De seus dias de glória e de seus dias de banco. Respeito suas decisões e seus apegos. Não sou moralista. Não aconselho. Não dou sermões. Escolha seus amigos. Escolha suas formas. Escolha suas saídas. Ao menos isso deve restar a um homem.

Na base, outro pequeno homem se prepara. O jogo não pára. E eu no meio, cercada desses incríveis homens maravilhosos que me ensinam e me completam. No mês das mães, noivas e marias, louvo os homens da minha vida e seguro a mão do meu ídolo sentado no banco.



ÁRVORE DA ESPERANÇA! MANTÉM-TE FIRME! (Frida Kahlo)

Nenhum comentário:

Postar um comentário